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Ugo Giorgetti
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Fama e fortuna

O gol foi lindo. A premiação muito justa. Não sei quantos votos o gol obteve aqui, nem a quantidade de votos que obteve em outros países. A mística brasileira no futebol, apesar de muito abalada nos últimos anos, ainda é forte. Certamente, dada a nossa pobreza, agora também futebolística, ninguém esperava que o gol vencedor viesse daqui. Nem a Fifa, nem os anunciantes, nem a imprensa, ninguém. Mas ao ver o que tinham nas mãos todos passaram a se aproveitar largamente.

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

17 de janeiro de 2016 | 03h00

No Brasil então foi uma verdadeira febre. Só se fala em Wendell Lira, o homem que venceu Messi e fez o gol mais belo do mundo. Num futebol que busca incessantemente algo que lembre a glória passada, o acontecimento caiu como uma luva.

Depois de uma semana do fato a coisa só faz aumentar, e a cada dia tomamos conhecimento de algo novo que vem reafirmar a celebridade da conquista. São fotos, filmes, festas, declarações, autógrafos, multidões esperando no aeroporto. Aos poucos me parece que Wendell Lira está se convencendo de que um sonho se tornou realidade e, cada vez mais confiante, não recusa nada. Goza seu momento de glória e faz muito bem.

É a primeira vez que em sua carreira, que já anda pela metade, acontece coisa tão eletrizante. Todo jogador sonha com duas coisas que se conectam: fama e fortuna. Wendell conquistou certamente a primeira e, para qualquer jogador, isso é um sonho cumprido, uma ambição alcançada. Já há fotos, vídeos e reportagens para exibir aos filhos, netos e bisnetos. Resta a fortuna.

No caso de Wendell Lira, observando tudo daqui, de longe, me parece que todos estão ganhando, menos ele. Ganha primeiro a Fifa, esperando recuperar um pouco de respeitabilidade ao organizar uma competição que premia quem merece, mesmo pouco conhecido. Uma combinação de generosidade, honestidade e retidão é mais do que a Fifa atual poderia pretender.

Ganham os políticos em geral. Já ouvi toda a sorte de homenagens ao jogador, inclusive uma estátua a ser colocada em praça pública para comemorar a façanha. Naturalmente o político que concebeu a ideia já se vê ao lado da estátua discursando para o povo. De preferência nas proximidades de alguma eleição em que esteja na disputa.  Agora ouço falar em games, já que nosso craque também venceu o campeão mundial de videogame num jogo. Parece que também se trata de um feito e, evidentemente, caiu nas graças dos empresários de videogame.

No meio disso tudo, espero que esse jovem tenha pelo menos um amigo que veja as coisas com um pouco mais de frieza. Mesmo supondo que esse amigo exista, vou fazer o papel dele. Wendell, pelo amor de Deus, cobre por tudo o que você fizer. Estabeleça um preço para cada um de seus movimentos. Venda imediatamente o troféu que a Fifa lhe deu. Fixe um preço para qualquer associação do seu nome com videogames e demais extravagâncias que virão. Dispense qualquer estátua, prefira o valor dela em dinheiro. Não tenha nenhum receio de cobrar por entrevista.

No futebol, como na sociedade em que estamos, não há nada grátis. Ou você acha que o Neymar estava ao seu lado na festa da Fifa de graça, sorridente, com um lindo chapeuzinho metido na cabeça? Faça isso enquanto é tempo. Arranque o que puder. Lembre-se não do que o futebol está lhe oferecendo como possibilidade futura, mas de tudo o que lhe negou no passado.

Não dê importância exagerada para o fato de ter sido contratado pelo Vila Nova. Tire suas conclusões do que disse o próprio presidente do Viila Nova, talvez num ato falho: "O Wendell vai estar em campo dia 31 no maior clássico do Centro-Oeste. Estamos com estrela, fizemos a contratação certa na hora certa". Pois é, mas "hora certa" para quem? A hora certa, para você, Wendell, teria sido antes da premiação do gol, durante os quatro meses em que você esteve desempregado. Pense nisso.

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