Maxim Zmeyev/Reuters
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Jérôme Valcke pediu indenização milionária para deixar a Fifa

Número 2 da entidade é afastado após publicação de denúncias

Jamil Chade, correspondente em Zurique, O Estado de S. Paulo

18 de setembro de 2015 | 10h54

Uma semana antes das revelações sobre seu suposto envolvimento no mercado negro de ingressos, Jérôme Valcke tentou convencer a Fifa a pagar uma compensação milionária a ele para que deixasse o cargo de secretário-geral da entidade antes do fim de seu mandato. Na quinta-feira, o Estado e outros nove jornais mundiais revelaram documentos que apontam para o fato de que Valcke esteve envolvido na venda de ingressos da Copa do Mundo de 2014, no Brasil, em acordos que permitiam um ágio de até 300% no preço de tabela. Apesar de se declarar inocente, Valcke foi afastado de seu cargo e uma investigação foi aberta.

Joseph Blatter, presidente da Fifa, foi quem tomou a decisão de afastá-lo e confessou a pessoas próximas a ele que não acredita que o francês violou acordos e regras da entidade em que era secretário-geral. Mas, diante do clima de suspeita e de pressão, optou por afastar seu braço-direito. Quem assume em seu lugar é Markus Kattner, um dos diretores da entidade.

Valcke, porém, vinha dando sinais claros de que pretendia deixar a organização do futebol mundial. Há uma semana, ele fez uma proposta para que a Fifa pagasse uma compensação milionária para que ele deixasse o cargo antes do final do mandato, em fevereiro, quando acontecerão a eleição para a presidência. Oficialmente, porém, Valcke teria mais três anos de contrato e queria que fosse rembolsado por esse período. Fontes indicam que a negociação não avançou. Em 2007, outro secretário-geral, Urs Linsi, recebeu mais de US$ 4 milhões (o equivalente a R$ 14,8 milhões atuais) para deixar o cargo e abrir espaço para Valcke.

Em sua defesa, o advogado de Valcke, Barry Berke, garantiu que seu cliente não tem qualquer tipo de envolvimento com as denúncias apresentadas pelo empresário Benny Alon, e divulgadas pelo Estado nesta quinta-feira, que, desde 1990, opera na venda de ingressos das Copas do Mundo. Valcke aponta que foi a Fifa que colocou um fim aos contratos com Alon no mesmo período em que soube que ele estava vendendo entradas acima do preço de tabela. A Fifa não explicou, porém, o motivo pelo qual os contratos foram mantidos por meses com e-mails que revelam que Valcke sabia do ágio.

Para Berke, as denúncias de Alon são "fabricadas e absurdas". "Valcke nunca recebeu nem concordou em receber qualquer dinheiro ou qualquer outro valor de Alon", disse. "Como foi noticiado, a Fifa fechou um acordo com a empresa de Alon, a  JB Sports Marketing", explicou. "Esse acordo e os negócios da Fifa com Alon foram aprovadas pela Fifa e seu conselho legal."

COMANDO

Enquanto o francês é afastado, a Fifa vive uma crise de falta de comando. Nesta sexta-feira, a entidade comemorou em Moscou os 1000 dias para a Copa de 2018. Mas o evento apenas contou com um diretor de escalão médio da entidade. Nem Blatter nem Valcke, já sob investigação, apareceram na cerimônia. A Fifa insistiu que Blatter não tinha a intenção de estar presente no evento, em plena Praça Vermelha. Já Valcke, que viajava em um avião privado, deu meia volta na quinta-feira e retornou para a Suíça.

Em um e-mail enviado a todos os funcionários da Fifa, porém, Blatter tentou tranquilizar aqueles que continuam a operar o dia-dia da Casa do Futebol. "A Fifa está confiante em sua habilidade para recuperar-se da difícil situação atual e restaurar sua reputação pelo bem do jogo", escreveu.

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