Kai Pfaffenbach / Reuters
Kai Pfaffenbach / Reuters

Ferland Mendy tem enorme desafio após dinastia brasileira na lateral-esquerda do Real Madrid

Marcelo e Roberto Carlos ocuparam por muito anos a posição que agora deve ser do francês definitivamente

Josué Seixas, especial para o Estadão

27 de junho de 2022 | 20h00

Ferland Mendy já havia conquistado a titularidade no Real Madrid. Ele chegou ao clube em 2019, após transferência do Lyon, e foi parte da renovação na lateral-esquerda dos merengues, que culminou com a saída de Marcelo recentemente. As partidas contra Manchester City, pelas semifinais da Liga dos Campeões, mostraram a garra do francês de 27 anos.

No primeiro jogo, ele deu uma assistência para Benzema. No segundo, salvou uma bola em cima da linha após chute de Jack Grealish, quando o Real Madrid ainda estava em desvantagem, no Santiago Bernabéu. Os dois gols de Rodrygo, minutos depois, caracterizaram a remontada. Benzema, de pênalti, fechou o placar. Contra o Liverpool, o lateral-esquerdo foi responsável por tentar segurar as investidas de Salah. Ele conseguiu dificultar a vida do egípcio em mais de uma oportunidade. Os merengues ganharam o título com gol de Vinícius Júnior. 

Para o colaborador da France Football e do L'Equipe, Thymoté Pinon, que acompanha o Real Madrid de perto, a discussão sobre Mendy ser um sucessor direto de Roberto Carlos e Marcelo é um pouco complicada. Ele acredita que o clube se municiou para ter uma alternância na lateral-esquerda com a chegada de Rüdiger, uma vez que David Alaba pode fazer a função.

"Não tenho tanta certeza (se ele seguirá o legado dos brasileiros). Se uma grande oferta estiver chegando, o Real Madrid provavelmente o deixará ir. Ainda mais agora que eles assinaram com Rüdiger, que poderia permitir que Alaba jogasse como lateral-esquerdo. Mesmo que Alaba provavelmente esteja melhor agora na defesa central e tenha desenvolvido uma conexão especial com Militão", explicou o jornalista.

Um dos problemas de Mendy, segundo Pinon, é que o jogador tem um alto número de lesões e pode perder partidas importantes. Na temporada passada, ele não atuou no 'El Clásico', contra o Barcelona, por exemplo, além do primeiro jogo diante do Paris Saint-Germain, nas oitavas da Liga dos Campeões.

"Sinceramente, só existe um Roberto Carlos. É uma lenda do clube espanhol. Mesmo com Marcelo, o jogador com mais títulos na história do Real Madrid, há um debate! Então isso significa tudo sobre o legado de Roberto Carlos. Mas Ferland foi bem desde que ingressou no clube. Zidane era um grande fã dele, dando-lhe muita responsabilidade com a bola, jogando-o em posição axial com a bola, para criar espaço para Kroos e Vini na esquerda", ponderou. 

"Significa que Ferland sabe interpretar várias situações. Com Carlo Ancelotti, o treinador italiano, ele jogou um pouco mais 'tradicionalmente', como um lateral-esquerdo clássico, mas honestamente ele também fez um ótimo trabalho. Com momentos difíceis, devido a algumas lesões, mas terminou forte com algumas jogadas determinantes", complementou Pinon. 

Um dos capitães do clube, Marcelo também exercia um papel importante de liderança fora de campo, no vestiário. Ele era um dos que estavam próximos dos jogadores mais novos, dando conselhos e fazendo brincadeiras. Presente no Bernabéu no jogo de despedida do lateral-esquerdo, Pinon disse que foi uma experiência "muito emocionante": "Todos cantavam por ele desde o treinamento. Quando ele entrou em campo, cantavam toda vez que ele pegava na bola". 

O impacto dos brasileiros no clube é semelhante. Os dois foram parte de eras de ouro no Real Madrid e conquistaram a Liga dos Campeões após longos períodos de seca. No caso de Roberto Carlos, havia uma espera de 32 anos. Com Marcelo, o período foi menor, mas igualmente importante: 12 anos. 

"Embora o clube tivesse outros grandes jogadores, como Raúl e Zidane ou Cristiano Ronaldo e Benzema, e que não fossem os grandes arquitetos do jogo, Roberto Carlos e Marcelo foram os catalisadores em duas eras de muito sucesso do Real Madrid na Liga dos Campeões, que é o que significa mais para o próprio time e seus torcedores. Eles marcaram a história ao encerrarem períodos de secas longas", analisa o jornalista britânico Tom Sanderson, que vive em Barcelona e escreve para Forbes e The Guardian

Roberto Carlos conquistou o título da Liga dos Campeões em três temporadas: 1997-98, 1999-00 e 2001-02. Marcelo levantou o troféu cinco vezes: 2013-14, 2014-15, 2016-17, 2017-18 e 2021-22. Entre os dois, nunca houve a competição de quem seria o maior lateral-esquerdo da história do clube. Existe um senso de pai e filho, de acordo com Roberto Carlos, que viu Marcelo chegando ao clube ainda muito jovem.

"Cresci junto com ele no Real Madrid. Ele chegou com 17 anos e não fui à cerimônia de despedida dele porque eu sabia que ia chorar, porque o vi crescer. Hoje em dia se fazem muitas pesquisas sobre quem foi melhor, se fui eu ou o Marcelo. Para mim, não há disputa, porque ele é como se fosse meu filho e saber que ele fez história com a camisa do Real foi como se eu tivesse ganho com ele. Ele, na minha opinião, é o melhor lateral-esquerdo de todos os tempos. Já falei isso com ele e ele sabe disso", disse Roberto Carlos, ao ser perguntado em Miami, antes de um amistoso com Ronaldinho Gaúcho.

Para Sanderson, um impacto que não pode ser esquecido em relação aos dois jogadores também está relacionado ao extra-campo, já que ambos sempre foram considerados grandes profissionais e com uma grande ética de trabalho. "Roberto Carlos era e continua sendo popular com os torcedores porque a personalidade dele é a do brasileiro clássico: amistoso, positivo, sempre sorridente. Ele continua sendo um grande embaixador do clube desde que se aposentou e sempre o representa mundialmente. Jogou mais de 1.100 partidas por clube e seleção, o que é algo difícil", observa antes de fazer uma comparação com seu sucessor.

"O Marcelo é conhecido como aquele cara família, que tem o filho jogando na base do clube. Em alguns momentos, foi visto um pouco acima do peso e talvez tenha ficado mais tempo no Real do que deveria. Ele sempre se dedicou muito ao Real Madrid e nunca se envolveu em escândalos. Mesmo que não tenha jogado muito no último título da Champions League, foi o final perfeito para a carreira dele em Madrie. Nenhum torcedor gostaria de ter negado isso ao Marcelo", explica.

Ele acrescenta que na Espanha já havia uma dúvida se Marcelo conseguiria jogar no alto nível imposto pelo Real Madrid e, por isso, 'talvez tenha ficado mais tempo no clube do que deveria'. "Mas ele foi uma parte histórica do clube, especialmente entre 2014 e 2018, porque era intocável na lateral-esquerda e um dos ingredientes para o sucesso do time", ressalta. 

O especialista britânico Tom Sanderson faz uma comparação com o maior rival do Real Madrid, o Barcelona, que por anos teve Messi no comando, mas que agora tem dificuldades para voltar a figurar entre os melhores da Europa. "É uma situação muito diferente da que vemos no Barcelona, por exemplo. Não há dinheiro, mas alguns jogadores como Piqué, Jordi Alba e Busquets, que até jogaram bem desde que Xavi chegou, não se transferiram e têm salários muito altos, que o clube não consegue pagar. Esse 'tempo a mais' que o Marcelo ficou no Real Madrid não teve efeito negativo algum no clube."

Roberto Carlos permaneceu no Real Madrid por 11 anos e disputou 527 partidas, com 68 gols. Marcelo ficou 16 anos, atuou em 545 partidas e é o maior vencedor com a camisa merengue, com 25 títulos. A dinastia brasileira na lateral-esquerda nunca será esquecida pelos merengues. 

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