Werther Santana/Estadão
Felipe Melo, do Palmeiras, é o líder de desarmes no Campeonato Paulista Werther Santana/Estadão

Felipe Melo, Jucilei e Ralf: 'Cães de guarda' estão de novo em moda

Em alta, esses jogadores, dão o primeiro combate à frente da zaga, precisam ter qualidade no passe e ainda fôlego para atacar

Ciro Campos, Wilson Baldini Jr., O Estado de S. Paulo

17 de fevereiro de 2018 | 17h00

Todos defendem no futebol que os jogadores de meio de campo precisam ter qualidade no passe e saber jogar. Mas também é verdade que ninguém dispensa um bom "cão de guarda" para proteger sua zaga. Felipe Melo ganha cada vez mais espaço no Palmeiras em sua versão mais ponderada, Jucilei é uma segurança no São Paulo, o Corinthians foi atrás de Ralf, mesmo tendo Gabriel, campeão ano passado, e a entrada de Casemiro equilibrou o poderoso Real Madrid, um dos melhores times do mundo.

"Eu vejo grandes clubes, como o Barcelona, com jogadores da mesma função que a minha. No Barcelona tem o Busquets, cuja função é deixar a bola para o Iniesta e o outros criarem. O Casemiro faz isso no Real Madrid e tinha o Thiago Motta no PSG. Os grandes times sempre têm esse jogador para roubar bola", diz Felipe Melo, que ostenta a titularidade na equipe de Roger com belas atuações.

Segundo informações do Palmeiras, ele é quem mais desarma rivais no Estadual, com 27 botes certeiros. O jogador lidera o fundamento mesmo sem ter disputado todas as partidas. Além disso, Felipe tem sido um maestro nos passes, com apenas sete erros em 271 tentativas. "Volantes como o Felipe Melo são úteis porque têm grande capacidade de roubar a bola e eles protegem a defesa. Quando se joga centralizado, ele não precisa fazer muitas coberturas laterais, têm boa jogada aérea e por ficar em bastante segurança na sua área de atuação, contribui para o rendimento do time", analisa o treinador Roger.

No São Paulo, Dorival Junior também é só elogios para Jucilei, um dos únicos jogadores a ter destaque no péssimo ano de 2017 do time. "Jucilei é um jogador dinâmico, com pegada. Toma conta do meio de campo, sempre com muita intensidade. É um atleta que se escala nos treinos durante a semana."

O termo "volante" só existe no futebol brasileiro. Surgiu nos anos de 1930 e 40, quando o argentino Carlos Martin Volante atuou pelo Flamengo. Trata-se de um jogador de marcação e espírito de luta incansáveis. "O volante sempre foi e sempre será um assistente da defesa. É sua função cobrir os laterais e dar o primeiro combate na frente da zaga", entende Batista, ex-jogador de Internacional, Palmeiras e Grêmio, além de ter integrado a seleção brasileira nas Copas do Mundo de 1978 e 82.

"Cobra-se muito dos volantes. Além do que já fazem, ainda querem que eles tenham fôlego para chegar ao ataque. É bom avisar que temos dois pulmões e não dois corações", brincou Batista, que atualmente é comentarista do canal SporTV.

Na história do futebol, a função de volante sempre foi marcada por ser exercida por líderes, que na maioria das vezes assumem o cargo de capitão do time. O primeiro a deixar seu nome gravado foi o Obdulio Varela, que liderou o Uruguai na final da Copa de 1950 com o título sobre o Brasil no Maracanã.

O maior exemplo de "cão de guarda" nacional é Zito, comandante do Santos de Pelé, na década de 60. "O Rei do Grito" tinha moral até para dar bronca no Rei do Futebol. "Eu era um chato", admitia Zito, que morreu aos 83 anos em 2015. "Foi uma figura paterna para mim", costuma dizer Pelé.

Apesar de ter sido um marcador implacável, Zito demonstrou preparo físico e conhecimento tático para se expor ao ataque e marcar gol, por exemplo, na final da Copa de 1962. Não por menos, o capitão do time do Santos na atualidade usa uma tarja com a letra "Z".

Discípulo de Zito na Vila, Clodoaldo também brilhou na seleção, ao fazer parte do time tricampeão mundial no México, em 1970. Um carrapato para os rivais, "Corró" mostrou habilidade ao driblar quatro italianos no início da jogada do gol de Carlos Alberto Torres, o quarto do Brasil naquela grande final da Copa.

Outro que marcou época foi Chicão, jogador do São Paulo de 1973 a 79. "Vê se apita direito essa porcaria", resmungou com o juiz José de Assis Aragão, em 76, antes de um clássico com o Palmeiras. Levou amarelo sem a bola rolar. Dois anos depois, bateu de frente com os argentinos no empate sem gols com os "hermanos" na Copa de 78. 

Em 1994, Dunga e Mauro Silva formaram uma das melhores duplas de volantes da Copa e deram liberdade para a criatividade e o talento de Romário e Bebeto. "O volante proporciona o equilíbrio necessário à equipe. Ele dá a solidez defensiva fundamental para se aumentar a confiança de todo o time. Gosto da frase do treinador alemão Sepp Herberger: “atacar e defender com a máxima eficiência", prega Mauro Silva, hoje na Federação Paulista de Futebol. 

"Pergunte a um zagueiro central e a um quarto zagueiro quem eles gostariam de ter à frente deles. E da mesma forma, esse volante dá mais liberdade aos meias ofensivos e aos laterais para que se dediquem às tarefas de criação e organização, sem se preocupar tanto com as obrigações defensivas. No futebol brasileiro, nossa história sempre teve características ofensivas, e culturalmente muitas vezes não se aprecia tanto os aspectos defensivos do futebol", ensina o ex-jogador e campeão do mundo, atual vice-presidente de Integração com Atletas da FPF.

Por tudo isso, os cães de guarda estão cada vez mais na moda. A temporada de caça está aberta. Portanto, atacantes... Cuidado!

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Batista lamenta não ter enfrentado a Itália em 1982: 'Sofri com uma bolha'

Volante marcado do time de Telê Santana lamenta não ter tentado contribuir para segurar o resultado positivo

Wilson Baldini Jr., O Estado de S. Paulo

17 de fevereiro de 2018 | 17h00

Um dos maiores volantes da história do Brasil, Batista, que colecionou grandes partidas por Internacional, Palmeiras e Grêmio, revelou com exclusividade ao Estado que não atuou pela seleção brasileira contra a Itália na segunda fase da Copa do Mundo da Espanha, em 1982, por opção do técnico Telê Santana.

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Muitos jogadores daquele elenco disseram após a derrota por 3 a 2, que eliminou o selecionado nacional antes da semifinal, que Batista não poderia atuar por estar machucado, após sofrer um forte pontapé de Maradona na região do púbis durante o confronto anterior, que o Brasil venceu por 3 a 1.

"Antes da Copa, sofri muito por causa de uma bolha no calcanhar. Em vez de estourarem a bolha, fizeram um enorme corte, que impedia de eu andar. Fiquei 21 dias sem poder treinar. Quando chegamos à Espanha, eu estava fora do time titular", relembrou o jogador, que também esteve no Mundial da Argentina, em 1978.

"Depois do jogo com a Argentina, na concentração, me perguntaram se eu poderia jogar. Eu disse que sim. Esperei que poderia ficar pelo menos no banco, mas não fui nem relacionado", contou o ex-jogador.

Telê, na época, foi bastante criticado por não adotar uma postura mais defensiva, pois o Brasil jogava pelo empate, que garantiria uma vaga na semifinal. "O terceiro gol da Itália saiu em uma cobrança de escanteio, quando todos os jogadores do Brasil estavam dentro da grande área", defendeu-se Telê, que morreu em 2006, aos 74 anos.

A seleção brasileira obteve quatro vitórias marcantes na Copa de 1982. As atuações fizeram a crítica especializada colocar o time de Telê entre os melhores de todos os tempos. O Brasil estreou naquele Mundial com uma vitória, de virada, sobre a União Soviética, com direito a dois golaços: um de Sócrates e outro de Eder. Depois goleou a Nova Zelândia (4 a 0) e Escócia (4 a 1) ainda pela primeira fase. No primeiro jogo decisivo, ganhou da Argentina por 3 a 1, depois perdeu para a Itália, de Rossi, por 3 a 2.

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