Daniel Tecerrill/Reuters
Daniel Tecerrill/Reuters

Ferretti pretende fazer história com o Tigres, mas teme a arbitragem

Técnico brasileiro pede imparcialidade no apito diante do River Plate

O Estado de S. Paulo

01 de agosto de 2015 | 17h00

River Plate e Tigres se enfrentam pela quarta vez na atual edição da Copa Libertadores, nesta quarta-feira, em Buenos Aires, valendo o título. Depois de três empates (dois na fase de grupos e um 0 a 0 na ida da decisão), o técnico brasileiro radicado no México, Ricardo Ferretti, confia que pode levar o ‘convidado’ clube mexicano ao título. Ele esbanja confiança, mas teme, apenas, que a arbitragem possa atrapalhar seus planos.

“Essa (arbitragem caseira) é a preocupação que realmente tenho. A gente é convidado e muita gente pensa mal: ‘é convidado e vai levar a fama da festa’? Temos experiência de certos jogos, mas espero que todos os árbitros atuem de forma neutra e não afetem no marcador, não inventem coisas. Que seja definido no futebol”, diz Ferretti, de 57 anos, para a rádio Estadão.

Quem ganhar no Monumental de Nuñes leva a taça. Em caso de empate, o título será decidido nos pênaltis. Para o Tigres, seria um grande feito para um clube que não faz parte da Conmebol, organizadora da competição, e que há cinco anos lutava contra um rebaixamento local.

“Quando chegamos, em 2010, o time sinceramente estava numa situação difícil, em último lugar e naturalmente, foi muito difícil, mas ele conseguiu se livrar. Dois anos e meio depois foi campeão da Liga (mexicana), seis meses depois, da Copa (mexicana) e agora está na final da Libertadores. Foi um processo que marcamos a curto, médio e longo prazo que a gente está cumprindo totalmente”, afirma o treinador.

Ferretti mora no México há 39 anos. Desde os 18, quando tinha acabado de cumprir o contrato com o Bonsucesso e foi se arriscar. “Uma arriscada que já tem 39 anos”, brinca.

Depois das aposentadoria dos gramados, ele se tornou treinador dos clubes do país e orgulha-se de jamais ter sido demitido. “Graças a Deus, ao apoio dos diretores que tenho e o resultado que dão os jogadores no campo. Essa fórmula serve para manter contrato e ter opção de outros anos, como agora, que assinei por três mais (serão oito anos no comando do Tigres). Essa combinação serve, mas de trabalhar, convencer e tirar os resultados, senão vira um mais na lista de despedidos.

Trabalho forte e sério, por sinal, são as marcas do brasileiro. Ele não dá moleza aos comandados, dá trabalho longos e exaustivos e colhe os frutos. Ganhar a Libertadores seria seu marco como técnico de futebol.

Para isso, vem trabalhando bastante a parte psicológica de seu time. Na final, ele não quer cair na catimba argentina. “Esta instabilidade mental que venho trabalhando muito. No primeiro tempo (do jogo de ida) tivemos certas distrações de alguns jogadores. Eu disse: ‘Vocês estão perdendo a cabeça, eles estavam forçando para que percam a cabeça e esqueçam de jogar futebol”, revela. “Tem de estar muito frio, de cabeça fria, ainda mais na Argentina, com público em cima, com juiz que pode se pressionar e qualquer coisinha vira amarelo. Daí o jogo termina com patadas (entradas duras) sem razão e fica um espetáculo deplorável.”

Cruz Azul e Chivas foram os outros mexicanos na final da Libertadores. Perderam, respectivamente, para Boca Juniors e Internacional. Agora, Ferretti quer que a história seja diferente.

DISCIPLINADOR

Ferretti não é de brigar com jogadores, mas procura tirar o máximo de seus comandados. E tudo que pede, mostra como se faz, para provar que é possível.

“Aqui, a gente tem uma forma de ser, bom eu tenho uma forma de ser. Um jogador de futebol não é diferente pra mim, é igual a qualquer outro trabalhador, a única diferença é que tem fama e ganha muito dinheiro. E se ganha mais tem de se entregar mais.”, observa.

E lista quais atributos não abre mão de quem dirige. “Disciplina, pontualidade, respeito, entrega e compromisso. Se não tem isso não pode conseguir, tendo tudo isso às vezes não alcança. Sei que são seres humanos, tenho respeito com a integridade do ser, mas a exigência dentro de campo, essa é de 100%.”

O treinador também não admite acomodação ou estrelismo no seu time. Na verdade, até condena. “Não tem esse negócio de estrelinha, quem ganha mais tem de jogar mais. Do Messi tem de esperar um coisa, do José outra. Mas muitas vezes exijo mais da hierarquia do que dos menores. Tem de jogar no nível que a gente espera, tem de estar comprometido, pois ninguém me faz nenhum favor.”

SEM PENSAR NO BRASIL

Com uma carreira totalmente realizada no México, Ferretti nem pensa em voltar ao Brasil. E até brinca com a situação. “Quero ficar empregado, não dirigir um time por quatro, cinco jogos e depois ter de colocar anúncio no jornal.”

Ferretti também evita muitos comentários sobre a seleção brasileira, de quem acompanha de longe, mas uma coisa ele enxerga: “hoje em dia nossa seleção perdeu um pouco de crédito em todos os sentidos.”

Brasileiro, mas com pensamento no México, ele está cotado para assumir a seleção daquele país. É o favorito, só que já manda o recado aos dirigentes. “Se pode? Talvez. Mas para modificar, senão não entro. De 10, acho que quatro ou cinco coisas têm de mudar para próprio benefício da seleção. Há muita publicidade e pouco aproveitamento esportivo”, enfatiza. “Com toda estrutura e dinheiro que o México ganha, teve de se classificar na repescagem. Isso não é certo. Sei que vou ter de aceitar certas coisas, mas outras, no lado esportivo, se não muda, estou muito bem no meu time.”


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