Cesar Greco/Ag. Palmeiras
Cesar Greco/Ag. Palmeiras

Felipe Melo: 'Não é hora de pensar em esquerda ou direita. O importante é se unir contra o vírus'

Em entrevista exclusiva, capitão do Palmeiras defende cuidados com o isolamento social e pede para o futebol não ter pressa para voltar

Entrevista com

Felipe Melo, zagueiro do Palmeiras

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2020 | 16h00

O zagueiro, volante e capitão do Palmeiras, Felipe Melo, quer que o Brasil diminua a polarização política e se una para superar a pandemia do novo coronavírus. O jogador de 36 anos disse em entrevista exclusiva ao Estadão, por telefone, que mantém apoio ao presidente Jair Bolsonaro e lamenta que o País esteja fragmentado pelas diferenças partidárias em pleno momento de crise de saúde.

Em isolamento na casa de praia em Paraty (RJ), o jogador tem a companhia da mulher e dos filhos, assim como mantém contatos com o Palmeiras para executar uma rotina de treinos. O capitão do time defende que o futebol não pode ter pressa para voltar e elogia a postura do clube de negociar com o elenco uma redução salarial de 25% para conter custos e evitar, assim, a demissão de outros funcionários. 

Como tem sido ficar sem futebol?

É complicado porque não tem a rotina de vestiário e de campo, de ir todo dia para lá, encontrar seus amigos, ter a resenha, jogar futebol, fazer o treinamento. Confesso que de nenhuma forma as concentrações me trazem saudade. Para ser sincero, com 36 anos não sinto falta disso, mas tenho muita saudade do vestiário, do futebol. Apesar dos filhos estarem comigo e de jogarmos futebol todos os dias, não é a mesma coisa de você entrar no estádio, de ter torcida e de ter jogos.

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Tem clubes mandando embora funcionário que ganha R$ 1.500. Isso é covardia!
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Felipe Melo, capitão do Palmeiras

Como capitão do time, qual foi o seu papel na negociação coletiva do elenco para reduzir os salários?

Eu não gosto de falar só de mim. Todos nós fomos essenciais nessa questão. Eu, como capitão da equipe, tive de "tirar o carro da frente". Mas todos participaram. Não tive dificuldade. A verdade é que tanto o Anderson Barros (diretor de futebol) quanto nosso presidente (Mauricio Galiotte), o Cicero (Souza, gerente de futebol) e o (Vanderlei) Luxemburgo foram essenciais quando chegaram e falaram: "O Palmeiras não vai mandar funcionário embora". Em minutos todos os jogadores deram aval e pensamos em ajudar as famílias dos funcionários. A gente tem visto situações de grandes clubes mandando embora funcionário que ganha R$ 1.500. Isso é covardia! É covardia porque acaba com a vida de uma pessoa que tem anos de clube, que tem pessoas que são sustentadas por elas. De repente o cara chega dentro de casa aí e comete suicídio. Então, o Palmeiras foi cirúrgico nesse ponto. Teve tantos patrocinadores que correram e que saíram dos seus clubes e os nossos patrocinadores mantiveram seu posto, para que o Palmeiras pudesse manter seus funcionários. Isso é muito importante.

Quais serão as principais perdas para um jogador com essa parada?

A gente está em umas férias mais longas. Estamos acostumados a tirar 30 dias, agora já estamos há 80 dias parados. O quesito campo e bola que são realmente os mais importantes. Vamos ter de voltar e sentir de novo o peso da bola, como se faz um passe longo e tal. Isso em uma semana a gente recupera. Mas dentro de campo, a intensidade de jogo vai demorar. Isso não tem jeito. Talvez demore uns cinco ou dez jogos, porque com o tempo você vai reconquistando o que perdeu. É como se fosse uma nova temporada. Eu costumo dizer que quem sabe não tem jeito. Não desaprende.

A sua família está cumprindo as orientações de isolamento?

Tenho uma avó com 75 anos, que está no grupo de risco. Meu pai e minha mãe são pessoas de uma forma física exuberante, mas estão tomando todas as precauções, ficando em casa, usam máscaras, luvas e álcool em gel. Seguem todos os procedimentos necessários. A gente entende que tomar esses cuidados são importantes porque protegem eles e os outros também. Mas confesso que minha preocupação não é tanto com eles, porque são pessoas que têm condição boa e se cuidam muito. Eu já vi reportagens que mostraram mortes em favela. A gente está em uma guerra. Temos de tomar todas as precauções.

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Eu sou a favor da volta do futebol, mas com precaução e segurança para todo mundo.
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Felipe Melo, capitão do Palmeiras

Você acredita que o futebol precisa ter paciência para voltar?

Eu creio que o Palmeiras está agindo de forma cirúrgica. Em nenhum momento ele vai fazer nada que não seja algo autorizado pelo prefeito, governador e a OMS (Organização Mundial de Saúde). A gente não vai peitar ninguém. É claro que a gente quer voltar. Eu sou a favor da volta do futebol, mas com precaução e segurança para todo mundo. Não adianta amanhã, por exemplo, liberarem para jogar futebol e a gente voltar e ter aglomeração, com estádio lotado. O que adianta? Eu, Felipe Melo, sou a favor da volta do futebol, sim, mas com cuidado para todos. Tampouco adianta eu treinar, trabalhar e pegar o vírus, mas chegar em casa e transmitir para o meu pai, para meus filhos. São pessoas que temos de cuidar. Tem de voltar com toda a segurança possível. Nada tem de ser feito com pressa. 

Alguns times já voltaram a treinar. Eles não podem estar em vantagem?

É claro que quem voltou pode estar um passo à frente, mas ninguém está parado. Assim como nós, do Palmeiras, estamos fazendo nosso trabalho de casa, outros também têm feito. Na minha forma de pensar, alguns times do Rio de Janeiro estão treinando para voltar e jogar o Campeonato Carioca e nós aqui, poderemos voltar a treinar para jogar o Paulista. Mas lá na frente, quanto a gente se encontrar no Brasileiro, já passou tanto tempo que todos vão estar no mesmo patamar.

Tem acompanhado as notícias sobre o Brasil? O que tem achado?

Não acompanho, não vejo nada. A gente não vê notícias. Tem uma briga política tão grande, né cara? Eu não entendo nada de política. A minha prioridade é não deixar os meus filhos assustados. Minha prioridade é ajudar quem mais precisa. Só vejo televisão para ver futebol ou filme.

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O momento não é de saber se o cara que está no comando é o da esquerda ou da direita, se é homem ou mulher, se tem seis dedos no pé ou na mão.
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Felipe Melo, capitão do Palmeiras

Apesar de não acompanhar, você sempre se posicionou politicamente...

Tem certas pessoas quando se assumem para direita, esquerda ou centrão, acabam tomando uma pedrada maior. Mas a verdade é que qualquer coisinha que eu faço já tomo pedrada. Então, uma pedrada a mais ou a menos... O momento não é de falar de política. O momento não é de saber se o cara que está no comando é o da esquerda ou da direita, se é homem ou mulher, se tem seis dedos no pé ou na mão. O importante agora é união, para acabarmos com essa guerra, com esse vírus que está levando tantas pessoas. Eu respondo aquilo que tem de ser respondido. Para mim o que os outros pensam não importa. Sou sempre transparente nas respostas. Se alguém vier falar comigo de política, primeiramente eu não entendo e depois digo que não é o momento. Assim como presidente, governador e ministro, todo mundo quer acabar com esse vírus. É momento de união do Brasil e do mundo.

Você pensa em ser técnico no futuro?

Penso em continuar dentro do futebol. Se vou ser treinador, comentarista esportivo, diretor esportivo, aí eu não sei. Não tenho uma prioridade. Minha prioridade é continuar no futebol.

 

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