Fifa aumentou pena porque Suárez não mostrou 'arrependimento'

Entidade não considerou nenhuma das provas apresentadas pelo Uruguai

Jamil Chade - Enviado especial ao Rio de Janeiro, O Estado de S. Paulo

28 de junho de 2014 | 05h00

Documentos confidenciais da Fifa obtidos pelo Estado revelam que a entidade decidiu aplicar uma punição inédita sobre o uruguaio Luis Suárez por ele não ter mostrado arrependimento pela mordida. Outro fator que pesou foi a constatação de que as duas punições já adotadas contra o jogador no passaram não surtiram efeito. A intenção, segundo os informes secretos, era de que a nova sanção fosse "dissuasiva". A Fifa, porém, rejeitou todas as provas apresentadas pelo Uruguai, de fotos a laudos médicos.

Por morder um zagueiro italiano, Suárez foi banido por nove jogos e suspenso do futebol por quatro meses, além de ter de pagar uma multa de R$ 247 mil. A decisão chegou uma enxurrada de críticas contra a Fifa.

O próprio jogador vítima da mordida, Giorgio Chiellini, criticou a decisão "Sempre considerei evidente a ação disciplinar por parte dos organismos competentes. Mas, no mesmo momento, sinto que a punição é excessiva. Espero sinceramente que permitam a ele ficar ao menos perto de sua equipe durante as partidas – porque, para um jogador, tal proibição é muito alienante", afirmou Chiellini em sua página oficial no Facebook.

Maradona também atacou. "Sanção injusta, uma coisa da máfia. Incrível!", disse. "Quem pensam vocês pensam que são? Porquê? Quem ele matou? Porque não o mandam para Guantánamo?" questionou ao canal venezuelano Telesur.

De acordo com o advogado Pedro Fida, especialista em direito esportivo e sócio de Bichara e Motta Advogados, a decisão da FIFA destoa de dezenas de casos julgados pela entidade e, inclusive pela própria UEFA e o Tribunal Arbitral do Esporte. Em casos graves como a cabeçada do Zidane na Copa de 2006, ou do próprio Diego Costa na Euro Copa 2012, aplicaram-se sanções muito mais brandas e se limitaram exclusivamente à suspensão de jogos (no máximo 4) e eventualmente a multas de baixo valor.

Mas o secretário-geral da Fifa, Jerome Valcke, saiu em defesa da punição e chegou a sugerir que Suarez passe por um tratamento. “Acho que ele deveria procurar tratamento. Se a mordida acontecesse uma vez poderia ser um incidente, mas já aconteceu outras vezes”, lembrou Valcke. “Ele é reicidente. A comissão disciplinar levou em conta todo seu histórico e a aplaudo”, destacou.

SIGILO

No documento sigiloso que baseou a decisão e que o Estado obteve na Europa, o Comitê de Disciplina da Fifa da seus motivos para a punição mais severa já aplicada contra um jogador em Copa por agressão. "Em nenhum momento o jogador mostrou arrependimento ou remorso de nenhum tipo ou admitiu uma violação a qualquer regra da Fifa e, portanto não mostrou consciência de haver cometido infração alguma", disse o órgão.

Entre os fatores que foram considerados como agravantes para a punição, a Fifa considerou que o lance ocorrer quando a bola estava longe e num ato "deliberado, intencional e sem provocação". "O contato ocorreu enquanto jogadores não estavam lutando pela bola. O jogador mordeu o jogado contrário com a intenção de lesiona-lo", indicou a Fifa.

Portanto, a atitude foi "intencional", uma "falta grave" e uma "violação da moral esportiva". "Morder é um incidente de particular gravidade, escandaloso e completamente extraordinário no futebol", indicou a decisão. Para a Fifa, os jogadores num Mundial precisam ter um comportamento "exemplar" e a punição tinha como meta evitar que haja um "risco de imitação".

Entretanto, de acordo com Fida “uma colocação como esta parece mais um juízo de valor, talvez aumentado pela pressão midiática, do que propriamente um argumento jurídico capaz de motivar uma sanção tão dura como a que foi imposta a Suárez". Segundo Fida, a pena é "altamente questionável”.

Outro agravante foi o fato de que Suárez já havia sido sancionado em duas outras ocasiões por morder adversários. Diante desse histórico, a ideia de seis partidas de sanção foi elevada. "A sanção mínima não era suficiente para conseguir o efeito dissuasivo necessário", indicou. "As suspensões anteriores não surgiram efeito". Já os 100 mil francos suíços de multas foram cobrados pelo dano que Suárez causou "à imagem do futebol".

Na decisão final, mantida em sigilo pela Fifa, os quatro árbitros que estavam em campo afirmam não ter visto o lance. "Não vi o incidente ocorrido, já que a bola estava em outro setor do terreno", disse Marco Rodriguez ao ser questionado pela Fifa. Mas o documento revela que a Fifa usou "o material audiovisual oficial inalterado extraído dos registros da Fifa". 

DEFESA

Os documentos ainda trazem trechos da carta que Suárez enviou para a Fifa. "No momento do impacto, que me fez juntar os joelhos, perdi o equilíbrio, desestabilizando meu físico e caindo por cima do oponente", disse. "Neste momento bati minha cara contra o jogador, deixando um pequeno hematoma e uma forte dor nas peças dentais, que determinou que o juiz parasse o jogo", escreveu Suárez.

"Isso é o que aconteceu e em nenhum caso aconteceu o que se descreve como "morder" ou tentar morder", completou.

Os uruguaios ainda apresentaram fotos e um certificado médicos, além de um informe forense que avaliava o material fotográfico e até mesmo as imagens da marca no jogador italiano. "Suarez não mordeu", disse a Federação em sua defesa, insistindo que o ato não foi "deliberado". Para a entidade, o que ocorreu foi "resultado de um movimento normal, provável e esperado".

A Fifa, porém, descartou o material fotográfico enviado pelos uruguaio por ser apenas fotos retiradas de sites de Internet. O informe médico também foi recusado. 

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