Wilton Junior| Estadão
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Fifa pode suspender Del Nero, presidente da CBF, do futebol

Entidade recebe dossiê da CPI do Futebol do Senado, com suspeitas relativas a contratos de cartola no Brasil

Jamil Chade, correspondente em Zurique, O Estado de S. Paulo

03 de dezembro de 2015 | 07h42

Com base nas informações enviadas pela CPI do Futebol no Senado, a Fifa abre processo investigativo contra Marco Polo Del Nero, presidente da CBF, que está no Brasil. Se punido, Del Nero poderá ser suspenso do futebol e terá de deixar a CBF. Uma decisão deve ser tomada pela entidade em Zurique no início de 2016. O brasileiro não viaja ao exterior desde maio, quando José Maria Marin foi preso em Zurique. Na semana passada, o cartola obrigou a Conmebol a realizar sua reunião no Rio de Janeiro para que um substituto fosse escolhido para seu lugar no Comitê Executivo da Fifa. Não queria deixar o País. O escolhido foi Fernando Sarney.

O Estado apurou que a CPI do Futebol enviou dados sobre Del Nero para o Comitê de Ética da Fifa no dia 11 de novembro deste ano. No pacote, foram relacionadas suspeitas de como Del Nero teria influenciado votos para sua eleição graças a um contrato de patrocínio da Chevrolet com as federações estaduais. Os acordos vigoraram entre 2013 e 2014, período em que o atual presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, era vice-presidente da entidade e braço-direito de Marin, atualmente preso em prisão domiciliar nos EUA.

O primeiro contrato da Chevrolet ocorreu com a Federação Paulista de Futebol na época em que Del Nero era seu presidente. Quando o cartola passou a ocupar a vice-presidência da CBF, a montadora começou a patrocinar federações estaduais por todo o País. Entre 2013 e 2014, 22 federações tiveram contrato com a empresa de automóvel. Mas, neste ano, já com Del Nero na presidência da CBF – venceu as eleições em 2014 –, a Chevrolet passou a patrocinar apenas a entidade nacional, que rompeu anos de parceria com a Volkswagen.

Um dos contratos com uma federação estadual, obtido pelo Estado, revela o compromisso da montadora de pagar R$ 320 mil em patrocínios para 2013 e outros R$ 320 mil para 2014, num total de R$ 640 mil em dois anos. O que chamou a atenção dos investigadores da CPI foi o valor de R$ 40 mil que seria destinado para "ativações e ações promocionais". No contrato, a empresa confirma que o patrocínio é de R$ 600 mil. 

Mas, numa carta-acordo de intermediação de patrocínio, outros R$ 40 mil são adicionados. O documento aponta que o valor deve ser passado para a SG Marketing e Comunicação Ltda., representada por Sergio Luis de Sousa Gomes. O montante coincide com o valor final indicado no contrato principal de patrocínio, elevando o total para R$ 640 mil. Pela carta, a empresa de veículos explica que o pagamento de R$ 40 mil ocorre "por razões operacionais internas" e ordena que a federação estadual repasse o dinheiro da "seguinte forma": direito de intermediação comercial e ativação do patrocínio. Indica que a SG Marketing é a detentora exclusiva desses direitos.

Na avaliação da CPI, os valores citados abrem a suspeita de que a inédita cobertura de uma mesma marca em tantas federações pode ter beneficiado Del Nero na eleição para presidente da CBF. Ele obteve 44 dos 47 votos possíveis (votaram as 27 federações, mais os 20 clubes da Série A do Brasileiro). Seu mandato termina em 2019. Outro aspecto destacado pela CPI para a Fifa foram compras de imóveis a preços atípicos e que poderiam apontar para lavagem de dinheiro. Com essas informações, o caso contra Del Nero foi aberto no dia 23 de novembro com suspeitas de uma série de violações ao código de ética da Fifa.

FBI

A investigação da entidade, porém, não tem relação com as prisões realizadas nesta quinta-feira em Zurique, com dois latino-americanos entre os detidos, entre eles o presidente da Conmebol. Nos Estados Unidos, onde Marin está preso em prisão domiciliar, a apuração sobre Del Nero se debruça sobre pagamentos feitos por J. Hawilla, dono da Traffic, e parceira da CBF nos negócios do futebol, como a transmissão de competições internacionais. A Justiça aponta como o empresário brasileiro foi obrigado a compartilhar um contrato que tinha com a CBF para os direitos da Copa do Brasil com a Klefer a partir de 2011. Para o período entre 2015 e 2022, a Klefer pagaria à CBF R$ 128 milhões pelo torneio, minando a posição privilegiada que Hawilla tinha desde 1989.

Para evitar uma guerra comercial, Hawilla e a Klefer entraram em entendimento. Mas só neste momento é que a Klefer informou que havia prometido o pagamento de uma propina anual a um cartola da CBF, cujo nome não foi revelado ainda. Essa mesma propina teria de ser elevada a partir de 2012 quando dois outros membros da CBF entrariam em cena. Um deles é José Maria Marin, preso em Zurique e extradito aos Estados Unidos. O outro, segundo os americanos, seria Del Nero, quer era vice de Marin e assumiu seu posto em abril deste ano.

Dois documentos revelados no dia 27 de maio pelo Departamento de Justiça dos EUA confirmam a suspeita. Del Nero nega que ele seja a pessoa indiretamente apontada nos informes. Num deles, um empresário "informa Hawilla que o pagamento de proprinas aumentou quando outros dois executivos da CBF - especificiamente o co-Conspirator #15 e co-Conspirator #16 - pediram propinas tambem".

O documento explica que o co-conspirador 15 era membro do alto escalão da CBF e membro da Fifa e da Conmebol - a descrição apenas pode ser preenchida por José Maria Marin. Naquele momento, ele era o presidente da CBF, membro da Fifa e da Conmebol. Já o co-conspirador 16 seria membro do alto escalão da Fifa e da CBF. Nesse caso, apenas Del Nero mantinha um cargo na CBF (vice-presidente) e na Fifa (membro do Comitê Executivo). 

"Hawilla concordou em pagar metade do custo da propina, que totalizava R$ 2 milhões por ano, para ser dividido entre co-conspirator #13, co-conspirator #15, e co-conspirator #16", indicou o indiciamento do empresário. O mesmo caso é contado no documento que serve de base para o indiciamento de José Maria Marin e, neste caso, o nome do ex-presidente da CBF é apresentado. No indiciamento, a Justiça traz até mesmo um diálogo entre Marin e Hawilla, em que o cartola insiste que o dinheiro precisa ir para ele também. A reunião gravada ocorreu nos EUA em abril de 2014.

No documento que cita Marin, Del Nero não é apontado nominalmente na acusação. Mas a Justiça explica que um "co-conspirador 12" teria também recebido parte da propina. Esse co-conspirador 12 seria um "alto funcionário da Fifa e da CBF". Uma vez mais, apenas Del Nero se enquadraria nessa descrição.

CONTAS

Para chegar ao atual presidente da CBF, a Justiça americana tem examinado depósitos e pagamentos feitos pela Traffic nos EUA, assim como pela Klefer. Já na motivação para pedir a extradição de José Maria Marin, os americanos apontaram dois depósitos como exemplos de como o sistema financeiro americano estava sendo usado no esquema entre os cartolas da CBF.

Uma das contas, porém, chama a atenção do FBI. Trata-se de uma transferência da Klefer, avaliada em US$ 500 mil, no dia 5 de dezembro de 2013 a partir de uma conta no banco Itaú Unibanco, de Nova Iorque, para o HSBC em Londres, em nome de uma empresa fabricante de iates de luxo. O que a Justiça quer saber é quem teria sido o beneficiado pela compra do iate ou pelo pagamento.

Os bancos, porém, não estão sob suspeita. Em nota à reportagem, o Itaú Unibanco "esclarece que cumpre suas políticas de compliance e de prevenção à lavagem de dinheiro em todas as suas unidades". "Não compactuamos, facilitamos ou realizamos qualquer ação em descumprimento às leis e regulamentações", indicou. "Cumprimos todas as exigências das regulamentações locais, monitoramos todas as transações e estamos atentos às movimentações em todas as nossas unidades."

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