Fabrice Coffrini/AFP
Fabrice Coffrini/AFP

Questões de poder e processo após queixa de assédio na Fifa

Chefe do estrelado programa Fifa Legends assediou sexualmente uma subordinada em 2019. A vítima ainda não sabe se ele chegou a ser punido

Tariq Panja, The New York Times

31 de janeiro de 2022 | 15h00

Miguel Macedo passara meses mostrando seu valor ao líder máximo do futebol. Agora, na manhã do primeiro dia de Gianni Infantino no cargo de presidente da Fifa, Macedo voltaria a demonstrar suas conexões e sua utilidade.

Minutos depois de Infantino pisar na sede de vidro e aço da Fifa no primeiro dia de sua presidência, em fevereiro de 2016, ele foi recebido por uma coleção de ex-estrelas: campeões da Copa do Mundo, lendas de seleções, heróis da Champions League. Todos eles tinham sido convidados por Macedo para jogar ao lado do novo presidente em um pequeno torneio em um dos campos bem cuidados vizinhos à sede. De braçadeira, Infantino entrou em campo como capitão do time.

E assim nasceu a grande marca da presidência de Infantino. O Fifa Legends, como ficou conhecido o programa de ex-jogadores que se tornaram representantes da Fifa, nasceu naquele dia. Sua importância só cresceu nos anos seguintes, servindo de lastro para a imagem de Infantino, que vem tentando remodelar o futebol mundial, restaurar a influência da Fifa e reabastecer suas contas bancárias.

Durante anos, o trabalho de gerir este recurso vital de relações públicas coube a Macedo, executivo português que é aliado, confidente e parceiro de treino de Infantino. Macedo também foi peça-chave da equipe de campanha que ajudou Infantino em sua tentativa de se tornar presidente da Fifa, usando suas conexões para garantir o apoio de ex-jogadores.

Macedo manteve seu cargo e sua proximidade com o poder, disseram atuais e ex-dirigentes da Fifa, mesmo depois que um painel interno de recursos humanos e uma mediadora externa descobriram que ele assediou sexualmente uma funcionária júnior, entre outras reclamações sobre seu comportamento.

O caso de assédio, que nunca veio a público, é bem conhecido nos corredores da Fifa. No verão de 2019, os principais dirigentes do futebol, incluindo a figura número 2 da organização, foram informados pessoalmente que uma reclamação contra Macedo havia sido feita à chefe de recursos humanos da organização, que liderou uma investigação interna que acabou confirmando uma acusação de assédio sexual.

A essa altura, a mediadora externa havia concluído o mesmo. Em sua carta à Fifa, ela citou mensagens de texto que dizia serem “provas suficientes” de que Macedo cometera assédio sexual verbal. Desde então, o New York Times soube de outra queixa contra Macedo, um incidente no ano passado que ofendeu tanto as autoridades do Catar que estas pediram à Fifa que parasse de enviá-lo a seu país.

A Fifa se recusou a disponibilizar Macedo para uma entrevista sobre as acusações nesta semana e, em comunicado nesta quinta-feira, não respondeu a perguntas específicas sobre o caso.

“A Fifa leva muito a sério qualquer alegação de irregularidade no local de trabalho e possui mecanismos robustos de denúncia”, afirmou. “Essas medidas incluem a oportunidade de falar com um ombudsman externo. A Fifa não fará mais comentários sobre o assunto”.

A mulher que apresentou a queixa acabou deixando a Fifa. Ela ainda não sabe se seu ex-chefe chegou a ser punido.

Emprego dos sonhos

A mulher de 30 anos que apresentou a queixa, cuja identidade é conhecida pelo Times e pelos dirigentes da Fifa, disse em entrevista que estava animada para trabalhar na equipe de Macedo depois de garantir uma transferência do departamento jurídico da Fifa, no outono de 2018. O novo cargo abria a chance de mais viagens e, para uma fã dedicada do esporte, também a oportunidade de trabalhar com algumas de suas maiores estrelas.

O novo cargo também significaria trabalhar em estreita colaboração com Macedo, que controla o multimilionário orçamento anual do Fifa Legends e dirige a equipe do programa. Mas seu papel mais importante talvez seja que ele mantém contato com as dezenas de lendas vivas do futebol que viajam pelo mundo todo – às custas da Fifa– para aparições como figuras carismáticas e com experiência em mídia para os projetos de Infantino.

Mas, logo depois de assumir seu novo cargo, a mulher disse que foi submetida a comportamentos inadequados de Macedo, incluindo comentários lascivos, mensagens de texto invasivas e até sugestões sobre como ela deveria se vestir. Macedo a convidava para jantar ou beber com frequência. Certa vez, em uma viagem para a Copa do Mundo Feminina de 2019, ele mandou uma mensagem urgente depois da meia-noite, exigindo que ela fosse à sua suíte no hotel. Ela recusou.

Sem saber o que fazer – ela foi contratada pelo Fifa Legends sob um contrato de curto prazo, e Macedo era seu chefe direto – a mulher disse que desenvolvera estratégias para desviar a atenção indesejada. A certa altura, ela disse ao Times, até inventou um namorado imaginário.

Em outras ocasiões, ela simplesmente perambulava pelos corredores da Fifa para garantir que não teria de ficar sozinha com Macedo no escritório, ou colocava o celular no modo avião para que ele não pudesse entrar em contato com ela, algo que ela disse que ele fez após uma reunião no final de 2018 que fora organizada como uma avaliação de desempenho.

Foi no final dessa reunião, disse a mulher, enquanto ela e Macedo saíam de uma sala de conferências, que Macedo segurou suas nádegas com uma das mãos e depois se inclinou e sussurrou um comentário provocativo sobre seu corpo.

“Para mim”, disse a mulher, “este foi um dos piores dias”.

Não houve testemunhas do incidente, mas um ex-colega da mulher contatada pelo Times descreveu ter sido informado sobre o caso na época. A Fifa não respondeu a perguntas sobre o incidente.

O assédio verbal, no entanto, continuou por meses, disse a mulher, antes de chegar ao auge na Copa do Mundo Feminina de 2019, na França. A essa altura, disse ela, os comentários e mensagens de Macedo haviam se tornado cada vez mais insistentes. Em uma mensagem de texto, enviada depois da meia-noite, Macedo a chamou para seu quarto de hotel. Em outra, sugeriu que eles saíssem “secretamente” para beber e dançar em Paris.

Mas algumas das mensagens de Macedo, disse a mulher, também continham uma linguagem perturbadora. Em uma delas, lida pelo Times, Macedo disse que desejava “domar” sua subordinada. Em outra, ele disse: “você me deve obediência”.

O tempo todo Macedo mantinha a perspectiva de que poderia lhe dar oportunidades de promoção, ou mesmo um emprego permanente na Fifa.

Uma reclamação formal

Quando o torneio terminou, e depois de falar com a mãe, a mulher resolveu agir. No final de julho, menos de um mês depois de a seleção feminina dos Estados Unidos erguer a taça da Copa do Mundo em Lyon sob gritos de “Remuneração igual!”, ela abordou a chefe de futebol feminino da Fifa, Sarai Bareman, e a informou sobre a situação. A mulher perguntou se Bareman a acompanharia para fazer uma reclamação a Kimberly Morris, advogada canadense que atua como chefe de recursos humanos da Fifa.

O encontro foi uma decepção, disse a mulher. De acordo com seu relato, Morris parecia mais preocupada com o comportamento da funcionária e, a certa altura, sugeriu que ela pensasse em mudar de emprego. “Demorei tanto para me apresentar e explicar meu caso, mas agora parecia que estava sendo deixada de lado”, disse ela.

A Fifa não respondeu a um pedido para disponibilizar Morris para apresentar sua própria versão sobre o encontro.

A entidade também se recusou a responder a perguntas específicas sobre o atraso da organização em abrir uma investigação formal; sobre quaisquer ações tomadas em relação às queixas de assédio no local de trabalho; ou sobre quaisquer ações tomadas após um inquérito interno e uma mediadora externa darem sustentação a algumas dessas queixas.

Na época do encontro da mulher com Morris, a Fifa estava rebatendo acusações de abuso sexual de jogadoras por homens influentes, declarando que “tem uma política de tolerância zero em violações de direitos humanos e condena inequivocamente todas as formas de violência de gênero”.

Frustrada com a forma como suas alegações foram tratadas, a mulher começou a falar com outros altos funcionários da Fifa sobre suas preocupações. Semanas depois, Joyce Cook, então diretora de associações-membro da Fifa – que é descrita pelo próprio site da organização como uma “defensora apaixonada da igualdade e da inclusão no esporte” – sentiu-se suficientemente comovida com o que ouvira para acompanhar a mulher em um segundo encontro formal com Morris.

Dessa vez, as queixas foram anotadas e se iniciou um processo de investigação da denúncia. Colheram-se depoimentos, inclusive de um colega da mulher, que disse ter presenciado algumas das condutas impróprias de Macedo.

A essa altura, as notícias do caso já haviam se espalhado por toda a diretoria da Fifa, com alguns funcionários contrariados com o andamento do processo. Tomaz Vesel, ex-chefe de auditoria e compliance da Fifa, disse que levantou o assunto com Morris e Fatma Samoura, cujo papel como secretária-geral a torna equivalente à executiva-chefe da Fifa. O chefe de gabinete de Infantino, Mattias Grafstrom, também foi informado da reclamação, de acordo com um e-mail a que o Times teve acesso. Mas os meses foram passando e nenhuma ação era tomada.

“Posso criticar o nível de preparação e a velocidade do processo”, disse Vesel ao Times em entrevista. “Acho que, para alguém que é uma suposta vítima, precisamos reagir muito rápido. Não notei nenhum tipo de preparação para essa rapidez”.

Para piorar a situação, os planos de Morris de transferir a funcionária para outro escritório para que ela não tivesse de ficar cara a cara com Macedo nunca se concretizaram.

“Só quero informar que hoje Miguel Macedo voltou ao escritório, surpreendentemente, e para mim ficar aqui está insuportável”, escreveu a mulher em um e-mail para Morris. “Não sei como podemos continuar neste ambiente insalubre por mais tempo.”

Vários meses depois que ela se queixou pela primeira vez, a Fifa conseguiu que ela se encontrasse com Nirmala Dias, uma mediadora que a organização contratou em 2017 para lidar com conflitos internos.

Dias produziu um relatório de duas páginas cuidadosamente redigido. Ela ressaltou que, embora tenha ouvido apenas o lado do queixoso, havia evidências documentais para “provar suficientemente o assédio sexual verbal” e também para substanciar que a funcionária recebera “a perspectiva de uma carreira na Fifa”.

Dias se recusou a comentar sobre seu trabalho com a Fifa. “Como mediadores e advogados independentes, é claro que estamos vinculados a obrigações de confidencialidade”, escreveu ela por e-mail.

No entanto, o documento que ela preparou, enviado à Fifa seis dias após o término do contrato da mulher como membro da equipe do Legends, recomendava que a Fifa fornecesse à mulher uma posição alternativa. “Ela ouviu repetidas promessas de uma posição permanente, provavelmente por motivos pessoais”, escreveu Dias à Fifa.

Mas não houve nenhuma oferta.

As reclamações contra Macedo, no entanto, continuaram. Em fevereiro de 2021, descobriu o Times, uma jovem que trabalhava na Copa do Mundo de Clubes no Catar disse a seus chefes que Macedo passara as mãos pelo cabelo dela antes de comentar sobre sua aparência durante um evento com colegas.

Autoridades de futebol do Catar levaram a questão à Fifa, de acordo com pessoas familiarizadas com o incidente e os organizadores do torneio, pedindo que eles não enviassem mais Macedo ao país. A Fifa rejeitou esse pedido, segundo essas mesmas pessoas, mas disse que Macedo havia sido alertado sobre sua conduta.

Respostas incompletas

O incidente no Catar ocorreu mais de um ano depois que a Fifa recebeu o relatório da mediadora, em outubro de 2019, e muito depois do término do contrato da funcionária. Foi também um ano depois que a Fifa iniciou seu procedimento formal de reclamações sobre a conduta de Macedo em relação à mulher que trabalhava em seu escritório, formando um comitê de três membros que incluía Morris; Emilio García, diretor jurídico da FIFA; e um advogado externo.

O comitê conversou com a denunciante, Macedo e um funcionário de longa data da Fifa que os documentos listam como testemunha do caso. Dos três, apenas Macedo permanece na Fifa.

Meses depois, em 25 de fevereiro de 2020, a denunciante, agora ex-funcionária, foi informada por telefone de que sua denúncia havia sido acolhida. Ela disse que teve de exigir confirmação por escrito várias vezes até a Fifa fornecer uma declaração que, segundo ela, só provocou mais raiva: a queixa de assédio sexual foi confirmada apenas em relação a um único comentário feito por Macedo em uma reunião em dezembro de 2018.

A decisão do comitê não fez referência a nenhuma das mensagens de texto que ela havia fornecido e não incluiu um pedido de desculpas. Observava apenas que Macedo seria punido de acordo com as regras da Fifa. Mas – ao contrário da transparência que demonstrou em vários outros casos envolvendo irregularidades de dirigentes de futebol – a organização não estipulou qual seria a punição.

“Eu não soube qual era a sanção, o que para mim parece que não foi sanção nenhuma”, disse a mulher.

Furiosa com a falta de clareza, a ex-funcionária, que conseguiu outro emprego no futebol, disse que escreveu à Fifa pedindo detalhes sobre as penalidades impostas a Macedo. Até agora, ela não recebeu resposta.

Ela agora está no Catar, trabalhando com os organizadores da Copa do Mundo deste ano, onde muitas vezes entra em contato com muitos de seus ex-colegas da Fifa. Em um torneio patrocinado pela Fifa para nações árabes realizado no país em dezembro, ela disse que até viu Macedo. Ele estava lá com um grupo dos agora onipresentes Fifa Legends.

“Eu gostaria de não ver essas pessoas novamente, mas eu as vejo o tempo todo”, disse ela, “e eu fico pensando, uau, são todos amiguinhos dele.

“Sinto que não consegui nada, que lutei muito por nada. Eu sei que ele está rindo de tudo isso”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.