Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Fifa só deve entregar o dinheiro da Copa de 2014 para a CBF depois de 2018

Entidade terá de esperar o processo criminal contra os cartolas do futebol terminar nos Estados Unidos

Jamil Chade, Estadão Conteúdo

01 de setembro de 2017 | 11h18

A CBF pode ter de esperar pelo menos até 2018 para ter acesso ao dinheiro que a Fifa prometeu ao País como parte do legado da Copa do Mundo de 2014. O Estado apurou em Zurique que advogados já deixaram claro para interlocutores da CBF que a entidade terá de esperar o processo criminal contra os cartolas do futebol terminar nos Estados Unidos, especialmente o caso contra José Maria Marin, para avaliar se os recursos poderão ser enviados ao Brasil.

A entidade vinha tentando convencer a Fifa a liberar quase US$ 100 milhões (aproximadamente R$ 314 milhões) para o futebol brasileiro, prometidos ainda em 2014 durante a Copa do Mundo no Brasil. Em setembro, a entidade brasileira quer enviar uma delegação a Zurique para negociar a pendência com a secretária-geral da organização, Fatma Samoura. Porém, já ouviu dos advogados da Fifa que dificilmente o caso seria resolvido antes do fim dos processos nos tribunais de Nova York.

O Estado apurou que existem dois obstáculos para a liberação do dinheiro. O primeiro deles se refere à situação de Marco Polo Del Nero, indiciado nos EUA por corrupção. A Fifa ainda precisa se defender nos tribunais americanos e, diante dessa situação, advogados aconselharam a entidade a romper relações financeiras com qualquer pessoa implicada na investigação. Repassar US$ 100 milhões ao comando de Del Nero, portanto, poderia ter consequências negativas para a Fifa no caso que, em 2017, vai ainda levar diversos cartolas aos tribunais em Nova York.

Outro argumento que também pesa é o fato de que a Fifa quer se apresentar no julgamento como vítima dos cartolas sob suspeita. Portanto, repassar o dinheiro a um deles poderia minar essa estratégia. Um dos momentos-chave será o julgamento de Marin, que justamente presidia a CBF durante a Copa de 2014 e foi quem assinou o contrato dos US$ 100 milhões com a Fifa.

O fundo de US$ 100 milhões que deveria ajudar as regiões mais pobres do País a erguer centros de treinamentos e financiar o futebol feminino havia sido uma promessa da Fifa como parte do legado da Copa de 2014. Mas diante do indiciamento dos três últimos presidentes da CBF nos EUA, os repasses foram suspensos e apenas US$ 8 milhões (R$ 25 milhões) foram usados.

Naquele momento, na capital do Tocantins, Palmas, um terreno de 40 mil metros quadrados havia sido comprado. A promessa era de que, até o final de 2015, as obras começariam para criar um centro de treinamento financiado pela Fifa, o que nunca ocorreu. A federação beneficiada era uma velha aliada da CBF. Seu presidente, Leomar Quintanilha (PMDB-TO), foi um dos políticos que recebeu doações da CBF para sua campanha ao senado.

Quintanilha, que preside a federação estadual há mais de 20 anos, chegou a ter um inquérito aberto contra ele no STF, com relatórios do Ministério Público apontando que, ao lado do irmão, ele foi suspeito de um montar um esquema de desvio e favorecimento de empreiteiras com recursos de emendas. O esquema, descoberto em 2000, teria a participação de empreiteiras e atingiu 80 obras.

Em dezembro de 2016, uma delegação da CBF chegou a viajar para Zurique para apresentar à Fifa os projetos sociais que estariam sendo desenvolvidos, além de negociar como garantir acesso aos recursos. Mas não conseguiram convencer os cartolas na Suíça de que existem condições de averiguar como o dinheiro seria destinado. "As condições não estão dadas", justificou naquele momento a entidade, por meio de seu departamento de imprensa.

 

PROPOSTAS

Mas a CBF não da sinais de desistir. Uma das propostas é ainda de que seja elaborado um novo contrato que permitiria que o dinheiro fosse enviado ao País, sem passar pelo presidente Marco Polo del Nero. A gestão dos recursos também ficaria com a Fifa e os detalhes ainda estariam sendo desenhados.

Dentro da CBF, chegou-se a falar ainda na possibilidade de acionar juridicamente a Fifa, já que a entidade não estaria cumprindo um contrato que ela mesmo assinou. Uma das opções teria sido levar o caso para a Corte Arbitral do Esporte.

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