Família fuleira

A Fifa sempre gostou de definir-se como uma “família”, próximo do sentido tradicional e prosaico, e não daquele difundido por máfias e instituições criminosas de igual teor para mostrar a força da união e da solidariedade entre respectivos integrantes. Mas os laços de parentesco no mundo da bola ficam frágeis, e a cada dia surgem novos indícios de que a podridão tem raízes mais profundas do que as crises recentes fizeram supor.

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

09 de outubro de 2015 | 03h00

 

O novo recado veio do Comitê de Ética da própria Fifa, que chegou à conclusão de que o presidente Joseph Blatter, o secretário-geral Jerôme Valcke e o presidente da Uefa, Michel Platini, deveriam ter atividades suspensas por 90 dias para averiguar condutas inadequadas. A situação dos dois primeiros faz tempo não é boa - Blatter já avisou que sai fora no final de fevereiro e Valcke levou um chega pra lá há um mês por denúncias em maracutaias com ingressos de Mundiais. Figurinhas carimbadas.

A surpresa da vez é Platini. O ex-jogador de Saint-Étienne, Juventus, seleção da França, craque de estilo refinadíssimo e cartola sagaz, também foi arrastado pelo furacão que atinge a entidade. O nome mais forte para o lugar de Blatter - ao menos até ontem - aparentemente caiu em desgraça por ter recebido algo em torno de 8 milhões por “serviços prestados” para a Fifa. A explicação para a quantia não foi aceita pelo Comitê de Ética, que optou pelo afastamento, e com isso bagunçou a corrida para a sucessão presidencial.

A história de fato anda mal contada. Platini garante que fez tudo dentro da legalidade, mas não consegue explicar como o trabalho feito entre 1999 e 2002 só foi pago em 2011. A Fifa, tão zelosa com as contas, demorou nove anos para saldar uma dívida? E, nesse tempo todo, o francês não reclamou?

A Fifa se revela imensa caixa preta - ou caixa de Pandora para os mais eruditos - e dela não sabe o que sairá. Uma hora é escândalo por acordo com agência internacional de marketing que foi à falência (ISL). Depois, brigas e acusações por escolhas de sedes de Mundiais. Na sequência, há dirigentes detidos por envolvimento em movimentos de contas irregulares nos EUA (Marin é um dos que estão em prisão suíça). Como se não bastasse, vem a história de Valcke e as entradas para Copa. 

Podre atrás de podre, que levam cartolas ligados à Fifa a não saírem de seus países com medo da garras do FBI, que provocam a reação - forte, embora demorada - de grandes patrocinadores, incomodados com as marcas vinculadas a uma empresa mal administrada, que induzem à suspensão de figurões.

A Fifa anda estragada, mas não é a única. Como uma família, ela se sustenta pelo apoio mútuo entre os parentes. Ou seja, fecha os olhos para defeitos de cada integrante, desde que todos se beneficiem. Uma estrutura pronta para desabar - e tomara isso ocorra e tenha efeito dominó, a espalhar-se no mundo todo, em confederações continentais e federações nacionais. 

A interrogação: quem vier terá mente aberta e mãos limpas? Ou será como a sucessão nas famiglias, em que o novo chefe pega o posto do anterior, para manter tudo igual? 

Tristeza tricolor. A briga de bastidores no São Paulo continua feia. O prestígio do presidente Carlos Miguel Aidar despenca, ou no mínimo aumentam as críticas aos métodos de trabalho dele. A ruptura, traumática, com Ataíde Gil Guerreiro e outros ex-colaboradores levam a isolamento. Conselheiros exigem transparência nas decisões e cresce o movimento para que renuncie. Até parece a política nacional...

Aidar pelo visto tem muito a explicar aos pares dele. Mas, mais do que isso, tem compromisso com a torcida. O clube não tem dono; no entanto, é bem imaterial, cultural, emocional de valor inestimável para milhões de são-paulinos. E estes não podem ser submetidos às vontades de um cartola, ou de um grupo. Dentro de normas e da legalidade, Aidar não pode deixar de responder aos questionamentos que lhe fazem.


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