Murad Sezer/Reuters
Murad Sezer/Reuters

Fifa se reúne nos Estados Unidos quatro anos após prisões de dirigentes

Depois de investigação do Departamento de Justiça levar cartolas para a cadeia, entidade faz congresso em Miami

Tariq Panja, The New York Times

14 de março de 2019 | 04h30

Não muito tempo atrás, a simples sugestão de pôr os pés nos Estados Unidos encheria de terror os líderes da Fifa. A perspectiva de se realizar um importante encontro no país seria considerada absurda. Um indiciamento generalizado por corrupção, feito pelo Departamento de Justiça dos EUA em 2015, ameaçava a própria existência da Fifa.

No entanto, investigações levaram à prisão mais de uma dezena de operadores influentes do esporte e à deposição de algumas das figuras mais poderosas da organização. Sob risco de serem presos, outros membros da Fifa ficaram com medo de viajar para os Estados Unidos.

Nesta semana, quase quatro anos depois do escândalo, a Fifa está trazendo pela primeira vez para solo dos EUA seu conselho de governo – um núcleo que, em outra encarnação, foi acusado pelas autoridades americanas de se envolver em cabeludos esquemas que vinham de várias décadas. O grupo expandido de 37 membros, agora conhecido como Conselho da Fifa, reúne-se nesta sexta-feira em Miami para discutir, entre outras coisas, uma significativa ampliação da Copa do Mundo de 2022 e um plano multibilionário para um novo Mundial de Clubes no estilo da Copa.

Segundo a Fifa, o local do encontro é o último indício de que ela deixou para trás o passado corrupto. “Pode-se dizer que há um significativo simbolismo na reunião do Conselho da Fifa nos Estados Unidos pela primeira vez desde 2015”, disse uma declaração da organização baseada em Zurique.

Quatro anos atrás, imagens de policiais levando presos cartolas após duas blitze separadas em um hotel de luxo de Zurique, desfechadas em plena madrugada, chocaram o mundo do esporte. Desencadeou-se uma crise que custou milhões de dólares à Fifa e provocou um turbilhão que durou anos.

A partir de então, dezenas de funcionários do futebol, empresários e empresas declararam-se culpados de acusações em tribunais dos EUA. Dois altos personagens, um deles o principal dirigente do futebol sul-americano, foram presos após julgamento em Nova York em 2017. A crise levou ainda ao afastamento de executivos não citados no processo, incluindo o veterano presidente da Fifa, Joseph Blatter.

Embora haja poucos indícios de uma nova devassa, o interesse das autoridades americanas pela Fifa não diminuiu. Muitos acusados que se declararam culpados no caso ainda não foram sentenciados e promotores estão reexaminando a decisão de condenar pelo menos cinco pessoas, entre elas um empresário argentino que testemunhou no julgamento de Nova York e colaborou com a Justiça como testemunha-chave.

“A Fifa continua pronta a auxiliar as autoridades em todos os casos. Embora a experiência tenha sido difícil, no fim das contas somos gratos ao Departamento de Justiça dos EUA, cuja intervenção nos levou a abordar alguns sérios problemas de governança e ajudou a colocar a Fifa no rumo das reformas”, acrescentou a declaração.

A atual liderança vem procurando criar canais de diálogo com as autoridades dos EUA. O principal representante legal da Fifa, o subsecretário geral Alasdair Bell, visitou promotores em Nova York para discutir uma reunião entre eles e a entidade, em setembro. A visita ocorreu um mês depois de o presidente da Fifa, Gianni Infantino, encontrar-se com o presidente Donald Trump.

Tais viagens eram consideradas perigosas quatro anos atrás. Blatter e seu ex-número 2, Jérôme Valcke, que enfrentam uma investigação paralela na Suíça por corrupção, não foram à Copa do Mundo Feminina no Canadá, em 2015, realizada poucas semanas após a primeira blitz na Suíça. Outros funcionários também preferiram permanecer fora do radar. A Fifa não confirmou se algum membro do Conselho não comparecerá ao encontro de Miami, embora pelo menos um não deva viajar, segundo uma fonte familiarizada com o Conselho.

Apesar de os piores momentos já terem passado, o futebol mundial continua acossado por episódios esporádicos de comportamento antiético de altas figuras. No ano passado, o ganense Kwesi Nyantakyi, membro do Conselho da Fifa, foi banido em caráter perpétuo após ser flagrado numa gravação aceitando milhares de dólares em dinheiro de um repórter disfarçado. Na semana passada, outro membro do Conselho, Lee Harmon, das Ilhas Cook, foi banido por três meses pela revenda ilegal de ingressos para a Copa da Rússia, no ano passado.

Para Miguel Maduro, ex-chefe de governança da Fifa, os continuados problemas são tanto estruturais quanto culturais e fazem parte de um sistema administrado como “cartel político”. Infantino, por exemplo, é candidato, sem opositor, à reeleição no fim do ano, numa eleição que refletirá aquela para a presidência do futebol europeu realizada em fevereiro. Nessa disputa, o ocupante do cargo, Aleksander Ceferin, foi reeleito por aclamação.

Talvez o maior indício das dificuldades que a Fifa enfrenta para uma mudança de cultura seja sua incapacidade em desacostumar os membros do Conselho que estarão em Miami de um estilo de vida que até eles sabem que é nababesco. Em encontros anteriores, por exemplo, conselheiros foram levados diretamente da pista de pouso para seus hotéis, sem precisarem se submeter à burocracia do desembarque. Mesmo depois das reformas, eles ganham salários anuais de US$ 250 mil, mais diárias, para comparecer às vezes a três reuniões anuais.

“Essa é uma das razões pelas quais o cartel é mantido”, disse Maduro. “É preciso agradar às pessoas que mantêm o poder.”/TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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