Juan Mabromata/AFP
Juan Mabromata/AFP

Admitindo “zonas cinzentas”, Fifa coloca futebol em “Era tecnológica”

Copa de 2018 deve ser a primeira a contar com vídeo, mas Infantino admite que sistema terá de ser melhorado: “Vai levar tempo”

Jamil Chade, correspondente em Genebra (SUI), O Estado de S.Paulo

03 Março 2018 | 10h50

A Fifa e a International Board (Ifab) rompem um tabu de décadas e oficializam o uso da tecnologia no futebol, abrindo uma nova era no esporte e criando a possibilidade para a chegada de patrocinadores do setor de tecnologia. Mas os cartolas admitem que o vídeo terá de melhorar para permitir que não haja confusão na mensagem para os torcedores e mesmo no exame da jogada sob exame. Ligas terão de receber uma aprovação internacional para poder usar a tecnologia. 

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As entidades também passaram a permitir que treinadores sejam autorizados e estar conectados com assistentes fora de campo. Isso poderia ocorrer por meio de um ponto de áudio ou transmissão de internet. Mas apenas por “motivos táticos”. 

“A partir de hoje, o vídeo é parte do futebol e isso é muito importante. Debatemos isso por décadas e agora decidimos começar”, disse Gianni Infantino, presidente da Fifa. Segundo ele, uma decisão de implementar a tecnologia na Copa do Mundo de 2018 será tomada em dez dias. 

“Analisamos os testes com cerca de 20 países e, no final, os resultados foram positivos e conclusivos. O VAR é bom para o futebol e para a arbitragem. Traz mais justiça ao jogo”, insistiu. “Isso terá um impacto no futebol”, disse.

A decisão sobre o vídeo não vem sem polêmicas. A Uefa insiste que a implementação é prematura e que, por enquanto, não a usará na Liga dos Campeões. O ex-presidente da Fifa, Joseph Blatter, também criticou a decisão, alegando que ela tinha o potencial de “desvirtuar” o futebol. 

Para a “nova Fifa”, os estudos realizados sobre mais de mil jogos com o uso da tecnologia mostraram que o sistema funciona. A taxa de acerto de um juiz sobe de 93% para 98%. O número de cartões amarelos também cai. Na Itália, 134 punições a menos foram distribuídas em comparação ao ano anterior. “Os jogadores sabem agora que o Big Brother está olhando”, afirmou Infantino.

Ele ainda rejeita a tese de que a tecnologia atrapalha o ritmo de jogo. Em média, 55 segundos são perdidos em cada consulta de vídeo. Apenas para bater laterais, um jogo perde em média sete minutos. Com substituições, são mais de dois minutos. 

Os estudos também revelam que, com a tecnologia, um erro grave é cometido a cada 19 jogos no mundo. Sem ela, a taxa era de um erro grave a cada três partidas. 

De acordo com David Elleray, representante da Ifab, o novo protocolo permite não apenas que uma jogada seja revista. Mas que o árbitro seja alertado caso tenha cometido um erro grave. 

DIFICULDADES

Mas todos os envolvidos na decisão deste sábado admitem que o processo de adoção da tecnologia será lento. Haverá um processo de qualificação para que uma liga possa adotar a tecnologia e apenas aqueles dentro de um certo padrão poderá usar o mecanismo. 

“É um processo. Depende de treinamento e pode levar tempo. Precisa de controla de qualidade. Eu era contra a tecnologia e mudei de opinião depois de estudar os detalhes. Mas sei que precisamos acelerar a revisão de casos. Temos de melhorar comunicação, não apenas aos árbitros. Mas para os torcedores”, disse Infantino. 

Na avaliação do presidente da Fifa, existem ainda “zonas cinzentas” que terão de ser superada. Ele admite que será uma tecnologia “complicada” para ser adotada. “Vai levar tempo”, reconheceu Infantino. 

Uma das zonas cinzentas pode ser a questão ainda do impedimento. Pelo protocolo de uso do vídeo, é recomendado que um eventual impedimento em uma situação de gol apenas seja revisado depois de saber se a bola entrou ou não. 

Pierluigi Colina, chefe de arbitragem da Fifa, alerta que não serão as ligas quem decidirão adotar ou não a tecnologia. “O processo de preparação terá de passar por uma aprovação que será dada pela Fifa”, disse. “Queremos garantias de qualidade”, insistiu. “É mais complexo que muita gente imaginava”, disse Elleray. 

A questão do fluxo de informação pode ser um dos principais desafios. Jonathan Ford, presidente da Federação de Gales, indicou que esse é “só o começo”. “Precisamos de melhor comunicação e mais controle sobre a tecnologia”, disse.

Martin Glenn, presidente da Federação Inglesa, admitiu que ainda há trabalho a ser feito, inclusive para que a prática seja “suave”. “Temos de aprender. Quanto mais jogos fizemos, menos problemas teremos. Precisamos de mais experiência”, disse. 

Na Inglaterra, porém, Glenn indicou que seu torneio nacional deve optar por “aprender lentamente”. “A comunicação com torcedores precisa ser melhor. Os torcedores não estão sabendo o que está ocorrendo”, admitiu.

Para a Copa do Mundo, Infantino garante que o sistema estará em funcionamento e que, na esperança de não deixar torcedores confusos, um replay da cena será mostrado nos telões para justificar a decisão do árbitro. Sua avaliação é de que a situação não tira a emoção do futebol. “Ela cria emoção”, apontou. 

“Vamos ter uma Copa mais justa. Há zonas cinzentas. Mas o Mundial não pode ser decidido por um erro”, insistiu. Para ele, aqueles que usavam a arbitragem para justificar derrotas agora vão usar o VAR como desculpa. 

SUBSTITUIÇÃO

Também em uma medida que visa manter uma partida em nível elevado e não causar lesões desnecessárias, uma quarta substituição será autorizada para que seja realizada durante a prorrogação de uma partida. 

O esforço é o de corrigir erros da Copa de 2014. O Mundial foi marcado por um número importante de partidas que foram para a prorrogação. O que o departamento médico da entidade entendeu é que os jogos caíram em qualidade depois dos 90 minutos. 

Em outra decisão, a Ifab e a Fifa estipularam regras para que treinadores possam receber comunicações externas, principalmente de auxiliares por meio de celulares ou tablets. A percepção era de que, com o avanço tecnológico, seria cada vez mais difícil impedir essa ajuda externa. 

A opção dos dirigentes, portanto, foi a de criar uma regulação clara para estipular o que pode e o que não pode ser feito. 

AMERICANOS

Segundo fontes na Fifa, a introdução das diversas tecnologias no futebol apenas em 2018 mostra que o esporte está atrasado em comparação à NFL, NBA e diversas outras modalidades. Com a nova tecnologia, o plano da Fifa ainda é o de ter patrocinadores bancando cada uma das jogadas sob revisão. Isso tudo, claro, com suas marcas expostas nas emissoras de todo o mundo na Copa de 2018. A busca é por empresas do setor de tecnologia dos EUA, dispostas a entrar no mercado bilionário do futebol. 

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