Eduardo Nicolau/Estadão
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Luis Fernando Verissimo
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Fenômenos

Há um certo conservadorismo inerente ao futebol que reage contra novas ideias e abafa qualquer tentativa de mudança radical

Luis Fernando Verissimo*, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2018 | 04h00

Fenômenos efêmeros. Tente dizer isto várias vezes, rapidamente. Fenômenos efêmeros, fenômenos efêmeros, fenômenos efêmeros. Há no mínimo um fenômeno efêmero em cada Copa do Mundo. São aqueles times de quem ninguém espera nada e que surgem na Copa espetacularmente, entusiasmando todo o mundo.

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Um exemplo de fenômeno efêmero foi a Dinamarca na Copa de 86, no México. No seu segundo jogo, depois de um magro 1 a 0 contra a Escócia que todo o mundo esqueceu, a Dinamarca fez 6 x 1 no Uruguai, que, afinal, não era um time qualquer. No dia seguinte, não se falava em outra coisa a não ser na “Dinamáquina”.

Uma sensação parecida com a provocada pelo futebol total da Holanda na Copa de 74, comandado pelo legendário Johan Cruyff. Surgiram teses sobre a superioridade dos escandinavos. Como a Holanda de 74, a Dinamarca tinha reinventado o futebol. Quem não jogasse como a Dinamarca teria de se contentar com o segundo lugar na Copa, já que era inevitável a vitória daquela máquina trituradora. Nós mal podíamos esperar pelos outros jogos da magnífica Dinamarca. Veio outra magra vitória, contra a Alemanha. E, nas oitavas de final contra a Espanha, outra goleada: 5 a 1. Para a Espanha.

Nenhuma das surpresas dessa Copa na Rússia pode ser chamada de fenômeno, se bem que a vitória do México sobre a Alemanha parecia ser um sinal de que surpresas maiores viriam. O Senegal é um fenômeno menor, mas todos os times africanos costumam dar sustos nos grandes, é a sua função nas Copas. Acho que há uma vontade implícita entre os que acompanham ou comentam o futebol que apareçam fenômenos e que não sejam efêmeros, o que explica o entusiasmo com que é recebida qualquer forma diferente de jogar. A Holanda do carrossel, a famosa “Laranja Mecânica”, encantou a todos, mas não deixou nenhum legado e nunca ganhou Copa.

 

A “Dinamáquina” só durou um jogo, nada mais efêmero. Há um certo conservadorismo inerente ao futebol que reage contra novas ideias e abafa qualquer tentativa de mudança radical. O que não nos impede de sonhar com o diferente. Por falar em diferente, não sei bem como funciona o juiz eletrônico. É o juiz que pede para ver a jogada repetida e acabar com a dúvida ou os times é que pedem ao juiz para ver de novo, como no futebol americano? Não sei se, no “football” lá deles, os times têm direito a um número finito de pedidos de videochecagens. Me parece mais lógico que os times peçam. De qualquer maneira, se ainda não reinventaram o futebol, reinventaram a arbitragem. 

*ESCRITOR E COLUNISTA DO ESTADÃO

 

 

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