Kai Försterling/EFE
Kai Försterling/EFE

Fifa documenta participação saudita em pirataria contra TV do Catar

Disputa revela desafio aos interesses comerciais de governos e ligas de futebol

Tariq Panja, The New York Times

18 de setembro de 2019 | 04h30

Investigação financiada pela Fifa, por duas de suas confederações e por um grupo de ligas de futebol europeias de ponta concluiu, “sem sombra de dúvida”, que um provedor de satélite financiado pela Arábia Saudita teve um papel vital em operações piratas pelas quais foram roubados e transmitidos centenas de jogos de futebol e outros esportes cujos direitos de transmissão haviam sido adquiridos pelo grupo de mídia beIN Sports, do Catar.

A investigação, conduzida pela MarkMonitor, empresa de proteção de marcas baseada em São Francisco e divulgada na segunda-feira, confirma as conclusões de outras investigações realizadas anteriormente pelo beIN, um dos maiores compradores mundiais de direitos de transmissão.

O beIN argumenta há dois anos que a operação de pirataria, que divulga conteúdo roubado para assinantes do Oriente Médio e outros lugares por uma rede pirata denominada beoutQ, utiliza sinais transmitidos pela Arabsat, uma empresa de comunicações baseada na Arábia Saudita, com apoio pelo menos tático de poderosas figuras do reino saudita. As organizações por trás do relatório divulgado segunda-feira chegaram à mesma conclusão.

“O relatório confirma, sem sombra de dúvida, que conteúdo pirata divulgado pela beoutQ foi transmitido usando infraestrutura de satélites de propriedade da Arabsat”, afirmaram, em declaração conjunta, as organizações, que incluem a Premier Lague britânica e a Liga Espanhola. A Arabsat negou publicamente que as transmissões piratas tenham sido feitas por meio de seus satélites. O diretor da empresa, Khalid Balkheyour, não fez comentários.

A disputa joga um pouco de luz sobre os limites das atuais regras contra a pirataria global na indústria de telecomunicações, especialmente quando governos se mostram incapazes (ou sem interesse) de impedir essa pirataria. Mas também revela um sério desafio aos interesses comerciais de governos e ligas envolvidos.

Esses participantes detêm alguns dos mais valiosos direitos de transmissões esportivas do mundo, incluindo jogos da Premier League, da Liga de Campeões da Uefa e da Copa do Mundo da Fifa. Os direitos de transmissão rendem anualmente centenas de milhões de dólares, mas os líderes do futebol têm sido impotentes em defender os interesses dos donos dos direitos ou em buscar soluções nos tribunais. Se os proprietários do beIN saírem desse mercado de direitos, pode haver repercussões financeiras significativas para a Fifa, suas confederações, ligas e times.

Os centros futebolísticos contataram nos últimos 15 meses pelo menos nove escritórios de advocacia da Arábia Saudita para atuar em seu nome, mas estes recuaram após terem inicialmente aceito o trabalho. A Arábia Saudita é uma das nações do Oriente Médio que conduzem há anos um boicote político e econômico contra o Catar. Assim, a briga com o grupo beIN é uma das frentes de uma luta mais ampla. A divulgação segunda-feira do relatório de 158  páginas é a mais recente investida de uma até agora mal-sucedida guerra para tirar do ar os piratas da beoutQ.

Em declaração divulgada durante a Copa da Rússia de 2018, a Arábia Saudita disse que recebia bem o anúncio da Fifa de que estava planejando tomar ações legais no reino porque isso suplementaria os “esforços incansáveis” sauditas para combater a beoutQ e o que descreveu como ‘transmissões ilegais do beIN no país”. A Fifa, no entanto, também não encontrou um advogado saudita para assumir o caso.

A Arabsat, baseada em Riad, é propriedade conjunta de um consórcio de países árabes, mas a Arábia Saudita é de longe o maior investidor. A beoutQ diz que é sediada em Cuba e na Colômbia, embora todas as evidências indiquem que ela seja uma operação conduzida pela Arábia Saudita com o apoio de poderosas figuras do país, incluindo Saud al-Qahatani, alto assessor do príncipe saudita e líder do país, Mohammed bin Salman. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.