Fabrice Coffrini/AFP
Fabrice Coffrini/AFP

Em decisão inédita, Fifa afasta presidente Blatter, Platini e Valcke

Pena aos cartolas é de 90 dias. Coreano pega seis anos de gancho

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S. Paulo

08 de outubro de 2015 | 07h38

Numa decisão sem precedentes, a Fifa suspende seu presidente, Joseph Blatter, o secretário-geral, Jérôme Valcke, além dos candidatos ao comando da organização, Michel Platini e Chung Moon-jong. No caso de Blatter e Platini, o afastamento ocorre por 90 dias e poderá ainda ser renovado por outros 45 dias. Já Chung ficará seis anos fora do futebol. Na prática, a Fifa hoje não tem nem comando nem os principais candidatos, que prometiam reformas e transparência.

No caso da suspensão de Platini, ela inviabiliza sua eleição, já que os pretendentes ao posto deveriam formular suas candidaturas até o dia 26 de outubro. Com a decisão, o sonho de Platini de ser presidente do órgão máximo do futebol acabou. Ele ainda fica afastado de suas funções como presidente da Uefa, depois de ter recebido US$ 2 milhões de Blatter em 2011, sem conseguir apresentar provas sobre o motivo do pagamento. A suspeita é de que o dinheiro teria sido um prêmio por não concorrer contra o suíço nas eleições daquele ano.

Mas a suspensão do reinado de 17 anos de Blatter deixa ainda a entidade em uma crise mais profunda. A Fifa já viu seu secretário-geral, Jérôme Valcke, afastado, está diante de uma debandada de patrocinadores e ainda tem diversos de seus dirigentes presos na Suíça e nos EUA. O afastamento de Blatter é o ato final de um terremoto que começou em maio, quando o FBI pediu a prisão de cartolas, entre eles José Maria Marin, ex-presidente da CBF.

Blatter é suspeito de crimes financeiros pelo Ministério Público da Suíça e pode pegar até dez anos de prisão. Recai sobre ele a suspeita de "apropriação indevida de recursos" e "gestão desleal" por causa de ter repassado a um ex-aliado, Jack Warner, contrato de TV para as Copas do Mundo de 2010 e 2015 por US$ 600 mil. O mesmo contrato seria revendido por Warner por US$ 20 milhões.

O Comitê de Ética avaliou que, se nesses três meses Blatter for inocentado pela Justiça, a suspensão é encerrada. Enquanto isso, a entidade seria comandada por Issa Hayatou, presidente da Confederação Africana de Futebol desde os anos 80 e um aliado incondicional de Blatter. O suíço poderia ainda voltar em janeiro e, assim, presidir as eleições em fevereiro, uma manobra que poderia significar o fortalecimento de seus aliados para que assumam a entidade a partir de 2016. A entidade confirmou o nome de Issa Hayatou, de Camarões, no comando. Ele assume a Fifa de forma interina. Issa era o vice-presidente da organização e membro do Comitê Executivo a mais de 30 anos. Polêmico, ele tem ordenado hotéis e locais que recebem os cartolas a impedir a entrada de jornalistas. 

A decisão, porém, foi cercada de polêmica. O processo era para ter sido mantido em sigilo. Mas uma pessoa próxima ao presidente, Klaus Stoehlker, acabou vazando para a imprensa. Enquanto nem a Fifa nem os advogados de Blatter comentavam as notícias já publicadas, uma segunda fonte negou que o suíço já tivesse sido suspenso e garantiu que ele continuava no poder. Nesta quinta, ela foi confirmada.

26 DE FEVEREIRO

Em entrevista a jornais alemães quarta-feira, Blatter garantiu que não deixaria o cargo antes das eleições de 26 de fevereiro de 2016. "Me condenam de antemão, sem que existam provas contra mim de algum tipo de ação incorreta", disse Blatter. "Estou sendo condenado sem haver qualquer evidência de que tenha feito algo errado. Isso é ultrajante". Blatter já não conta com o apoio dos patrocinadores e tem sido pressionado a abandonar imediatamente o cargo. "Eu sairei em 26 de fevereiro. Depois terá terminado. Mas não acontecerá nem um dia antes.Vou lutar até 26 de fevereiro. Por mim, pela Fifa. Estou convencido de que no mal aparecerá a luz e que o bem vai prevalecer."

Chung, com seis anos de afastamento e multa de US$ 100 mil, é acusado de tentar comprar votos para que a Coreia fosse sede da Copa de 2022. Ele havia acusado Blatter nesta semana de ser "hipócrita, mentiroso" e de usar o Comitê de Ética para punir os adversários.

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