Fábio Motta/Estadão - 7/3/2013
Fábio Motta/Estadão - 7/3/2013

Fifa mira Marin para atingir Teixeira e mudar o poder no futebol brasileiro

Entidade trabalha para tirar o presidente da CBF da organização da Copa do Mundo de 2014

Jamil Chade - Correspondente - Colaborou Almir Leite , O Estado de S. Paulo

12 de abril de 2013 | 08h05

GENEBRA - A pressão para a saída de José Maria Marin da CBF e do Comitê Organizador da Copa do Mundo tem um objetivo maior: garantir uma ruptura no esquema deixado por Ricardo Teixeira no futebol brasileiro e nos canais financeiros da organização do Mundial. A Fifa gostaria de ver uma definição para o caso até meados de maio, quando parte para as Ilhas Maurício para seu congresso anual. Mas, uma apuração realizada pelo Estado com fontes em Zurique e Rio de Janeiro, aponta que os verdadeiros interesses da entidade, do governo e grupos de oposição entre a cartolagem brasileira estão focados em fazer ruir a estrutura financeira e de poder montada por Teixeira antes de se mudar para Miami.

Oficialmente, a assessoria de imprensa da Fifa insiste que não tem nenhum tipo de problema com Marin, indicando que jamais pediu sua saída, seja do COL ou da CBF. Nos bastidores, não são poucos os que admitem que as polêmicas envolvendo o presidente da CBF, tanto no passado quanto agora com a divulgação de vídeos, poderão afetar a imagem da Copa de 2014.

Mas, se esse fosse o único problema, a Fifa, oposição e governo poderiam estar satisfeitos em ver uma substituição de Marin por seu vice, Marco Polo Del Nero. E, portanto, esse não é o caso. Ninguém entre os atores de oposição, governo e Fifa querem que, numa eventual saída de Marin, Del Nero seja seu substituto. Uma corrida nas últimas semanas tem sido a de encontrar um nome de consenso, seja Ronaldo ou mesmo Leonardo, atual dirigente do PSG.

Quando Teixeira deixou a CBF, há pouco mais de um ano, estabeleceu um mecanismo em que pessoas escolhidas a dedo por ele estariam em cargos críticos, inclusive na presidência e vice da entidade. Um dos assessores mais próximos de Teixeira durante anos e que viajava regularmente com ele para Zurique foi mantido como o assistente de Marin, usando o mesmo telefone.

Patrocinadores e empresários interessados em estabelecer contatos com a CBF e o COL para a Copa do Mundo também logo entenderam que as decisões não estavam sendo tomadas no Rio de Janeiro.

Teixeira, que abandonou a CBF alegando problemas de saúde, havia sido alvo de um processo em que ficou claro que ele recebeu propinas por anos na Fifa, além de casos revelados na CBF pela imprensa. Se não bastasse, ao deixar a entidade e se mudar para a Flórida, o cartola acertou um contrato da CBF com ele mesmo para que prestasse "consultorias", em troca de um alto salário.

Não por acaso, se a presidente Dilma Rousseff nunca recebeu Teixeira, a posição do Palácio do Planalto não mudou com Marin, que também jamais foi recebido. 

VAZAMENTO

Para desmontar o esquema, fontes em Zurique garantem que a meta foi a de buscar o elo mais fraco no esquema que, justamente, era Marin. Fontes revelaram com exclusividade ao Estado que os vídeos com suas declarações polêmicas estão sendo vazados por um ex-funcionário da CBF, próximo de cartolas de oposição e que, no momento da transição de poder na CBF, ficaram sem cargos.

Em Zurique, a situação é vista como uma jogada e resolveria dois problemas ao mesmo tempo: afastaria alguém com uma imagem deteriorada e um passado que não agrada por seu envolvimento com o regime militar e, principalmente, mina o último elo de poder de Teixeira no futebol brasileiro.

Segundo pessoas próximas à organização da Copa de 2014, em Zurique, a queda de Marin e, portanto, a ruptura com o esquema deixado por Teixeira, traria vantagens para vários atores. Na Fifa, significaria o verdadeiro fim de Teixeira, inimigo número 1 de Joseph Blatter, assim como um corte dos eventuais ganhos que poderia ter com a Copa.

Para o governo, cansado da imagem que representa a geração de Teixeira, seria a chance de remodelar o futebol e sua estrutura de poder. Para a oposição, a chance de chegar ao poder.

Se esse é o jogo de poder, outras fontes admitem que o tempo está ficando cada vez mais apertado para promover a troca. Por isso, a esperança de muitos na Fifa é de que pelo menos uma troca ocorra dentro do COL, uma entidade que serve como parceira da Fifa, ainda antes da Copa das Confederações.

Esvaziado o poder de Marin - e portanto o de Teixeira no COL -, o passo seguinte seria uma mudança na estrutura de poder da CBF. Mas essa segunda etapa teria de ocorrer depois do torneio no meio do ano no Brasil. 

SILÊNCIO

O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, evitou nesta quinta-feira fazer comentários diretos sobre a situação de José Maria Marin e sobre uma possível influência do governo brasileiro na futura eleição da entidade. "Infelizmente eu não tenho voto na eleição da CBF. Gostaria de ter mais influência, mas não tenho", disse Aldo. "Portanto, qualquer coisa que fale sobre eleição seria absolutamente inconsequente."

Ele também disse que a presidente Dilma Rousseff não vai interferir. "Não é atribuição dela fazer isso nas eleições de uma entidade privada, por mais que ela seja importante para o futebol brasileiro."

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