Paulo Liebert/Estadão
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Férias do Brasil

'Tchau, eu vou, mas volto!'; a frase podia valer para atletas que vão atuar no exterior

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2019 | 04h00

Lupércio Ferreira, negro e forte, era ligado ao São Paulo. Primeiro como profissional, pois era massagista do clube, inclusive durante a vitoriosa campanha de 1957 do time de Dino Sani, Zizinho, Mauro Ramos e Canhoteiro. Depois, como torcedor propriamente dito do tricolor. O problema é que entre uma temporada e outra do futebol, Lupércio costumava ser trancafiado na Casa de Detenção, primeiramente na avenida Tiradentes, depois na avenida Cruzeiro do Sul, de péssima memória. Seus crimes hoje fariam rir. Brigas de rua, agressões, tentativas de estelionato e venda de produtos proibidos, hoje de uso corrente. Lupércio trafegava entre a Boca do Lixo no centro da cidade e o bairro de Santana, sua segunda morada.

Uma de suas saídas da Casa de Detenção é antológica e foi registrada num vídeo exemplar pelo jornalista Goulart de Andrade. Fim de tarde, quase noite, Lupércio carregando pequena mala de mão, percorre a larga avenida ladeada pelos pavilhões dos presos, rumo ao sinistro portão de entrada que iria se abrir para deixá-lo colocar de novo os pés na Cruzeiro do Sul.

Correndo entre os pavilhões, na atitude dos jogadores quando entram em campo, Lupércio era saudado por todos os detentos nas janelas gradeadas de suas celas aos gritos de alegre despedida. Era popular entre os presos pela irreverência e tiradas de espírito.

A prova disso é que, enquanto corria, Lupércio acenava para as janelas lotadas gritando: "Tchau, moçada, eu vou, mas volto!" Repetia esse "eu vou, mas volto!" para delírio de seus companheiros de prisão, várias vezes até se perder no negror da noite.

Pois bem, acho que a maioria dos jogadores de futebol que não cessam de ir para o exterior deveriam ver esse vídeo do Goulart e sair correndo pelos aeroportos em direção dos aviões que os levam gritando "Tchau pessoal, eu vou, mas volto!" E voltam mesmo, muitas vezes bem rápido. Anseiam por voltar como Lupércio ansiava pela avenida lá fora. Como ele, fazem apenas uma temporada de isolamento futebolístico e retornam felizes. Tiram umas férias do Brasil, por assim dizer, o que, dadas as circunstâncias, até que não é de maneira nenhuma mau negócio. E voltam, aliás, os mesmos de quando partiram. Voltam com os mesmos defeitos e as mesmas virtudes, como se uma viagem ao exterior não tivesse qualquer efeito sobre suas vidas. Um ou outro um pouco mais careca.

Outro dia topei com Rodriguinho já de volta, agora orgulhosamente com a camisa do Cruzeiro, pouco meses depois de deixar o Corinthians com lágrimas nos olhos. Ouvi dizer que Cuca já pensa em trazer para o São Paulo vários campeões com ele no Palmeiras em passado recente, e, neste momento, espalhados por vários lugares desconhecidos do globo e, claro, prontos para voltar. Nem os técnicos escapam.

Carille voltou tão rápido e tão igual, no aspecto e no jogo, que parece nem ter saído. Sequer teve tempo de mudar o penteado. Antigamente temia-se pelo esquecimento, por uma ausência quase inevitável de convocações para a seleção e da memória do torcedor. Hoje nem uma coisa nem outra tem importância.

O esquecimento está sendo evitado com estadas no exterior cada vez mais rápidas. Para convocações, ninguém dá a menor bola, já que a seleção é assunto de alguns atletas eleitos com antecedência e sem qualquer surpresa ou novidade. Aos restantes sobra o exterior para ganhar dinheiro voltar. Não nos times dos grandes centros, de forte concorrência, mas em lugares tranquilos futebolisticamente modestos, lugares de boas férias remuneradas. Ao contrário de Lupércio com seu "eu vou, mas volto!", em que saía sem um tostão no bolso e voltava pior ainda, no futebol sai-se com dinheiro e volta-se com mais dinheiro ainda.

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