Família quer que caso de Telê vire exemplo

Familiares do ex-técnico de futebol Telê Santana aguardam o término de uma sindicância aberta no último dia 12 pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) que investiga denúncias de que Telê foi vítima de erros de procedimento no tratamento de acidente vascular cerebral (AVC). Porém, ao invés de penalizar os responsáveis pelos supostos equívocos, a família pretende que o caso do ex-treinador, que há oito anos convive com as seqüelas do derrame isquêmico, sirva de exemplo para que novos erros no atendimento médico não aconteçam. Telê submeteu-se, em janeiro de 1996, a uma angiografia cerebral e cateterismo cardíaco, exames que, segundo a denúncia de seu filho, Renê Santana, seriam desnecessários e proporcionavam riscos elevados. O exame teria sido feito por indicação do cardiologista Giuseppe Dioguardi, do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, em São Paulo. "Não sei porque esse cardiologista submeteu o Telê a esses procedimentos. Não sei se foi por status ou vaidade. Na verdade, quando o neurocirurgião Marco Prist Filho (chamado posteriormente para atender o ex-técnico) apareceu, ficou claro que alguma coisa estava errada, pois os dois começaram a discutir os procedimentos", afirmou Renê. Renê revela que desde 1996 desconfiava de um possível erro na escolha dos procedimentos adotados pelos médicos, principalmente, por causa da discussão travada pelos responsáveis por Telê, diante até dos familiares. "Aquela discussão, na frente até da minha mãe ficou marcada na minha cabeça. Depois daquilo, passei a procurar informações com outros médicos e tive certeza que algo de errado havia sido feito. E recentemente, após tomar conhecimento de uma entrevista que os médicos deram em São Paulo, dando outra versão daquela apresentada à família, decidi cobrar explicações ao conselho", disse. Segundo o filho do ex-técnico da seleção brasileira, do Atlético-MG e do São Paulo, os médicos disseram aos familiares que usaram procedimentos corretos, usuais nos casos de AVC, porém, posteriormente, admitiram que submeteram Telê a um cateterismo cardíaco e a uma angiografia cerebral, exames potencialmente de risco desnecessário. "Chegaram a dizer absurdos como, por exemplo, que meu pai levava uma vida desregrada o que potencializava o risco de seqüelas. Isso é mentira. Hoje tenho plena consciência de que esse cardiologista se aventurou a tratar do Telê", explicou Renê. O resultado da sindicância aberta pelo Cremesp deverá durar de 30 a 75 dias. Há cinco possibilidades de penas que variam conforme a gravidade da infração. Duas são confidenciais e três, públicas. O médico julgado culpado pode receber desde uma censura confidencial, deixando de ser primário no Cremesp, até ter cassado seu registro profissional. A pena máxima precisa ser referendada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). No caso das penas públicas, elas são publicadas nos jornais de maior circulação da cidade onde reside o médico penalizado, no "Diário Oficial" e em publicações do Cremesp. Recentemente, Telê, de 72 anos, foi internado e se submeteu a cirurgias de revascularização da perna esquerda e de dilatação do canal urinário. Como apresentou um quadro de isquemia grave no pé esquerdo, precisou passar por outra operação, no dia 22 de dezembro do ano passado, e teve parte da perna amputada (12 centímetros abaixo do joelho). "Infelizmente, por causa de procedimentos inadequados, o Telê teve a sua vida profissional encerrada. Tomara que as coisas sejam esclarecidas. Não é questão de revanchismo. É para que outras pessoas não tenham que passar pelo sofrimento que meu pai e minha família passaram", completou Renê, que também segue os caminhos do pai, como técnico de futebol.

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