Arnd Wiegmann/Reuters
Arnd Wiegmann/Reuters

Por reforma, CBF terá de adotar 'ficha limpa' e divulgar salários

Pacotão faz parte das medidas da Fifa para reformular futebol

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2015 | 07h00

A CBF poderá ter de publicar os salários de seus dirigentes, colocar limite para mandatos e implementar uma espécie de ficha limpa para os cartolas. Isso vai ocorrer se for aprovada as propostas feitas pela Fifa, atendendo a apelos internacionais por mudanças, que marcam o início de uma reforma no futebol. Mas Joseph Blatter, presidente da entidade, deixou claro que a Fifa só faria a mudança se todos seguissem os mesmos passos, inclusive nas federações nacionais.

Procurada pelo Estado, a CBF indicou que seu presidente, Marco Polo Del Nero, não se pronunciaria sobre as propostas. No início de junho, ele propôs e teve aprovada mudança no estatuto da entidade para que, a partir do próximo mandato - ou seja, em 2018 -, o presidente só possa ser reeleito uma vez. O mandato é de quatro anos. O processo será debatido nos próximos meses por uma força-tarefa e é considerado como a última iniciativa de Blatter no cargo. A decisão foi tomada na reunião extraordinária do Comitê Executivo da Fifa, num dos momentos mais importantes da entidade em décadas. "Foi uma reunião muito importante'', declarou Blatter.

O encontro, porém, não contou com a presença do presidente da CBF, Marco Polo Del Nero. Temendo ser preso por conta da investigação que existe nos EUA contra ele, o brasileiro tem evitado viagens. Mas a CBF garantiu que sua ausência não teria consequências e que ele teria mantido contato antes do encontro com a Conmebol, cujo presidente Juan Napout viajou para a Suíça. Napout tinha outra informação e declarou que não falou com Del Nero antes do encontro. "Não falei com ele'', disse o paraguaio ao Estado. Já a CBF optou por não se pronunciar sobre o comentário de Napout.

Apesar da ausência do brasileiro, a reforma proposta atingirá em cheio a CBF, que não publica salários e que teve entre 1989 e 2012 o mesmo comando. O presidente da entidade de futebol da Colômbia e membro da Fifa, Luis Erberto Bedoya Giraldo, confirmou ao Estado que "a regra será adotada em cada uma das federações".

Questionado sobre como seria no caso de federações que não cumprem as exigências, ele apenas sorriu. "Cada um com seus problemas'', disse. Blatter também deixou claro que a ausência de Del Nero não era seu problema. "Os membros do Comitê Executivo são convidados a participar de encontros'', disse. "Não tivemos todos eles e um, como no caso da CBF, decidiu não vir. Mas esse é seu problema. Não teve qualquer influencia nas decisões da Fifa'', garantiu o presidente da Fifa.

Mas o dirigente suíço insistiu que não cabe à Fifa "fazer tudo sozinha''. "É importante reduzir o número de mandatos de todos, na Fifa, nas confederações e nas entidades nacionais", defendeu.

MANOBRA

Para seus críticos, a manobra de Blatter é a de justamente transferir a pressão que recai sobre ele a todas as entidades nacionais. Ele sabe que, se colocada à votação em fevereiro de 2016, dificilmente a proposta seria aprovada. Para desenhar as propostas, uma equipe de onze pessoas será escolhida. Mas com apenas um representante da Conmebol. Ao estabelecer uma ficha limpa, as entidade não poderiam ter dirigentes investigados ou condenados. Outra medida proposta é a de colocar limite a mandatos, um terremoto em entidades que há décadas são controladas pelas mesmas pessoas.  Segundo Blatter, foi a Uefa que vetou no passado esse limite de mandatos.

Por fim, ele quer a publicação do salário de todos. Mas questionado se revelaria quanto ganha, Blatter se recusou. "Todos terão de apresentar suas rendas. Podem me perguntar quantas vezes quiserem. Mas o farei quando todos farão'', disse. Blatter ainda foi pressionado sobre o motivo pelo qual não tomou decisões contra cartolas que, por anos, foram alvos de suspeitas de corrupção. Ele rejeitou o ataque e insistiu que seu comitê de ética agiu onde foi possível. "Não posso ser responsável moralmente por pessoas que eu não escolhi'', justificou.

Aos países que queiram sediar as Copas a partir de 2026, a Fifa também promete exigir que cumpram acordo da ONU que impedem a corrupção em obras públicas. No Brasil em 2014, uma empresa alemã anunciou que havia detectado como seus funcionários pagaram propinas a funcionários públicos para ficar com um contrato durante a Copa. 

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