Falta de união dos clubes dificulta combate à violência dos torcedores

Nem mesmo depois de apelo do presidente do Palmeiras os dirigentes se dispõem a mudar relacionamento com as organizadas

GONÇALO JUNIOR E RAPHAEL RAMOS, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2013 | 08h26

SÃO PAULO - Enquanto o goleiro Fernando Prass era atendido por médicos em Buenos Aires, levando três pontos na cabeça depois de ser atingido por uma xícara atirada por um torcedor, o presidente do Palmeiras, Paulo Nobre, convocava uma entrevista coletiva na Academia de Futebol para avisar que a partir daquela quinta-feira, 7 de março, as organizadas não teriam mais nenhum tipo de regalia. E mais: Nobre lançou uma cruzada contra a violência no futebol e pediu o apoio dos rivais Corinthians, São Paulo e Santos para que cenas como as vividas pelo elenco palmeirense na Argentina não voltassem a acontecer.

Mais de uma semana depois, porém, nada mudou. "Eu preciso muito que os meus companheiros presidentes de outros clubes abracem essa ideia, caso contrário o Palmeiras vai ser um clube sozinho, tentando nadar contra a correnteza. A partir do momento em que uma frente de clubes, federações e órgãos públicos reme para o mesmo lado, a situação se resolve", disse Nobre ao Estado na sexta-feira.

O presidente do Palmeiras foi procurado apenas por Luis Alvaro Ribeiro, do Santos, que lhe deu os parabéns pela vitória na eleição de 21 de janeiro e disse que o colega poderia contar com ele. A conversa, no entanto, não evoluiu e o clube alvinegro não parece muito disposto a mudar o seu relacionamento com as organizadas, como diz o presidente em exercício Odílio Rodrigues (Luis Alvaro está em licença após ser submetido a um cateterismo).

O dirigente admite que o clube doa ingressos para a torcida - não soube dizer a quantidade -, banca uma parte do aluguel dos ônibus utilizados nas caravanas para jogos fora da Vila Belmiro e ainda ajuda financeiramente o desfile no carnaval da Torcida Jovem.

"Essa é uma prática antiga. Antes, o Santos dava dinheiro. Hoje, não dá mais", diz Rodrigues, dando a entender como o modelo funciona. "Desde que o presidente Luis Alvaro assumiu, temos um bom relacionamento. Não há mau comportamento dos torcedores."

No dia seguinte à morte do torcedor boliviano Kevin Espada, em Oruro, o presidente corintiano Mario Gobbi começou a bater insistentemente na tecla de que seu clube não financia viagens ou ingressos para as organizadas. "É uma relação de respeito e diálogo, como em qualquer outro clube."

A realidade, no entanto, não é bem assim. Sob condição de anonimato, diretores da Gaviões da Fiel, principal organizada do clube, dizem que o Corinthians costuma bancar as viagens na Libertadores. Líderes de várias facções do Alvinegro estão enraizados no Parque São Jorge e fazem parte da vida do clube. Na atual diretoria, o responsável pelo departamento financeiro é Raul Corrêa da Silva. Ele fundou a Gaviões em 1969 (é sócio número 11) e também a Camisa 12 (sócio número dois).

Neste sábado, no Pacaembu, Gobbi disse que procuraria Nobre nos próximos dias. "Quero ir atrás das causas da violência, não dos efeitos. Isso é uma coisa profunda. Ninguém cuida das causas dos problemas, só se fala dos efeitos e de sensacionalismo", afirmou. O presidente do Corinthians mostrou-se irritado. "Isso aqui é um país que não respeita a Constituição, vivemos uma mediocridade generalizada. Estou revoltado de viver num paisinho assim."

O São Paulo está no canto oposto. Representantes da Independente, principal torcida organizada do clube, reclamam que não conseguem diálogo com a diretoria e afirmam que não têm regalias. Há poucos conselheiros ligados à organizada e eles não costumam trabalhar para a torcida. "Não queremos dinheiro. Queremos apenas que o clube nos reconheça", diz André Nascimento, diretor de relações públicas da torcida.

Com os rivais mais voltados para seus próprios interesses, Paulo Nobre tenta resolver os problemas do Palmeiras e a solução, segundo ele, passa por tirar as organizadas do dia a dia do Palestra Itália. "A partir do momento em que a torcida deixou de agir como torcida e passou, por causa de uma minoria, a agir como vândalos, não dá mais para ter nenhum tipo de relacionamento."

Antes do ataque da torcida aos jogadores em Buenos Aires, o Palmeiras cedia às organizadas os ingressos para jogos no exterior e, nas partidas em que o mando era do clube, as facções tinham prioridade na compra de bilhetes. Nessa cota, boa parte era de meias-entradas. "Eu vendia o que eles me pediam, e dentro das torcidas você tem estudantes, professores...", explica Nobre.

INVESTIGAÇÃO

A Procuradoria do Tribunal de Justiça Desportiva deve se reunir amanhã com a presidência da Federação Paulista de Futebol para decidir quem prestará os primeiros depoimentos no inquérito que vai investigar se os clubes comercializam de maneira irregular ingressos para as torcidas organizadas. As conclusões do inquérito serão encaminhadas ao Ministério Público e à Procuradoria-Geral da República.

Também estão na mira da Justiça os torcedores que participaram da agressão na Argentina. Um investigador de polícia foi à Academia de Futebol pedindo que funcionários e atletas prestassem depoimento para identificar e punir os agressores.

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