Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Felipão autoriza seleção a usar redes sociais durante Copa, com limites

Treinador brasileiro prega privacidade nos assuntos internos e bastidores

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S. Paulo

13 de maio de 2014 | 12h33

GENEBRA - Num mundo virtual, o técnico Luiz Felipe Scolari vai colocar limites ao que será divulgado pelos jogadores sobre a concentração e os bastidores da preparação da seleção brasileira para a Copa. O treinador vai liberar os atletas para que utilizem as redes sociais durante a Copa do Mundo. Mas vai proibir que qualquer tipo de informação sobre o vestiário e os assuntos internos sejam divulgados.

Para envolvidas com a organização midiática do evento, a Copa de 2014 promete ser o primeiro "Mundial Twitter", as redes sociais competirão com a imprensa tradicional e as mensagens devem bater todos os recordes. Nesse novo cenário, os jogadores serão atores centrais. A posição da comissão técnica da CBF é de que os jogadores vão poder usar as redes sociais.

"Só não vão poder falar do que ocorre dentro da concentração", indicou o treinador, que insiste na importância de que o grupo se "feche" durante a preparação para garantir a união. Para evitar a proliferação de mensagens sobre o que acontece nos dias que antecedem ao Mundial, seu objetivo é o de ocupar o máximo possível o tempo dos jogadores com as novas tecnologias para "não dar espaço" para que eles passem ao mundo mensagens sobre a privacidade da seleção.

Felipão conseguiu que a CBF instalasse na Granja Comary uma sala com oito telões de vídeo-game para que os atletas da seleção possam jogar uns contra os outros e, assim, evitar que sejam tentados a buscar outras tecnologias. Mas ele lembra que, no seu tempo de jogador, o passa-tempo preferido era o jogo de cartas.

O debate sobre as novas tecnologias dentro das concentrações é uma realidade em todas as seleções, principalmente diante de patrocinadores que, durante a Copa do Mundo, vão utilizar todas as plataformas com seus astros para promover seus produtos. Em 2010, seleções como a da Holanda, Espanha e Inglaterra proibiram que seus jogadores usassem Twitter durante a Copa do Mundo.

JOGOS OLÍMPICOS

Naquele momento, porém, o serviço de micro-mensagens estava apenas começando e os interesses comerciais ainda eram restritos. Em 2012, os Jogos Olímpicos de Londres foram considerados como o primeiro mega-evento mundial que ganhou uma dimensão recorde nas redes sociais. Em apenas um dia, o número de mensagens enviadas foi o equivalente a todas as mensagens durante os Jogos de 2008.

O COI decidiu publicar um guia aos atletas sobre como usar as redes sociais, evitando endossar comerciais de empresas que não patrocinam o evento e "evitar assumir um papel de jornalista". No fundo, o COI autorizava os atletas a compartilhar suas emoções e experiências. Mas de ninguém mais.

A sacrossanta Vila Olímpica poderia ser fotografada e "postada" nas redes pelos atletas. Mas nenhum atleta poderia fotografar a um outro e divulgar a foto sem sua autorização. Mas nada disso impediu um avalanche de polêmicas. O ápice foi a prisão de um jovem de 17 anos após tuítes ofensivos enviados ao saltador britânico Tom Daley.

Antes disso, logo nos primeiros dias dos Jogos, dois atletas tiveram sua participação suspensa: a grega Voula Papachristou, por comentários considerados racistas contra imigrantes africanos em seu país, e o jogador suíço Michel Morganella, por um tuíte avaliado como preconceituoso contra os sul-coreanos, após a Suíça vencer o adversário no futebol.

O COI também ameaçou repreender um número grande de atletas que usou a rede social para protestar contra uma regra do comitê, a Regra 40, que os proíbe de usar logomarcas de empresas que não são patrocinadores oficiais dos Jogos. Nos bastidores das provas, corria o comentário malicioso de que, até o final, os Jogos de Londres teriam mais atletas expulsos da Olimpíada por tuitar do que por doping.

“Não queremos controlar a Internet, até porque seria impossível. Mas atletas que violaram regras serão alertados”, insistiu o COI.

IMPACTO

Outra preocupação das seleções é com o impacto de mensagens enviadas aos jogadores. A judoca brasileira Rafaela Silva esteve entre as vítimas do twitter. Após ser eliminada dos Jogos de Londres, ela recebeu pela rede social mensagens racistas, como: “você não é melhor do que ninguém porque é negra”. Em nota, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), a Confederação Brasileira de Judô e a missão brasileira em Londres repudiaram a manifestação de racismo.

Já no Comitê Olímpico Britânico, as ameaças feitas pelas redes sociais contra o atleta foram tomadas com muita preocupação, principalmente diante do impacto no desempenho do time. “Nós decidimos abrir essa porta e sabíamos que isso significaria também amplos desafios”, apontou Andy Hunt, diretor de esportes do Comitê Britânico. “Mas não podemos deixar que isso afete a moral dos atletas.”

Segundo ele, alguns atletas receberam em 2012 até 50 mil mensagens em apenas um dia.O mesmo deve ocorrer agora na Copa diante de jogadores com milhões de seguidores. Até a presidente Dilma Rousseff comentou a lista de Felipão pelo Twitter.

Mas algumas seleções, ainda assim, prometem um black-out para seus jogadores. No ano passado, a comissão técnica da Itália anunciou que, para a Copa de 2014, seus jogadores estariam proibidos de fazer declarações nas redes sociais. O motivo teria sido o comentário feito pelo artilheiro Mario Balotelli sobre o combate anti-máfia na Itália.

Na ocasião, uma das principais portas-vozes do movimento anti-máfia, Rosaria Capacchione, qualificou Balotelli em seu Twitter de "imbecil". O treinador Cesare Prandelli decidiu que, diante da polêmica, o melhor seria proibir o uso da tecnologia durante a preparação para a Copa e durante o Mundial.

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