Frank Augstein / AP
O brasileiro naturalizado italiano Emerson Palmieri durante a semifinal da Eurocopa com a Espanha Frank Augstein / AP

O brasileiro naturalizado italiano Emerson Palmieri durante a semifinal da Eurocopa com a Espanha Frank Augstein / AP

Famílias dos brasileiros da Itália trocam verde e amarelo pelo azul na final da Eurocopa

Rafael Toloi, Emerson Palmieri e Jorginho se naturalizaram e ajudam a Itália a luta pelo título europeu

Caio Possati e Gonçalo Junior , O Estado de S. Paulo

Atualizado

O brasileiro naturalizado italiano Emerson Palmieri durante a semifinal da Eurocopa com a Espanha Frank Augstein / AP

Entre os mais de 30 milhões de descendentes de italianos que vivem no País, as famílias do zagueiro Rafael Toloi, do lateral Emerson Palmieri e do volante Jorginho têm razões especiais para torcer pela Azzurra na final da Eurocopa. Os três atletas são brasileiros, mas se naturalizaram italianos e podem ajudar a na conquista do título neste domingo. Os familiares vivem a expectativa do título como se fosse com a seleção brasileira, mas adotam o azul como a cor da torcida. A mãe de Jorginho teme que o filho seja vaiado por enfrentar a Inglaterra, país onde foi campeão da Liga dos Campeões pelo Chelsea.

Eliana Palmieri, mãe do lateral Emerson, até comprou uma bandeira italiana e pretende exibi-la na sacada do apartamento onde mora, na Ponta da Praia, em Santos. “A gente torce pelo time do filho não importa qual seja. Ganhar pela Itália é como ganhar com o Brasil. Foi a escolha que ele fez e ele não se arrepende. Eu acho que ele fez a coisa certa”, diz a dona de casa.

Revelado nas categorias de base do Santos, Emerson Palmieri  conseguiu a cidadania italiana há seis anos por conta do tataravô materno, Affonso Palmieiri, que imigrou da região de Nápoles. Depois de atuar pelo Palermo e pela Roma, ele foi contratado pelo Chelsea na temporada 2017/2018. Neste ano, o atleta de 26 anos ajudou na conquista da Liga dos Campeões. "É a chance de escrever o nome na história do futebol", orgulha-se o pai, Reginaldo.

O irmão Giovanni Palmieri, que também é jogador e atua no Santo André, depois de passagens pelo Fluminense e Cruzeiro, conta que o lado profissional pesou na decisão da naturalização de Emerson. “Foi uma decisão difícil, mas na seleção italiana, os jogadores mais experientes são valorizados e podem atuar por muito tempo. Basta olhar a zaga com Chiellini e Bonucci”, diz o lateral. Aos 32 anos, o irmão mais velho também projeta atuar no futebol europeu. Ele deve conseguir a dupla cidadania neste ano.

A ligação entre os dois Palmieri é tão forte que cada um deles fez uma tatuagem com o rosto do irmão. “Eu procuro fortalecer a parte mental dele. Eu venho falando que o autor do gol do título costuma ser alguém que a gente menos espera”, prevê Giovanni.Na casa de Jorginho, os conselhos futebolísticos sempre foram dados pela mãe. Aos 57 anos, Maria Tereza Freitas acompanha o auge da carreira do filho com o sentimento de dever cumprido. Apaixonada por futebol, foi ela quem ensinou os primeiros fundamentos ao volante do Chelsea. “Quando o Jorginho tinha 4 anos, eu o levava para a praia para ensinar alguns fundamentos, como domínio e controle de bola pelo alto”, diz. Com modéstia, ela acredita que o talento já nasceu dentro do filho. “Eu só ajudei um pouco”.

Quando mais jovem, Maria jogou futebol amador pelas equipes catarinenses de Capivari, Laguna, Garopaba e Imbituba, onde mora atualmente. Ela conta que, desde cedo, Jorginho gostava de acompanhá-la nos jogos, mas não para torcer exatamente pela arquibancada. “Ele queria ficar atrás do gol pegando a bola”, relembra aos risos.

Hoje, ela destaca a leitura de jogo e a inteligência de Jorginho e elege o técnico italiano Maurizio Sarri, que treinou o brasileiro no Napoli, como um dos responsáveis pelo crescimento do jogo do filho. “O Jorginho rouba muita bola. Está sempre no lugar certo, na hora certa. Você pode perceber que geralmente ele passa de primeira, é difícil ele segurar uma bola”, diz a ex-jogadora.

Mesmo assim, o filho não está isento de ainda levar uns puxões de orelha da mãe, principalmente quando o volante se atreve a fazer passes longos. “Às vezes ele dá alguns passes arriscados, que eu fico apreensiva. Acho que ele não devia fazer aquilo. Eu falo pra ele: ‘Jorginho, meu filho…’. Ele fala: “Calma, mãe. Calma”, conta com bom humor.

Maria mostra preocupação com o fato de o filho enfrentar os ingleses em Wembley. Depois de também conquistar a Liga dos Campeões com o Chelsea e se tornar um dos protagonistas do Campeonato Inglês, Jorginho será adversário. Ela teme que o filho seja vaiado em campo. “Provavelmente no estádio vão ter mais ingleses que italianos”, afirma.

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Itália e Inglaterra decidem a Eurocopa e tentam afastar seus fantasmas

Ingleses buscam primeiro título desde 1966, enquanto italianos querem demonstrar que estão de volta após ficar fora da Copa do Mundo de 2018

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2021 | 05h00

Itália e Inglaterra vão enfrentar missões diferentes, neste domingo, às 16 horas, no estádio de Wembley, em Londres, na decisão da Eurocopa. Campeões apenas em 1968, os italianos vão em busca de apagar a má impressão deixada em 2018, ao ficarem fora da Copa do Mundo da Rússia, enquanto os ingleses tentam em sua casa voltar a levantar uma taça, feito que não ocorre desde o Mundial de 1966.

Diante do que apresentaram nas seis partidas que disputaram até agora no torneio, a expectativa é das melhores para o 28º duelo da história. Vencedora em 11 oportunidades, a Azurra mostrou um futebol rápido no ataque, com o talentoso trio formado por Chiesa, Insigne e Immobile. A armação fica por conta do versátil Verratti, enquanto a defesa, tradicionalmente muito forte, se garante com o jovem e competente Donnarumma na meta e os experientes Bonucci e Chiellini, companheiros de Juventus e únicos remanescentes do vice-campeonato de 2012 na derrota para a Espanha, em Kiev, na Ucrânia.

"Jogar e Wembley e enfrentar alguns dos maiores atacantes da atualidade não é novidade para a nossa equipe. Vamos tranquilos e preparados para fazer uma bela partida, diante de um adversário de muito peso", disse Bonucci, um dos líderes da seleção que não perde há 33 partidas.

Com a bela produção de Sterling e o oportunismo de Kane, além da força e disposição de Maguire, a Inglaterra alcança a sua primeira final de Eurocopa e vai tentar quebrar a escrita de jamais ter vencido a Itália em uma partida válida por Euro ou Copa do Mundo. Ela também espera contar com a enorme maioria dos 60 mil espectadores previstos para estarem em Wembley, onde nos últimos 17 jogos marcou 46 gols e só sofreu cinco. A defesa inglesa é a menos vazada da Euro com apenas um gol sofrido, diante da Dinamarca, nas quartas de final.

"Aprendemos na Copa da Rússia que a defesa precisa ser protegida desde o ataque. Estamos nos aperfeiçoando a cada partida e acho que alcançamos um bom nível, que ficou evidente nesta Euro", disse John Stones, companheiro de Maguire na zaga britânica.

O elenco inglês revelou que vai doar ao sistema de saúde britânico parte do prêmio de 10 milhões de libras (cerca de R$ 70 milhões) a ser recebido em caso de conquista do título.

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Após décadas de frustrações, Inglaterra vive empolgação com sonho de título da Eurocopa

De volta à uma final de torneio depois de 55 anos, ingleses enfrentam a Itália, neste domingo

Pedro Ramos, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2021 | 10h00

Durante 55 anos, os torcedores ingleses viram apenas um título da sua seleção, a Copa do Mundo de 1966, disputada em casa. Por cinco décadas e meia, gerações diferentes acompanharam eliminações e campanhas decepcionantes da Inglaterra. Agora, com os ingleses na final da Eurocopa, o clima local é de empolgação, um sentimento que poucas vezes com a seleção se viu por lá.

“Eu e todos que conheço esperamos a vida inteira por este momento. O sentimento antes do torneio não era de esperança, mas crescemos ao longo da competição e agora todo o país está apoiando. Vencer a Alemanha teve sabor especial e foi a vitória que nos deu impulso. Eu disse ao meu amigo que, se vencermos a Itália, vamos lembrar desse dia para sempre”, conta Joe Bursst, que trabalha no setor imobiliário.

Embora seus clubes estejam no topo do futebol mundial há muito tempo — o Chelsea é o atual campeão europeu —, a seleção está desacostumada com sucesso. Mesmo em momentos que contavam com muitos jogadores de destaque, os ingleses poucas vezes fizeram grandes campanhas. Essa é a primeira vez na história que a Inglaterra chega a uma final de Eurocopa.

Em Londres, o clima de animação foi crescendo ao longo da competição. O estádio de Wembley recebeu cinco jogos dos comandados do técnico Gareth Southgate, incluindo a vitória sobre seu maior algoz, a Alemanha. Empurrada por quase 42 mil torcedores, o triunfo foi celebrado como um título, enterrando o fantasma de perder para o rival em jogos decisivos. Na Eurocopa de 1996, disputada na Inglaterra, por exemplo, uma dolorosa eliminação para os alemães em que o atual técnico inglês perdeu um pênalti decisivo.

O ator Barney White, morador de Londres, é um dos milhões de ingleses empolgados com sua seleção. Após contrair covid-19, depois de assistir à semifinal contra a Dinamarca, vai ter que acompanhar a final de casa. Nada que o desanime. “Tendo crescido vendo a Inglaterra fracassar vez após vez em grandes torneios, esta foi uma mudança muito bem-vinda. Você não pode ir a lugar nenhum sem ouvir "Três Leões" (nosso hino nacional não oficial do futebol)”.

A ótima campanha da Inglaterra na Eurocopa não é uma novidade. Desde que Gareth Southgate assumiu o comando da seleção em 2016, os ingleses acumularam um quarto lugar na Copa do Mundo 2018 e ficaram em terceiro na Liga das Nações, em 2019. “Os jogadores o amam. Ele trouxe para os atletas uma verdadeira alegria em jogar pela Inglaterra. Você pode ver em seus rostos. Eles querem estar lá e têm orgulho de estar lá”, elogia White.

Caso conquistem a Eurocopa, os jogadores ingleses irão doar o prêmio em dinheiro para o sistema público de saúde do país. Sonya Clare Burke, consultora de arrecadação de fundos para instituições de caridade, destaca que essa é uma nova geração de atletas que são queridos pelos torcedores e que não gostam de aparecer.

“Todo mundo aqui está muito animado, mas acho que isso também está relacionado com a alta taxa de vacinação da população contra a covid-19. Pessoas como eu, que não apoiam os conservadores, ficamos preocupados que um possível título possa ser positivo para Boris Johnson (primeiro ministro) e acho que o relaxamento das restrições da pandemia agora é estúpido. Mas o futebol une todos, apesar da política".

Desde que assumiu, Southgate promoveu uma reformulação grande, apostando em jovens promessas. Há quatro anos, a Inglaterra foi campeã mundial sub-17, do Europeu sub-19, além do Mundial sub-20. O sucesso na base vem rendendo frutos, e o técnico apostou na juventude. São tantas promessas no atual elenco que tornam a seleção o terceiro mais jovem da Eurocopa. 

“Faltando pouco mais de um ano para a Copa do Mundo, há a sensação de que o elenco para 2022 será ainda melhor do que este ano. A diferença da Inglaterra em relação ao passado é a nossa força em peças de reposição, principalmente no ataque”, comenta Bursst.

A atual geração também representa uma Inglaterra mais multicultural. A presença de muitos jogadores descendentes de imigrantes é significativa. Na semifinal contra a Dinamarca, sete dos 11 titulares nasceram fora do Reino Unido, como apontou o Museu da Imigração, de Londres.

Se a liga inglesa foi a principal expoente das manifestações em favor do Black Lives Matter  na última temporada, com os atletas se ajoelhando antes do apito inicial, os ingleses replicaram o ato em todas as partidas da Eurocopa até aqui, diferentemente da maioria dos outros países participantes.

Para conquistar o tão sonhado título, a Inglaterra terá pela frente a Itália, invicta há 33 jogos e vivendo grande momento com o técnico Roberto Mancini. Sua última derrota foi para Portugal em setembro de 2018. Ingleses e italianos se enfrentam na final da Eurocopa neste domingo, 11, às 16h (de Brasília), em Wembley.

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