Arnd Wiegmann/Reuters
Arnd Wiegmann/Reuters

Apesar das prisões desta quinta, dirigentes criam 'Nova Fifa'

Reformas aprovadas, com divulgação de salário e limite de mandato

Jamil Chade, Correspondente em Genebra, O Estado de S. Paulo

03 de dezembro de 2015 | 10h20

Apesar das prisões contra os dirigentes do futebol realizadas na manhã desta quinta-feira, a Fifa foi adiante com seus planos de reformas, as maiores em 111 anos de história da entidade. Um acordo entre dirigentes permitiu a criação de uma nova constituição para a Fifa que, abalada por prisões e fuga dos patrocinadores, registrou o primeiro déficit em 14 anos e com um buraco em 2015 de US$ 103 milhões.

Para reverter a crise financeira e restaurar a imagem da entidade que comanda o futebol mundial, os executivos aprovaram uma reforma completa da organização. Pelo menos três multinacionais estariam dispostas a assinar um acordo com a Fifa, mas querem garantias de que as mudanças vão ocorrer de fato. A refundação da Fifa não veio sem um conflito interno. A proposta original, de Domenico Scala, tentou ser 'reescrita' por dirigentes asiáticos e por aliados de Joseph Blatter. A ideia de colocar limite a mandatos havia sido enterrada. Mas pressionados pelos cartolas dos EUA e apoiados pela Conmebol, a reforma conseguiu avançar.

"Sou contra. Mas se isso é o que precisa para restabelecer a imagem da Fifa, vou aceitar", prometeu Ahmed Al Sabah, membro do Comitê Executivo e um dos homens mais fortes hoje na entidade. "A prioridade é a imagem da Fifa". Enquanto os americanos sabiam que apenas uma reforma profunda poderia salvar a imagem do futebol nos EUA, na América do Sul a direção da Conmebol precisava dar um sinal de que a gestão precisaria mudar. Pelo menos sete dirigentes da região foram presos ou afastados, enquanto Marco Polo Del Nero não pode deixar o Brasil.

ANTI-HAVELANGE

O clima do encontro foi descrito como sendo "muito parecido a um enterro", diante da prisão de Alfredo Hawit e Juan Napout, dois vice-presidentes da Fifa. A intenção da organização era de mostrar ao mundo que uma nova entidade estava sendo criada. Mas, uma vez mais, ela foi abalada por uma intervenção da polícia. A meta era a de adotar medidas que estão sendo chamadas de "Anti-Havelange". Ou seja, que desmontariam a estrutura de poder montada por 24 anos pelo brasileiro, sem limites de mandatos nem transparência. Os advogados estabeleceram uma nova constituição, justamente para afastar a entidade que vai permanecer no comando do futebol daquela estrutura que hoje passou a ser alvo de investigações da justiça.

O pacote adota ainda um limite de três mandatos para presidentes e executivos, o que significa que um dirigente pode ficar no máximo doze anos no poder. Na avaliação dos encarregados pelas reformas, ao limitar os mandatos, a Fifa estaria impedindo a formação de 'clubes' dentro da entidade que controlariam decisões importantes. O Comitê Executivo ainda será transformado em Conselho da Fifa e decisões técnicas sobre contratos passarão a ser examinadas por um grupo de especialista, justamente para evitar que influências políticas determinem a escolha de parceiros comerciais.

SALÁRIOS

Outra decisão será a de publicar o salário do presidente e dos diretores. A meta é a de revelar o que de fato a Fifa paga a seus dirigentes e quanto vai para o futebol. Um grupo independente ainda vai fazer um "exame de integridade" em cada um dos novos membros do Conselho da Fifa para garantir que nenhum membro esteja sob suspeita em seus respectivos países. Depois de aprovada, a reforma será colocada em votação para as 209 federações nacionais, em fevereiro. Mas não deverá haver mudanças.

COPA

A Copa do Mundo ainda pode passar a ter 40 seleções. A medida valeria a partir do Mundial de 2026 e faz parte de uma reforma da entidade que serve como compensação política para a perda de poder das confederações regionais no controle do futebol mundial. Hoje com 32 times, o Mundial já se transformou em um desafio operacional. Ao colocar mais oito seleções, o torneio promete passar de um mês e incluiria mais de 80 partidas. 

A medida, que está sob debate no Comitê Executivo da Fifa, está sendo duramente criticada por pessoas ligadas ao futebol. A acusação é de que isso seja uma forma de compensar as confederações regionais que, na criação de uma nova Fifa, terão seus poderes limitados. Em 1994, a Copa foi ampliada de 24 para 32 times. Agora, um novo formato dará a possibilidade para que a Fifa de mais lugares para seleções de fora da Europa.

Para 2018, os europeus terão 14 seleções, quase dez a mais que a segunda confederação melhor representada. Os africanos contam com cinco lugares, contra quatro e meio para a América do Sul - uma vaga é de repescagem.

 

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