Daniel Teixeira/Estadão
Ex-meia, Thiago dos Santos deixou time da África do Sul sem receber R$ 130 mil Daniel Teixeira/Estadão

Ex-meia, Thiago dos Santos deixou time da África do Sul sem receber R$ 130 mil Daniel Teixeira/Estadão

Fifa promete distribuir R$ 75 milhões para jogadores vítimas de calote de clubes

Atletas que não conseguem receber pagamentos de equipes que faliram vão receber ajuda da entidade para minimizar o problema

Ciro Campos , O Estado de S. Paulo

Atualizado

Ex-meia, Thiago dos Santos deixou time da África do Sul sem receber R$ 130 mil Daniel Teixeira/Estadão

O ex-meia Thiago dos Santos está ansioso para ser um dos possíveis beneficiados pelo novo projeto da Fifa de ajudar jogadores que foram vítimas de calotes de clubes de futebol. O paulista de 34 anos e outros milhares de atletas pelo mundo são o foco de uma medida da entidade de criar um fundo que distribuirá até 2022 cerca de R$ 75 milhões (na cotação atual) para socorrer quem já esgotou as tentativas jurídicas de receber acertos pendentes com antigas equipes.

A Fifa anunciou a criação do fundo no último mês e vai iniciar a operação a partir de julho em parceria com o sindicato mundial dos atletas (FIFPro). O objetivo não é pagar integralmente os valores a que os jogadores têm direito, mas sim oferecer um auxílio para reduzir de alguma forma a pendência. "Esse acordo é um comprometimento em ajudar jogadores que estão em situação difícil", disse o presidente da Fifa, Gianni Infantino.

O fundo será composto por repasses graduais feitos a partir deste ano com recursos da própria Fifa. A primeira remessa de recursos será de R$ 15 milhões. O pacote de R$ 75 milhões vai cobrir os calotes existentes apenas a partir de julho de 2015. Os jogadores interessados vão precisar enviar toda a documentação por e-mail para comprovar os requisitos ao benefício e um comitê ficará encarregado de avaliar os pedidos.

A medida visa principalmente contribuir com atletas de transferências internacionais que não vão conseguir receber porque os clubes declararam falência, encerraram as atividades ou comprovaram a incapacidade de pagamento. Segundo a FIFPro, nos últimos cinco anos, mais de 50 clubes em 20 países fecharam as portas e, por isso, não podem mais ser responsabilizados, mesmo que comprovadamente os jogadores tenham o direito de receber.

Um desses exemplos é justamente o de Thiago dos Santos. Em 2014, ele assinou com o Moroka Swallows, da África do Sul, onde jogaria por três temporadas. Ao fim do primeiro ano, o jogador foi dispensado e teria direito a receber a multa rescisória. Thiago afirma que ficou acordado o pagamento de cerca de R$ 130 mil em parcelas mensais. Mas nunca houve o repasse.

"Um diretor do time me avisou que não ia ter como me pagar porque o time abriu falência. Eles acabaram com a minha vida. O dinheiro do primeiro ano eu gastei na minha festa de casamento e depois fiquei sem receber", criticou. O ex-jogador atualmente trabalha em Osasco como professor de escolinhas de futebol e comemorou a novidade anunciada pela Fifa. "Para mim é como a luz no fim do túnel", disse. O jogador acionou o Sindicato de Atletas São Paulo (Sapesp) para cuidar do caso.

A antiga equipe de Thiago fechou em 2015, porém os donos compraram há dois anos um outro clube local e mudaram o nome para Swallows FC. Por ser um novo time registrado, ele não pode ser responsabilizado pela dívida. "Mesmo depois de vir embora, eu não consegui jogar. O clube era muito desorganizado e meu registro profissional não constava como liberado para atuar por outra equipe", contou Thiago.

Para o advogado especializado em direito desportivo Eduardo Carlezzo, a novidade trazida pela Fifa será benéfica. "Já tivemos vários casos no meu escritório em que atletas brasileiros jogaram em clubes no exterior, não receberam salários, tivemos que recorrer à Fifa, ganhamos o processo e na sequência o clube entrou em falência ou foi desfiliado, impossibilitando o atleta de receber seu crédito, já que nestas situações o processo é extinto", explicou o sócio do escritório Carlezzo Advogados.

Procuradas pelo Estado, tanto a Fifa como a FIFPro não apresentaram informações mais detalhadas sobre o número de jogadores que podem ser beneficiados nem quais os critérios ou cronograma de distribuição dos recursos. As duas entidades usaram como base para o projeto uma pesquisa feita pela FIFPro em 2016 sobre a situação dos jogadores de futebol pelo planeta. Dos 14 mil entrevistados, 41% disseram ter vivenciado algum problema de atraso salarial nos dois últimos anos.

 

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Entidades consideram que medida da Fifa não será suficiente para combater calote

Sindicatos cobram decisões mais duras contra os clubes que não pagam salários e querem pacote mais amplo de ajuda ao atletas

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

14 de março de 2020 | 11h00

Positiva, mas longe de solucionar o problema. As principais entidades que representam os direitos dos jogadores no Brasil avaliaram a chegada do fundo de auxílio da Fifa ainda como um passo incipiente para resolver o problema. Na opinião desses órgãos, seria necessário tomar atitudes mais drásticas para fazer os clubes a honrarem com o compromisso de pagamento aos atletas.

Para o presidente do Sindicato de Atletas de São Paulo (Sapesp), Rinaldo Martorelli, a medida da Fifa deveria incluir também jogadores vítimas de calotes em transferências dentro do próprio país, e não apenas em negociações internacionais, como prevê a Fifa. "Eu considero uma medida discriminatória. Os jogadores que continuam no clube e não têm como receber não serão beneficiados", disse.

Martorelli afirma que no caso de transferências internacionais, os brasileiros costumam ter mais problemas de falta de pagamento em países como Albânia, Chipre, Polônia, Romênia e Rússia. Os jogadores buscam esses locais por considerarem uma vitrine para outras ligas europeias e em geral assinam contratos de curta duração e com salários de até 3 mil euros (R$ 15,8 mil na cotação atual).

Um dos casos mais delicados monitorados pelo Sapesp é no futebol romeno. Pela legislação do país, uma empresa que declara falência só precisa pagar 10% do valor total das dívidas. Por isso, há casos de clubes que fecharam as portas e pagaram uma pequena parte do acerto devido, porém os dirigentes retomaram as atividades anos depois após criarem outra equipe com uma nova documentação.

"O projeto da Fifa é muito pouco perto da responsabilidade que deveria ser assumida no ambiente de descumprimento que é o futebol", disse o presidente do Sapesp. Para o advogado da entidade, Guilherme Martorelli, seria preciso aplicar um pacote mais amplo de benefícios e com um repasse maior de dinheiro. "O modelo proposto é totalmente ineficiente pelo formato e pelos valores", comentou.

O presidente da Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol (Fenapaf), Felipe Augusto Leite, disse apoiar a medida, mas também avalia que o fundo não é uma ideia eficiente. "A ajuda na forma que se pretende implantar imediatamente irá minorar o sofrimento, claro, porém não será a solução final desses casos de inadimplência", afirmou ao Estado.

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