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Fazendo um campeão

O campeonato que o Corinthians vem de ganhar começou a ser conquistado muito antes. Uns dez anos talvez. Ninguém sabe exatamente quando o sentimento vencedor se apodera de um time. Ele chega, despercebido, invisível, e se instala na alma da equipe. E com ele a equipe passa a ganhar por anos.

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

22 de novembro de 2015 | 03h00

Vou ser menos enigmático: há uma coisa que é a consciência da grandeza, sentimento que faz com que um time se acostume a vencer, se familiarize com a vitória. Esse estágio, que pode ser longo, durar muitos anos, passa de formação para formação que o clube vai configurando ao longo desses anos privilegiados. Há sempre alguns remanescentes de times anteriores vitoriosos que servem de ligação entre uma conquista e outra. Um jogador aqui outro acolá, ou um técnico eficiente que se mantém na chefia durante esse período.

Outros clubes brasileiros atravessaram etapas semelhantes de grandes conquistas seguidas. Uns duraram mais no topo, outros menos, mas o fenômeno existe. Uma expressão parece definir esse fenômeno de maneira correta: “tudo parece dar certo”. Até os erros dão certo. Como começa essa época dourada não sei, quando termina também não sei. Só sei que o Corinthians está plenamente dentro dela. 

Mas não são só essas coisas imponderáveis, esses sentimentos difusos que explicam conquistas. Há outras circunstâncias. Uma delas, de grande importância, na minha opinião, é que foi o Corinthians o beneficiário maior do período em que a população brasileira de menor renda teve aumentado seus ganhos de maneira incontestável.

A parcela da torcida do Corinthians nessas condições é enorme. Com sua ascensão financeira o clube passou de uma torcida meramente numerosa para uma torcida efetivamente poderosa. Poderosa em termos de consumo, de adquirir bens, de comparecer ao estádio. Longe, numa zona da cidade em que ninguém pensava em fazer um estádio, o do Corinthians, no entanto, está sempre lotado. Essa subida de capacidade de consumo levou, em consequência, a outra enorme vantagem: a presença quase hegemônica do clube nas transmissões esportivas. Hoje só dá Corinthians nas transmissões.

Forma-se um círculo impressionante. O time ganha porque está imbuído do senso de ser grande ganhador, os índices de audiências em seus jogos aumentam, os anunciantes apostam ainda mais nos intervalos comerciais, as televisões babam de felicidade.

Esse é o círculo de ferro que se fecha fazendo do time um poderoso vencedor. Nesse momento não há time no Brasil, que se compare a ele. O Flamengo, com sua imensa torcida está muito longe disso. Dizem as pesquisas, muito precárias, diga-se de passagem, que o Flamengo é a maior torcida do País. Não duvido disso. Mas não é a mais poderosa economicamente, nem o time, neste momento, está organizado e consciente de ser um vencedor. Pouco adianta, então, ser o maior em número.

Hoje, neste mundo, o que vale é dinheiro, poder de compra. Desde camisas, bandeiras, ingresso nas arenas, até compra dos produtos que gentilmente nos são oferecidos nos intervalos dos jogos. Finalmente há um fator, último, mas talvez não o derradeiro: Tite. Não concordo muito quando se atribui o título a um estágio que Tite fez na Europa, aprimorando suas qualidade s de treinador. Europa não faz mal a ninguém, mas é preciso lembrar que Tite iniciou essa fase de conquistas muito antes de ir para a Europa.

Ele está no início daquela convicção de vencedor de que falei no começo. Quando foi para a Europa ele já tinha colocado a equipe na rota das conquistas, o time já voava em altura de cruzeiro e em velocidade constante que não muda mais. Tite tem outras qualidades além do campo. Não sei quais são, talvez nunca se saiba. Se pedissem para resumir eu diria que Tite é o líder, o caudilho, o comandante, o herói e professor, o homem do destino.


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