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Felipão: ‘Técnico que ganha Copa não é mago’

Técnico relembra do Mundial de 2002 e garante que não virou uma sumidade com a conquista da taça

Antero Greco e Luiz Antônio Prosperi, estadão.com.br

29 de junho de 2012 | 22h59

SÃO PAULO - Luiz Felipe Scolari teve sono agitado, na véspera da decisão da Copa de 2002. Durante a madrugada, virou pra cá e pra lá, na cama, ansioso pela situação que viveria na noite do dia 30 de junho. No dorme-e-acorda, repassou vida e carreira, como num filme. Lembrou do pai, Benjamin, que só permitiu que fosse tentar a sorte como jogador aos 18 anos, depois de estudar contabilidade. Vieram-lhe em mente peripécias como boleiro, as andanças, os títulos como técnico e a perspectiva da maior conquista. “Olha onde estou”, se admirava, na solidão do quarto do hotel Prince, antes do duelo com os alemães.

O clássico inédito em Mundiais valeria o pentacampeonato, para Scolari e sua “família”, consolidada a partir da definição da lista dos 23 que levou para a aventura na Ásia. A partida no estádio de Yokohama seria o auge de um desafio que começara um ano antes - em 1.º de julho de 2001 -, com derrota por 1 a 0 para o Uruguai pelas Eliminatórias. Pouco tempo para montar um time e, até meses antes da estreia com a Turquia, havia dúvida em torno do que renderiam Rivaldo e Ronaldo, que se recuperavam de contusões.

Felipão apostou na dupla, responsável por 13 dos 18 gols da campanha de sete vitórias consecutivas, e ainda superou a baixa de Emerson, que se machucou no treino da véspera do jogo inicial. Gilberto Silva entrou e foi um dos destaques do meio-campo. Os 21 atletas usados na trajetória do penta - só não jogaram Dida e Rogério Ceni - deram conta do recado, criaram laço de amizade que se mantém (hoje, muitos vão se reunir para festejar os 10 anos da epopeia) e ajudaram a mudar a vida de Scolari. Daquela Copa em diante, ele passou a fazer parte da seleta casta dos técnicos vips, portas se abriram, mas também vieram cobranças e uma certeza: “Treinador campeão do mundo não é sumidade. É uma pessoa como qualquer outra.”

Passou um filme na sua cabeça na véspera da final?

Eu ficava imaginando como seria. Primeiro que meu pai não queria que eu jogasse futebol, que era coisa para sem-vergonha, tinha de estudar. Passava um filme: olha onde estou, o que foi conseguido e o que a gente vai disputar. Depois passa a trajetória, as dificuldades para chegar naquele momento. Aí começa a sonhar com o jogo. Parece que é um filme que não se sabe o que vai acontecer. Depois do jogo passa tudo.

Dormiu naquela noite?

Dormi das 2 às 4. Acordei ansioso. Depois, cansado, dormi das 6 às 9. Aí não deu mais.

Ronaldo, pelos incidentes da final da Copa de 98, quando sofreu a convulsão, preocupava?

Minha preocupação com o Ronaldo era saber como ele estava. Fui perguntar para Roberto Carlos, Cafu, o doutor Runco (médico da seleção), como lidar com o Ronaldo com aquele assunto. E a resposta que me deram: não fale nada, nunca mencione, nem pergunte. Vi que aquilo não era para ser mexido. E nunca toquei no assunto.

Mesmo assim foi até o corredor dos quartos dos jogadores para ver se estava tudo bem?

Para minha surpresa, Dida, Ronaldo, Rogério, Roque, Juninho e outros estavam jogando golfe no corredor do hotel. Tinha uns 500 metros, um absurdo. O carpete era alto. Eles jogavam com copinho no chão, batiam e a bolinha entrava. Uma esculhambação. Na véspera do jogo, 11 da noite. Eles dando gargalhada. Uma gritaria. Era o modo de aliviar o stress. Sentei no chão do meu quarto e fiquei assistindo. Ficaram mais meia hora e foram dormir, despreocupados.

E o que aconteceu no vestiário antes da final da Copa?

Coloquei lá na lousa um estudo que uma soma com 1958 dava de tal forma que o Brasil era campeão, a soma de 1962 dava Brasil campeão, 70 dava, e 2002 também. Eu coloquei lá na pedra os números e ficou isso lá. Está lá (vestiários) até hoje. Queiram ou não olhar aquilo teve um efeito psicológico. Era a nossa data, pronto. Não sei quem fez aquela soma.

Como foi chegada no estádio?

Quando os alemães viram a seleção chegando, eles ficaram preocupados, não sabiam o que pensar. Batucada, Ronaldinho descendo com pandeiro, outro com cavaquinho. “Mas, Jesus, vocês vão jogar uma final de Copa!” Eles estavam preparados para jogar e enfrentar a Alemanha bem do nosso jeito.

Para ser campeão o senhor apostou em Rivaldo e Ronaldo, que estavam com problemas.

Rivaldo nem tanto pelo aspecto físico, mas por ser meio arredio. Ele vinha de contusão, mas estava jogando muito mais que o Ronaldo. O Ronaldo sim era a grande dúvida. Ele estava em processo de recuperação na Inter. Fui ver dois jogos e conversei com o Hector Cúper (técnico da Inter), que me disse: “O Ronaldo pode não estar bem, mas se jogar 60, 70%, fique tranquilo: ele é o melhor de todos, longe. E ganha a Copa.” Aí o doutor Runco e o Paixão examinaram o Ronaldo e me garantiram que ele poderia jogar a Copa.

Quando teve essa certeza?

Dois meses antes da Copa. Ele disputou amistoso (contra a Iugoslávia). Fez pré-temporada no Brasil e voltou bem. O doutor Runco sempre cuidava dele. O Paixão cuidava do peso diariamente. O departamento físico e médico cuidaram bem dele. Fizemos uma escala de tempo e eu segui aquilo. O mérito maior foi do Runco e do Paixão.

E o Rivaldo?

Taticamente ele foi o melhor. Teve passagens fantásticas. Nas bolas paradas, era o que fazia o primeiro homem, a bola não passava. Contra a Inglaterra, quando o Ronaldinho foi expulso, falei “Rivaldo fica mais na frente, não precisa voltar para compor.” “Não, professor, fica tranquilo, volto pra marcar e vou pra frente.” Para mim, foi o melhor do Brasil na Copa.

Deu tudo certo, a primeira fase foi fácil para o Brasil?

Foi aquilo que a gente falava. Nos classificaríamos logo, vencendo os dois primeiros jogos, então daria para usar o Ronaldo 60 a 70 minutos por jogo para na segunda fase ele chegar inteiro. E foi o que aconteceu. Os reservas também responderam.

O jogo mais emblemático foi contra Bélgica nas oitavas?

Foi. A Bélgica não tinha nada a perder, não tinha retrospecto. Era um time forte fisicamente, com bons jogadores, e bem organizada. Foi difícil. Fizemos o primeiro gol e até fazer o segundo gol... Ufa!, Demorou!

Mas teve uma ajuda do árbitro que anulou um gol deles dando falta em Roque Júnior?

Se fosse um árbitro da América do Sul ele daria falta. Europeu, não. Também fiquei em dúvida. Até achei que tinha dado o gol. Depois o Roque me falou que o belga subiu apoiando nele (Roque), que tinha sido falta.

A conquista da Copa foi o grande momento da sua carreira?

A primeira conquista de um título marca ascendência como técnico. Ganhei o primeiro com o Grêmio em 1987. Mas o maior título de um técnico é ser campeão mundial.

Ser campeão do mundo pesa?

Pesa, porque todo mundo acha que o ganhador de uma Copa pode fazer um time ganhar sem ter grandes jogadores, que é um mago. O técnico ganhou porque o time era qualificado, a estrutura era boa. O técnico ajuda. O técnico campeão do mundo é visto como uma sumidade. Ele é um bom treinador que usou as peças que tinha para ganhar. É isso que faz a diferença. As pessoas me tratam de forma carinhosa.

Não era natural continuar na seleção após a conquista?

A ideia que eu tinha é a que está sendo implantada agora e que o Ricardo Teixeira não gostava. O técnico da seleção cuidaria da base, para formar um grupo para chegar na principal. Foi a minha proposta. Mas o Ricardo não queria. Me falou que, se fosse ele, não ficaria no cargo, que era para usufruir do título. Entendi. Fui embora.

Foi difícil formar o grupo?

Até o dia da convocação final, A partir dali, se formou um grupo e continua até hoje. Sábado vamos nos reunir.

E a dúvida com o Romário.

Pela forma como montei o time, o Romário não poderia jogar. Com ele, teríamos um jogador de muita qualidade na frente em uma parte reduzida do campo. Com o Ronaldo seria diferente, porque ele se movimentava muito. Então defini que com o Romário não daria certo.

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