Hélvio Romero/Estadão
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Festa do calote

O poderio econômico do futebol em Terra Brasilis continua mentiroso

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2019 | 04h30

“Qual a mentira da vez?" Resume a situação o questionamento feito por quem vive e adora futebol, diante de um aparelho de TV onde um programa esportivo exibe manchete interrogativa. O brasileiro anseia por heróis que resolvam seus problemas na política, na vida, no dia a dia. E no papel de torcedor, está sempre à espera de um reforço. Incontinente, aguarda pela chegada de um novo jogador para seu time, mesmo que dele não precise.

Tal postura enraizada na chamada cultura popular é capaz de alavancar a audiência de programas na televisão, sites e blogs. Entram em cena profissionais – diante e atrás das câmeras, ou escrevendo, falando –, que deveriam buscar incansavelmente a verdade, mas criam negócios, transações imaginárias, propostas fantasiosas. E sobre elas rolam intermináveis conversas com outros, ali postados, além de personagens que não são jornalistas, mas entram na roda. 

Do outro lado, o público consome a enxurrada de lorotas sem parcimônia. Como se tudo aquilo fosse possível, fosse verdade. Na semana do Natal, o nome de um centroavante manjadíssimo surgiu no noticiário. Ele estaria prestes a retornar ao Brasil para vestir mais uma vez a camisa de seu clube de coração. Em contato com pessoas que saberiam algo a respeito, confirmei minhas suspeitas: era fake news. Mais uma. Sequer proposta havia sido feita ao agente do atleta.

Antes de 2018 terminar, o nome do atacante já desaparecera da pauta. Mas nos dias natalinos, foi assunto e deu pano pra manga. Falou-se a respeito da possível volta do controverso homem-gol por minutos, horas até, somado o tempo dedicado ao “assunto” em todas as mídias. Objetivo alcançado, com cliques obtidos pelo autor da fanfarrice. Representantes do atleta certamente celebraram a exposição gratuita do cliente, uma excelente divulgação. Papai Noel não faria melhor.

Torcedores insistem em se iludir nesse faz de conta teimoso que derruba a credibilidade de parte da imprensa esportiva, mas turbina a audiência. Ao mesmo tempo, catapulta para as manchetes nomes que jamais deveriam ali aparecer naquele momento. Simplesmente porque não eram notícia. A credibilidade de quem informa deveria ser valorizada por todos os consumidores.

Essa onda fake dá ao chamado mercado de transferências uma enganosa sensação de poderio, como se os clubes tivessem condições de sair contratando por aí. Na realidade podem ser contados em menos da metade dos dedos de uma só mão quais detêm, hoje, tal poderio. Endividadas, como sempre, agremiações seguem empurrando seus compromissos financeiros, atrasando pagamentos e devendo entre elas. Uma festa do calote em nome da bola.

Com injeções financeiras jamais recebidas na história e as dívidas federais refinanciadas pelo Profut (Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro), já era para termos um novo cenário. Que segue distante. O futebol brasileiro continua gerido como na segunda metade do século 20, mesmo na reta final da segunda década do 21. Os clubes gastam o que não têm em busca de resultados incertos. Depois veem como fica.

É evidente que dirigentes desprovidos de cuidado administrativo acreditam em novas ajudas do governo, com mais programas de socorro às suas combalidas contas, impagáveis nas condições normais. Fossem eles responsabilizados com seus próprios bens agiriam assim? Contudo, poucos clubes têm proteções a tais ações maléficas a eles mesmos em seus estatutos. O poderio econômico do futebol em Terra Brasilis continua mentiroso. Como boa parte do noticiário.

 

 

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