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João Havelange é acusado de manipular acordos de TV da Copa

Ex-vice-presidente revela como brasileiro tentou abafar casos de propina quando era chefão do futebol e diz que Blatter foi cúmplice

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S. Paulo

06 de outubro de 2015 | 08h59

Um ex-vice-presidente da Fifa sob o mandato de João Havelange, antecessor de Blatter, acusa o brasileiro de ter tentado esconder os escândalos de corrupção enquanto comandou a entidade máxima do futebol e de ter manipulado os acordos de transmissão do Mundial, prejudicando a renda do futebol. Hoje, o magnata coreano Chung Mong Joon, que concorre à presidência da Fifa, publicou uma série de revelações sobre os bastidores da Casa do futebol. Ele é acusado de violar as regras de ética da Fifa ao ter supostamente tentado comprar apoio para que a Coreia do Sul fosse escolhida para sediar a Copa de 2022. Diante de uma iminente suspensão por ter proposto um fundo de US$ 700 milhões, o bilionário e acionista da Hyundai decidiu trazer à tona os bastidores da entidade.

Chung foi vice-presidente da Fifa por 17 anos a partir de 1994 e era considerado como um dos principais nomes na corrida para as eleições de fevereiro de 2016. Mas deve ter seu sonho interrompido diante de uma suspensão nos próximos dias. Wle contou como, ao entrar na Fifa como vice-presidente, foi colocado como membro do Comitê de Mídia da entidade. "Eu achava que o comitê iria lidar com assuntos importantes relacionados à transmissão e aos direitos de patrocínio", disse. "Mas tudo o que falávamos era se iríamos servir comida fria ou quente aos convidados. Eu acabei renunciando diante de tanta frustração."

Segundo ele, em outubro de 1995, em Seul, ele faria um discurso que deixou Havelange irritado. "Pedi mais transparência. Parecia lógico", disse. Seu principal argumento era de que os contratos de TV vendidos pela Fifa estavam sendo sub-valorizados e que a entidade não estava conseguindo a mesma renda de outros eventos, alguns dos quais menos populares. "Não há dúvidas de que a Copa é uma proposta atrativa para a televisão", disse. "De fato, existem argumentos que apontam que ela é muito mais popular que os Jogos Olímpicos para a audiência na TV", insistiu. "Apesar disso, as vendas de direitos de TV da Copa nunca atingiram os níveis de renda realizados pelos Jogos Olímpicos", afirmou em 1995.

Para ele, o problema estava na forma como João Havelange montou o esquema de decisão sobre qual emissora ficaria com os contratos. "Precisamos de mais transparência. Historicamente, o processo de tomada de decisões sobre marketing e contratos de TV tem sido lidado por um grupo muito pequeno de pessoas, a portas fechadas", acusou. Há 20 anos, ele sugeriu uma mudança na forma de escolha de emissoras que transmitiram a Copa, justamente para garantir maior renda para a Fifa.

"O Comitê de Mídia da Fifa deveria estar envolvido no processo para garantir que todas as necessidades dos meios sejam consideradas e tenham uma cobertura adequada", disse. Segundo ele, o Comitê Financeiro deveria garantir "orientação sobre as condições fiscais" e o Comitê Executivo deveria ser o órgão máximo de marketing e contratos de direitos de TV". "Dessa forma, os interesses dos jogadores, torcedores, patrocinadores e dirigentes seriam protegidos e contribuiriam para o desenvolvimento do jogo", insistiu o coreano. "Uma maior transparência é essencial porque a Copa tem sido financeiramente sub-valorizada", acusou.

IRRITAÇÃO

Dois meses depois, Chung seria duramente reprimido por Havelange. "Na reunião do Comitê Executivo da Fifa dois meses mais tarde em Paris, Havelange, de uma forma muito brava, me perguntou por que eu tinha citado a questão da transparência. Ele ficou tão bravo que dava murros sobre a mesa e os tradutores simultâneos não conseguiam traduzir o que ele gritava", disse. "A atmosfera normalmente cordial e amistosa dos encontros de repente ficou muito tensa e feia. Havelange deve ter pensado que eu já sabia de detalhes de seus negócios corruptos com a ISL, com a qual ele estava envolvido naquele momento", afirmou.

Chung garante que na época não entendeu o motivo da ira do brasileiro. "Agora eu entendo" disse. "Entre 1992 e 2000, Havelange recebeu US$ 50 milhões em propinas por uma empresa chamada ISL", disse. Citando um processo na Justiça suíça, o coreano apontou que o ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, também foi beneficiado pelos depósitos.

O coreano revela que mesmo Joseph Blatter, o atual presidente e então braço direito do brasileiro, sabia do esquema. "Um dia, Blatter encontrou uma transferência da ISL para uma conta da Fifa com uma mensagem em anexo dizendo que era um pagamento para Havelange. No lugar de abrir uma investigação, ele simplesmente retornou o cheque para a ISL", disse. Para Chung, Blatter mereceria por esse ato um suspensão por toda sua vida do futebol. "Se isso tivesse ocorrido, a Fifa não estaria na crise de hoje."

Mas o coreano alerta que o Comitê de Ética da Fifa jamais fez algo efetivo para lidar com o caso e só começou a investigar em 2012, onze anos depois da falência da ISL. O resultado foi "exonerar" Blatter de qualquer responsabilidade. Para Chung, que pode pegar 15 anos de suspensão por ter tentado oferecer dinheiro por votos, o tribunal da Fifa não é nada mais que um "capanga" de Blatter para destruir os adversários políticos. Além do coreano, o Comitê de Etica também investiga Michel Platini, outro candidato ao cargo na Fifa. João Havelange não se pronunciou.

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