Carl Recine/Reuters
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Fifa lucra R$ 2,6 milhões com multas aplicadas durante a Copa da Rússia

Apesar das punições, entidades alertam que ainda existem problemas na legislação no que se refere ao combate à homofobia

Jamil Chade, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

11 Julho 2018 | 12h10

A Fifa aplicou multas de quase R$ 2,6 milhões (687 mil francos suíços) sobre as federações nacionais por comportamento de seus jogadores, treinadores e torcedores. Mas entidades alertam que ainda existem problemas na legislação no que se refere ao combate à homofobia.

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Federico Addiechi, diretor de Sustentabilidade e Diversidade da Fifa, afirmou que o Mundial de 2018 representou o maior programa anti discriminação em uma Copa. Além do monitoramento de todos os jogos por três especialistas, a Fifa contou com a ajuda de um grupo de 50 observadores distribuídos nos estádios para tentar identificar o comportamento de torcedores e jogadores. Os seguranças também foram treinados para lidar com casos de violações.

Para a entidade parceira da Fifa na Copa, a Fare, existia a preocupação de que comportamentos agressivos por parte de torcedores russos se transferissem para a Copa. Mas houve uma ação policial antes do evento e alertas a grupos específicos. Ainda assim, os dados revelam que a maior multa foi aplicada contra a Argentina, pela briga de seus torcedores contra a Croácia: 105 mil francos suíços foram cobrados da AFA (Associação de Futebol Argentino).

Mas, salvo este caso, todas as multas aplicadas sobre ofensas racistas ou de homofobia foram inferiores às violações comerciais. A Suécia, por exemplo, foi multada em 70 mil francos suíços depois que foi descoberto que seus jogadores entraram em campo com meias não aprovadas. Os croatas também pagaram o mesmo valor depois que um jogador entrou em campo com uma bebida que tampouco era de um dos patrocinadores.

 

Já as multas por outros motivos políticos foram inferiores. Os sérvios foram punidos em apenas 10 mil francos por conta de símbolos fascistas, o mesmo aplicado contra a Rússia por exibir cartaz neonazista.

A Dinamarca foi multada em US$ 20 mil por conta de cartazes com conteúdos sexistas exibidos em uma partida. O México também recebeu multa similar por cantos homofóbicos. O valor ainda se contrasta com os US$ 10 mil cobrados da Federação Russa por conta de um cartaz mostrado no jogo entre Rússia e Uruguai, com um óbvio caráter racista.

Os sérvios também foram punidos por mensagens de cunho fascista. Mas a multa não chegou a US$ 20 mil. Um valor ainda melhor foi cobrado dos mexicanos por conta das brigas da torcida no jogo contra a Suécia.

 

A mesma Sérvia também foi punida por cartazes com "conteúdo discriminatório" no jogo contra a Suíça. Mas a punição ficou abaixo da multa por violações comerciais, chegando a apenas US$ 54 mil. Seu presidente e seu treinador também foram multados por atitudes não esportivas, tendo que pagar US$ 5 mil cada.

Mesmo os jogadores suíços - Granit Xhaka, Xherdan Shaqiri e Stephan Lichtsteiner - que causaram polêmica ao fazer um gesto simulado a bandeira do Kosovo no jogo contra a Sérvia, resolveram o "problema" com um cheque de US$ 10 mil.

Já o croata Domagoj Vida foi alvo apenas de um alerta depois que ele comemorou a vitória contra a Rússia com gritos de "Ucrânia", numa provocação política. Questionado, Addiechi defendeu a posição da Fifa, alertando que as multas não são estabelecidas apenas por conta da violação. Conta também se a federação nacional ajudou a identificar quem cometeu os atos. Mas ele garante que "não há espaço para uma declaração política" por parte dos jogadores.

Piara Powar, diretor da Fare, acredita que precisa haver uma maior coordenação entre as punições da Fifa e das entidades regionais. Segundo ele, a Croácia tem sido sancionada de forma repetida pela Uefa nos últimos dez anos. Mas tais punições não contam na avaliação da Fifa ao aplicar uma multa.

HOMOFOBIA

Outro obstáculo, segundo ele, é a questão da homofobia. Powar, em uma coletiva de imprensa com a presença da Fifa, criticou o fato de que o código de disciplina da entidade mundial não traz em suas regras uma referência explícita à discriminação contra gays. "A homofobia não tem o mesmo status que outras discriminações", criticou.

Ele lembra como a seleção mexicana tem sido punida na Concacaf e na Fifa de forma diferente e alerta que torcedores se aproveitam dessas brechas. Addiechi, na mesma coletiva de imprensa, se defendeu das críticas do parceiro e insistiu que a torcida mexicana abandonou os cantos homofóbicos depois da multa no primeiro jogo. Ele admite que existe um gap no artigo 58 da entidade, que não conta com a palavra homofobia. Mas, segundo ele, os estatutos da Fifa deixam claro que todos os casos de discriminação são inaceitáveis.

Mas mesmo os esforços da comunidade do futebol para realizar eventos sobre a homofobia, em Moscou, tem sido alvo de boicotes. Nos últimos dias, participantes de um evento sobre a homofobia que deve ocorrer nesta semana tem sofrido para fazer reservas em hotéis na Rússia. A Fifa indicou que conhece o problema e que iria seu poder para tentar corrigir os incidentes. Mas a entidade admite que "as coisas não mudam de forma suficiente no mundo".

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