Rebecca Blackwell|AP
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Fifa desenha maior transformação na Copa e em torneios em 80 anos

Com 48 seleções, entidade quer Copa do Mundo em “múltiplos países” e dará à Conmebol cinco vagas e meia

Jamil Chade, Enviado Especial, O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2016 | 07h01

ZURIQUE - A Fifa começa a desenhar a maior revolução na história de mais de 80 anos dos torneios internacionais, com uma nova Copa do Mundo expandida em mais de um país, um Mundial de Clubes com 16 participantes e uma nova agenda internacional que poderá levar até mesmo ao final de certas competições. 

A partir de amanhã, a entidade se reúne em seu novo formato, numa esperança de mostrar ao mundo que o organismo mudou depois da crise e da prisão de seus cartolas. Mas, na agenda, o principal debate será sobre o futuro da “joia da coroa” da entidade e responsável por 95% da renda do futebol: a Copa do Mundo. 

A ideia do grupo de cartolas é de que, entre 2017 e 2019, a Fifa escolha a sede para a Copa de 2026 que, seguindo o princípio da rotatividade entre continentes, deveria ocorrer na América do Norte. Assim como ocorreu com o Brasil em 2014, o país que receber o evento teria sete anos para se preparar.

Os cartolas reunidos em Zurique, porém, se preparam para a maior reforma do evento desde sua criação, em 1930, num processo que deve estar concluído no início do ano que vem e que vai incluir uma revisão de todos os torneios internacionais. A ideia é a de garantir que o Mundial seja ainda maior, com um impacto ainda mais importante em termos financeiros para o futebol e com um maior número de países participando. 

A principal proposta sobre a mesa é a de ampliar a Copa de 32 para 48 times. Na prática, 25% das seleções do mundo estariam no evento. Isso seria possível graças a uma fase preliminar. Num mata-mata, apenas 16 passariam da primeira etapa e se juntariam a outros 16, para um torneio regular. 

O Estado apurou com exclusividade que a Conmebol recebeu a promessa de ter cinco vagas e meia. Cinco seleções se classificariam diretamente ao Mundial, enquanto uma sexta disputaria uma repescagem. Na prática, a oferta deixa apenas quatro seleções da América do Sul de fora da festa.

Questionado pelo Estado, o presidente da Conmebol, Alejandro Dominguez, se recusou a comentar a proposta. “Temos nossa posição, mas ela não é pública”, disse.

Se aprovada, a ampliação seria a maior jamais realizada no evento. Entre 1930 e 1978, 16 times se classificavam ao torneio. Em 1982 veio a primeira reforma, com 24 times e liderada pelo brasileiro João Havelange, em busca de votos. Em 1998, uma segunda ampliação também seria liderada pelo dirigente e o Mundial passaria a ter 32 seleções. 

Agora, porém, a inclusão seria de mais 16 times, o equivalente a um Mundial inteiro dos anos 70.

Dividir - Mas a nova expansão terá de ser equilibrado com uma constatação que já ficou evidente em 2010 na África do Sul e em 2014 no Brasil: sociedades não estão mais dispostas a bancar com recursos públicos um evento que traz resultados questionáveis. 

Uma das propostas de Gianni Infantino, presidente da entidade, é de que o evento passe a ocorrer em “múltiplos países”. Custos seriam repartidos, assim como o apoio ao torneio. A Concacaf, nos bastidores, já indicou que estaria disposta a aceitar o novo modelo. Partidas, assim, poderiam ocorrer no México, Estados Unidos e Canadá. 

Na condição de anonimato, um dos principais membros do Conselho da Fifa confirmou que está na agenda o debate de uma mudança nas regras para permitir que o Mundial ocorra em mais de um país.

Se a experiência de ter a Copa por todo o território brasileiro provou que o modelo pode funcionar, Infantino já confessou a pessoas próximas a ele que não repetiria o erro cometido no Brasil de fazer as seleções percorrerem o país. Grupos estariam localizados em determinadas regiões, sem a necessidade de grandes viagens. 

Emissoras - Um dos vice-presidentes da Fifa confirmou ao Estado que o plano de jogos e a distribuição de vagas já está “praticamente fechada”. Mas o desafio agora seria no campo das televisões e convencer algumas federações europeias que ainda resistem.

Para garantir 48 times em um mês, o torneio teria de ver cinco jogos sendo disputados por dia, um “desafio técnico e financeiro” para emissoras.

Não faltam ainda críticos ao projeto, principalmente diante do risco de que uma grande equipe, como Itália ou Inglaterra, acabe sendo eliminada já na primeira rodada. Suas televisões, que pagaram milhões para transmitir o evento, querem garantias de que não serão afetadas ao só transmitir uma partida para um grande público. 

Fim - A reforma também prevê uma mudança radical na Copa das Confederações, um torneio que tem gerado déficit para a Fifa. Para 2017, ela está confirmada na Rússia. Mas, em 2021, já não existem garantias de que ela ocorrerá. A Fifa já determinou que o Catar não sediará o evento. Uma das possibilidades é de que seja substituída por um verdadeiro torneio internacional de clubes.

Nos corredores da Fifa, uma das propostas mais consolidadas é de que, depois de mais dois anos no Japão, o Mundial de Clubes se mude para a China, onde a empresa Alibabá já garantiu que irá bancá-lo. Dirigentes falam abertamente num aumento do torneio para 16 clubes de todo o mundo, com um impacto comercial bem maior que a Copa das Confederações. 

Não foi por acaso que a reforma da Libertadores da América foi feito sob estreita colaboração com Infantino, que chegou a dedicar um dia inteiro de sua intensa agenda para ajudar no desenho do novo formato.

Para fazer espaço ao novo Mundial, não se descarta ainda na Fifa o fim da participação de profissionais ou jogadores acima de 23 anos no torneio Olímpico. No mês passado, Infantino deixou claro que “ninguém ficou feliz” com os resultados do evento no Rio de Janeiro e que um debate deveria ser aberto para mudar o torneio.

Finanças - Um dos pilares da nova agenda internacional é o aspecto financeiro. Estudos realizados nos últimos anos por empresas de consultoria tem alertado a Fifa que concentrar toda sua renda em um só evento - a Copa - que ocorre em um só país a cada quatro anos pode ser um risco exacerbado.

Hoje, 95% da renda de mais de US$ 5 bilhões da Fifa vem da Copa do Mundo. O dinheiro é usado para financiar praticamente todos os demais eventos, que são deficitários. Mas o ano de 2015 mostrou a fragilidade do sistema. Com a prisão de dirigentes e a crise de credibilidade, a entidade terminou o ano com um déficit de mais de US$ 100 milhões. Isso tudo apenas um ano depois de realizar a Copa mais lucrativa da história, no Brasil.  

Para os especialistas, a Fifa precisará diversificar sua renda e reduzir seus riscos com outros eventos.

Eleitor - Mas parte da ofensiva de Infantino em modificar a agenda mundial do futebol é sua dívida com seus eleitores. Para ganhar a presidência da Fifa, ele prometeu dinheiro às federações e mais vagas na Copa, assim como Havelange havia feito. 

Na Uefa, foi ele o responsável por propor e implementar a ideia de uma Eurocopa espalhada pelo continente europeu. Em 2020, no lugar de uma sede única, o evento ocorrerá em diversas cidades da UE. 

De um lado, ele mandava uma mensagem de sua vontade em reduzir custos para cada uma das sedes. Mas, acima de tudo, conseguia o apoio de dezenas de cartolas que, sem esse modelo, dificilmente poderiam imaginar sediar uma Eurocopa. Assim, o projeto de 2020 levará o torneio para cidades como Bucareste, Dublin, Copenhague, Baku ou Bilbao que, em troca, ficarão eternamente gratos ao grupo de dirigentes no poder. 

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