Fabio Motta / Estadão Conteúdo
Fabio Motta / Estadão Conteúdo

Fifa aplica multa milionária e bane Del Nero do futebol para sempre

Ex-presidente da CBF foi punido por corrupção, por aceitar presentes de forma indevida e gestão desleal; dirigente fala em "interferências externas" e vai recorrer ao Tribunal Arbitral do Esporte

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

27 Abril 2018 | 09h27

A Fifa anunciou nesta sexta-feira que baniu o Marco Polo Del Nero, presidente afastado da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), de todas as atividades do futebol por toda sua vida. Três anos depois de assolada pela prisão de cartolas, em seu hotel em Zurique, a Fifa finalmente completa a "limpeza" da entidade e exclui o último dirigente envolvido no escândalo de corrupção e que continuava sem uma punição por parte da organização. Além de banir Del Nero do futebol, a Fifa aplicou uma multa de 1 milhão de francos suíços ao ex-dirigente (cerca de R$ 3,5 milhões). 

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Del Nero não pode nem entrar na CBF para eventos sociais, não pode presidir clubes de futebol e nem fazer parte de organização de torneios. Ele foi punido por corrupção, por aceitar presentes de forma indevida e gestão desleal.

Del Nero foi indiciado pela Justiça dos Estados Unidos em 2015. Mas, desde então, passou a evitar sair do Brasil para não ser preso. No final do ano passado, porém, ele foi suspenso temporariamente, depois que a Fifa recebeu evidências dos procuradores dos EUA sobre sua participação em esquemas de corrupção na CBF. Prevendo sua queda definitiva, Del Nero se apressou para montar uma transição na entidade do futebol brasileiro que resguardasse seus interesses. 

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Para isso, manobrou para conseguir que Rogério Caboclo, seu aliado, fosse eleito, sem oposição e sem qualquer outro candidato na disputa. A mesma estratégia já havia sido adotada por Ricardo Teixeira, quando deixou a CBF em 2012 e escolheu a dedo seus sucessores. 

Num primeiro momento, a Fifa o havia afastado do futebol por três meses, enquanto realizava suas investigações. Em março, a entidade ampliou o inquérito por mais 45 dias. Del Nero ainda pode levar o caso à Corte Arbitral do Esporte (CAS, na sigla em inglês), assim como fizeram Joseph Blatter, Michel Platini e Jérôme Valcke. Todos, porém, foram derrotados. 

Durante o julgamento de José Maria Marin em dezembro de 2017, Del Nero foi acusado de ter recebido US$ 6,5 milhões (cerca de R$ 22 milhões) em propinas, em troca de contratos comerciais com a CBF.

A Fifa, durante dois anos, não tocou em Del Nero, alegando que não tinha provas suficientes para o punir. Mas o brasileiro acabou suspenso quando os documentos do FBI se tornaram públicos. Desde então, a entidade passou a investigar o cartola. 

Del Nero chegou a ser interrogado pela Fifa, por meio de uma vídeo conferência. Sua defesa alegou que a entidade máxima do futebol não conseguira produzir um só documento de acusação, em dois anos de supostas investigações contra o brasileiro. 

Cada um dos detalhes apresentados na corte americana contra Del Nero foi questionado, entre eles os acordos com José Maria Marin para repartir o dinheiro. Numa das evidências, os investigadores apontaram como revelou que Del Nero herdou a propina que, até 2012, era paga a Ricardo Teixeira. Mas o montante de US$ 600 mil foi aumentado para um total de US$ 1,2 milhão (R$ 4,1 milhões).

Entre outros argumentos, Del Nero alegou que não esteve na reunião no Paraguai citada por testemunhas em que subornos foram supostamente negociados em relação a contratos de TV para torneios sul-americanos. 

Em Nova York, durante o julgamento dos cartolas do futebol em dezembro, o empresário argentino Alejandro Burzaco revelou na condição de testemunha que foi em outubro de 2014 ao Paraguai. Lá, negociou propinas com Del Nero e com o ex-presidente da Conmebol, Juan Napout. 

Mas, na esperança de reverter a decisão, Del Nero tentou provar com documentos de imigração que não viajou ao Paraguai para o suposto encontro citado por Burzaco, chefe de uma das empresas que pagou propinas por direitos de TV. 

A CBF se posicionou sobre o caso e explicou que o coronel Nunes, que assumiu a presidência durante a suspensão inicial de Del Nero, continuará no comando da entidade. "A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) informa que tomou conhecimento, hoje, 27, da decisão do Comitê de Ética da Fifa em relação ao presidente Marco Polo Del Nero. A entidade esclarece que, em cumprimento à citada decisão e em linha com seu Estatuto, o vice-presidente Antônio Carlos Nunes de Lima segue à frente da Presidência."​

LIMPA

Para a cúpula da Fifa, a punição contra Del Nero será vendida entre parceiros comerciais, patrocinadores e mesmo na Justiça americana e suíça como uma prova de que a entidade se desfez de todos aqueles que estavam envolvidos no maior escândalo de corrupção na história do futebol.

Nos EUA, a Fifa tenta reaver parte do dinheiro, alegando que foi lesada justamente por cartolas que, durante anos, comandaram o futebol e se utilizaram da entidade para enriquecimento ilícito. 

Depois de mudar de presidente, de secretário-geral, de afastar mais de uma dezena de cartolas e prometer fazer reformas, a Fifa agora vai insistir na tese de que, com Del Nero punido, a entidade finalmente "virou a página". 

O problema, segundo seus críticos, é que os escândalos continuam surgindo. Nesta semana, um dos membros do Conselho da Fifa, Constant Omari, foi preso no Congo, suspeito de corrupção no futebol.

DEFESA

O presidente afastado da CBF, Marco Polo Del Nero, vai recorrer ao TAS (sigla em inglês para Tribunal Arbitral do Esporte) para tentar reverter a punição. Em carta divulgada pelos seus advogados, o ex-dirigente critica a decisão da Fifa e reclama de supostas "interferências externas". 

"O Sr. Marco Polo Del Nero recorrerá da decisão e tem a convicção de que a punição de primeira instância será reformada mediante análise por tribunal independente e não sujeito a interferências externas", diz trecho da nota divulgada pelos advogados do escritório Bichara e Motta.

Del Nero se queixa de cerceamento de defesa e mostrou "indignação" com a punição imposta pela Fifa. "Foram incontáveis as violações processuais cometidos pelo Comitê de Ética, em clara afronta aos princípios mais básicos da ampla defesa e do devido processo legal", reclama.

O ex-dirigente alega ser inocente e que não há provas de que ele tenha cometido qualquer ato ilícito à frente da CBF. "Importante ressaltar que a investigação conduzida pelo Comitê não foi capaz de produzir qualquer prova referente ao seu suposto envolvimento em esquemas de corrupção."

Del Nero foi punido pela Fifa por corrupção, aceitar presentes de forma indevida e gestão desleal. Além da exclusão do futebol, a entidade aplicou uma multa de 1 milhão de francos suíços. 

Cartolas como Joseph Blatter, Michel Platini e Jerome Valcke também levaram punições recebidas pela Fifa ao TAS. Todos, no entanto, foram derrotados também no tribunal.

VEJA NOTA

É com surpresa e indignação que o Sr. Marco Polo Del Nero e seus advogados recebem a decisão proferida hoje pelo Comitê de Ética da FIFA.

Importante ressaltar que a investigação conduzida pelo Comitê não foi capaz de produzir qualquer prova referente ao seu suposto envolvimento em esquemas de corrupção.

Além disso, foram incontáveis as violações processuais cometidos pelo Comitê de Ética, em clara afronta aos princípios mais básicos da ampla defesa e do devido processo legal.

Por isso, o Sr. Marco Polo Del Nero recorrerá da decisão e tem a convicção de que a punição de primeira instância será reformada mediante análise por tribunal independente e não sujeito a interferências externas.

Sendo o que por ora cumpre informar, subscrevemos.

Bichara e Motta Advogados

 

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