REUTERS/Kai Pfaffenbach
REUTERS/Kai Pfaffenbach

Felipão festeja 20 anos do penta, conta bastidores da Copa e afirma que faria tudo do mesmo jeito

Atualmente no comando do Athletico-PR, treinador relembra trajetória da seleção brasileira no Mundial de 2002, quando bateu a Alemanha na final por 2 a 0, com dois gols de Ronaldo

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2022 | 08h00

Há exatos 20 anos, a seleção brasileira ganhava no Japão o pentacampeonato mundial, ao bater a Alemanha por 2 a 0, com dois gols de Ronaldo. O quinto título mundial no futebol fez o Brasil explodir em alegria. Para comemorar a data histórica, 14 jornalistas que o estiveram na Coreia do Sul e no Japão participaram de uma entrevista por vídeo com o técnico Luiz Felipe Scolari na sede do Athletico-PR, clube que comanda atualmente.

Felipão, agora sem o bigode que o caracterizou desde os tempos de zagueiro do Caxias, chorou ao lembrar daquela conquista, de alguns momentos que ficaram em sua melhora nessas últimas duas décadas, como a gratidão aos profissionais que recuperaram Ronaldo e Rivaldo, machucados, antes mesmo de a competição começar, das dúvidas sobre o time, da escalação de Juninho, das broncas, dos momentos mais delicados da caminhada e, principalmente, dos atletas que compraram sua ideia nas sete partidas vencidas no torneio, duas delas contra a Turquia.

Nunca uma seleção ganhou a Copa do Mundo vencendo sete jogos. Em 1970, no México, o time liderado por Pelé venceu seis partidas. Felipão disse que faria tudo de novo, que nunca pensou, lá atrás no início de sua carreira, que um dia pudesse comandar a seleção brasileira e, mais do que isso, que entraria para a história do futebol como um dos cinco técnico campeões do mundo. Na conversa 20 anos depois, em dois tempos, Felipão sabia o nome de todos os repórteres selecionados.

O único que participou da entrevista e não estava na Copa de 2002 foi Paulo Vinícius Coelho, o PVC, comentarista da SporTV, que escreveu um livro lançado nesta semana sobre a conquista brasileira. 5 Estrelas, a conquista do penta faz uma referência à quantidade de estrelas na camisa do Brasil, mas também aos cinco jogadores de maior destaque daquele time: Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Cafu e Roberto Carlos. "Montei o time com três zagueiros para dar liberdade a Cafu e Roberto Carlos", disse.

O treinador contou que a equipe ganhou cara e corpo na Copa América disputada na Colômbia, um país que estava em convulsão por causa das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), e que alguns jogadores brasileiros se recusaram a embarcar com a delegação por medo. Romário não foi. Nem Mauro Silva. "O Marcos não queria ir também. No aeroporto, disse que não iria. O Carlos Pracidelli, que era o preparados de goleiros do Palmeiras e da seleção, disse para o Marcos que ele era um bundão se não fosse. Que a gente confiava nele. O Marcos repensou e decidiu ir. Ali a seleção nasceu", acredita Felipão.

O treinador comentou ainda o quanto Ronaldo foi profissional ao atender a todos os pedidos em seu trabalho físico, de recuperação muscular, muitas vezes na solidão de uma academia. Não elogiou nenhum jogador particularmente, mas fez questão de ressaltar a importância de grupo de todos eles, mandamento que levou para dentro do vestiário nas duas últimas décadas, com sucessos e fracassos, mas nunca abrindo mão de ter um elenco formado por atletas em que poderia confiar.

Depois de 20 anos, Felipão lembra como se fosse ontem cada episódio dos 60 dias que todos passaram juntos, da fase de preparação da seleção antes de chegar à Ásia, passando pelos jogos um em cada cidade, em dois países diferentes, até chegar em Yokohama contra os alemães, que anos mais tarde, em 2014, na Copa no Brasil, dariam o troco eliminando a seleção do mesmo Felipão e ganhando depois na final da Argentina no Maracanã. Aos 73 anos, o treinador esbanja saúde, mas disse que seus dias à beira do gramado estão chegando ao fim. Ele vai mudar o foco da carreira e virar uma espécie de maneger no clube paranaense.

Nessa nova função, terá de administrar muito mais problemas, mas isso não o assusta. Em 2002, ele lembra de um problema dos grandes antes da final: como lidar com Ronaldo, que quatro anos antes, em 1998, na França, teve uma convulsão horas no dia de Brasil x França. A seleção perdeu aquele Mundial para o time de Zidane. "Perguntei para os médicos o que deveria fazer para não correr riscos com Ronaldo no dia da decisão. Eles me disseram que não deveria tocar no assunto, agir como se nada tivesse acontecido, deixar o Ronaldo leve e sem pressão. Foi o que fiz", disse.

A Copa do Mundo de 2002 foi a última que o Brasil ganhou. De lá para cá, só seleções da Europa ficaram com a taça. Em 2006 foi a Itália. Em 2010 deu Espanha. A Alemanha ganhou em 2014. E na última edição, em 2018, os franceses celebraram com champanhe. Vinte anos depois, todos os jogadores daquele Copa, já estão aposentados, curtem em vida o que fizeram para a história.

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