Nilton Fukuda/Estadão
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Robson Morelli
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Fatos e argumentos

Flamengo tenta mostrar que CT que sofreu incêndio era local melhor do que a realidade mostrava

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2019 | 04h30

A morte de dez garotos do futebol da base do Flamengo queimados vivos quando dormiam em três beliches dispostos em cada um dos seis contêineres que compunham o alojamento no Ninho do Urubu, o centro de treinamento do clube, comoveu o mundo e colocou mais uma vez o Brasil nas manchetes (negativas) dentro e fora do País. Cada brasileiro sentiu e reagiu à tragédia desses meninos entre 14 e 16 anos de uma maneira. Impossível não se sensibilizar, lamentar, chorar mesmo não conhecendo nenhum deles, um de cada canto do País. Eram garotos recém-saídos da infância em busca do sonho comum à maioria dos jovens de sua idade, o futebol.

Corriam atrás da fama, do primeiro contrato profissional, da possibilidade de ajudar a família trabalhando honestamente e fazendo o que mais amavam num dos maiores clubes do mundo, sem dúvidas o mais aclamado e festejado do Brasil.

A morte desses quase atletas expõe muito mais do que um clube negligente que passou os dias subsequentes ao trágico incêndio, entre outras coisas, tramando e juntando documentos para se defender e se eximir de qualquer responsabilidade. Nada do que os dirigentes flamenguistas falarem, porém, será razoável para as famílias, como também não deveria ser para as autoridades que investigam os fatos e devem uma explicação à sociedade, a mim, a você, aos parentes dos mortos, aos pais dos que sobreviveram e terão de deixar seus filhos novamente aos cuidados do clube. Neste caso, os fatos são maiores do que os argumentos.

Não eram “puxadinhos” onde os meninos dormiam, mas dez meninos morreram dentro do alojamento e outros três estão feridos no hospital. Havia licença municipal para usar o local e outras autorizações, mas dez crianças morreram nos contêineres. Havia estrutura e conforto no alojamento, mas dez meninos morreram lá dentro. Os aparelhos de ar condicionados foram revisados e vistoriados por uma empresa idônea, ISO 9001, mas dez meninos morreram provavelmente porque um deles deu problema e gerou as primeiras faíscas do fogo. Como disse, não há argumentos contra os fatos ocorridos no CT do clube. E os fatos são cruéis.

Vá lá que não se encontrem culpados e que ninguém seja preso e responsabilizado criminalmente pelo incêndio e mortes dos dez garotos rubro-negros, que estão sendo enterrados desde sábado, o que duvido porque o País está mudando, não em Brasília, mas dentro das pessoas de bem. As tragédias estão se repetindo no Brasil e o descaso é notório. É preciso dar um basta nisso. É preciso ser melhor. Os brasileiros se acostumaram com a indiferença, mas estão dispostos a cobrar mais, mesmo sabendo, neste caso, que de um lado há um clube milionário, cujo investimento em três atletas para a temporada bateu nos R$ 108 milhões e a estimativa de receita para 2019 é de R$ 750 milhões, e do outro estão pais e mães sufocados pela desgraça dos seus filhos, incrédulos, anestesiados, talvez sem estrutura financeira, sem saber dos seus direitos, com medo, em alguns casos até satisfeitos com os contêineres onde os filhos moravam porque eles eram mais apresentáveis do que suas próprias casas, simples e humildes.

O Flamengo tenta de todas as formas se eximir da responsabilidade. Em nota com 34 patrocinadores no ofício, o clube contestou qualquer problema no Ninho do Urubu e nas condições do alojamento dos meninos da base, como se aquilo tudo fosse um paraíso e ninguém tivesse morrido lá dias antes. Em letras clássicas e diretas, informava que esta administração havia assumido o clube no dia 1 de janeiro, portanto, colocando na roda também a gestão passada que mantinha o local nas mesmas condições estruturais, como se isso fosse importante.

 

 

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