Ricardo Saibun/ Divulgação
Ricardo Saibun/ Divulgação

Filha escreve a biografia de Pepe, o 'Canhão da Vila'

Livro conta história do craque, que acaba de completar 80 anos

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2015 | 07h00

Pepe é conhecido no futebol, entre outros fatores, por ter feito parte do Santos de Pelé. E pelos 405 gols marcados em 750 jogos pelo Alvinegro, o que faz dele o segundo maior artilheiro da história do clube. Estufou muitas redes graças à bomba que tinha no pé esquerdo. Característica lembrada no título de sua biografia, "Pepe - O Canhão da Vila'', com lançamento previsto para maio.

O livro que conta, de forma leve e às vezes até bem-humorada, a trajetória do ex-jogador e treinador Pepe e do cidadão José Macia tem algumas particularidades: a autora é a jornalista Gisa Macia, filha do biografado. E parte de sua primeira edição vai ser financiada por uma campanha de crowdfunding, cujo objetivo é arrecadar R$ 25 mil em 60 dias.

"Pepe - O Canhão da Vila'' de certa forma já faz parte das comemorações dos 80 anos do bicampeão do mundo em 1958 e 1962 pela seleção brasileira, completados na última quarta-feira. A ideia do livro, porém, surgiu há quatro anos, e Gisa, então afastada do jornalismo, optou por fazer um curso antes de começar o trabalho efetivo.


"Claro que vivi muitos dos episódios relatados. Além disso o meu pai tem uma memória incrível, lembra de passagens de sua infância com exatidão, por exemplo. Mas fiz pesquisa e falei com muita gente para então começar a escrever'', diz Gisa.

Ela explica que, de comum acordo com o pai, optou por fazer um relato completo da vida de José Macia. "As pessoas o conhecem do futebol. Mas quis mostrá-lo como um ser humano como outro qualquer, com sucessos, fracassos, alegrias, angústias... O Pepe em casa, em família, coisas que vivi.''

Mas histórias ligadas ao futebolista Pepe - como a passagem em que ele, motorista braço duro aos 26 anos, bateu um Fusca que havia ganho num poste perto da Vila Belmiro ao querer se exibir para os amigos - não faltam no livro. O conteúdo foi definido sem grandes discussões entre biografado e autora.

"A gente se dá muito bem'', disse Pepe sobre o relacionamento com a filha. "Quem viveu as situações fui eu, mas ela de fato teve talento para captar as passagens mais interessantes.''

Crítico do futebol que se pratica hoje no Brasil, Pepe lamenta a pouca aptidão ofensiva que percebe em técnicos e jogadores. "A fase está meio braba. Você vê jogos na Europa com muitos gols e aqui a gente fica economizando, 2 a 0 é goleada. Precisa melhorar. Os técnicos ficam satisfeitos em jogar com dois atacantes. A gente jogava com cinco''’, recorda o ponta-esquerda que defendeu o Santos por 15 anos, período em que conquistou 27 títulos.

Vaquinha

A campanha de crowdfunding começou na última terça-feira, um dia antes de Pepe completar 80 anos, por meio do site www.kickante.com.br. Há várias opções de contribuição, entre R$ 15 a R$ 1 mil, que oferece recompensas diversas, entre elas receber em casa o livro autografado antes de seu lançamento oficial e até encontros exclusivos com Pepe.

"Ele é um ídolo e esse expediente é uma janela para os fãs se aproximarem dele. Mas parte da edição vai ser feita de maneira convencional'', diz José Luiz Tahan, da editora Realejo. Nos quatro primeiros dias, a campanha arrecadou R$ 2.981,00 dos R$ 25 mil almejados.


LEIA TRECHOS DA BIOGRAFIA DE PEPE

1961 - O Fusquinha

Em 1961, a torcida do Santos resolveu fazer uma vaquinha para comprar um carro para o Menino de Ouro. Pepe era muito querido pelos torcedores, já que o espírito amador ainda estava enraizado no atômico ponteiro. Ele era uma exceção no futebol mercantilizado que crescia na época. A torcida conseguiu até propaganda em rádio com o anúncio "Vamos comprar um carro para o Menino de Ouro!'' Foi colocada uma urna na Vila Belmiro para os torcedores depositarem dinheiro. Arrecadaram 240 mil cruzeiros. Mas o carro custava 600 mil, por isso o Santos F.C. inteirou o valor. Pepe virou dono de um fusquinha azul-claro, aos 26 anos.

Ele não perdeu tempo e começou a ter aulas de direção pelas ruas em volta do estádio santista juntamente com Zito e Coutinho, que também tinham acabado de adquirir seus automóveis. Logo que ganhou a carteira de habilitação ia para a Vila Belmiro de carro. Havia uma garagem no estádio para os jogadores guardarem seus veículos.

Numa manhã, Pepe resolveu aquecer o carro e mostrar seus dotes de piloto ao amigo e lateral-direito Getulio. Bastou uma pequena volta ao redor da Vila para Pepe perder o rumo e bater num poste. O poste entortou de tão forte que foi a batida. Mais que depressa se aglomeraram pessoas em volta para ver o estrago dentre moradores do bairro e os próprios atletas da concentração. O fusquinha azul ficou com o para-lama direito todo estraçalhado e foi ter bem cedo a sua primeira visita a uma oficina mecânica. A torcida nunca soube deste deslize do iniciante motorista justamente no presente ofertado por ela.

Quando o carro voltou da oficina e Pepe treinou mais a direção, enchia-o de amigos. Era uma empolgação só. Seus amigos de São Vicente, Sebinho, Geléia, Fausto, entre outros iam exprimidos no Fusquinha com destino à Praça dos Andradas. Não tinham nenhuma intenção de descer. Era só o gostinho de marcar presença. Já quanto à namorada foi mais difícil convencê-la a entrar no possante. Lélia, sem demora, avisou que não daria uma volta com ele. Naquela época, não ficava bem moças de família passearem de carro com o namorado. Mas foi só um dia Pepe lhe dar uma carona quando estava atrasada para o trabalho para que Lélia perdesse o preconceito.


1986 - Inter de Limeira

Em janeiro de 1986, meu pai assumia pela segunda vez a Internacional de Limeira. Nem o mais otimista torcedor do Leão do interior (outro Leão em sua vida) poderia supor que naquele ano a Inter conquistaria o título inédito de campeã paulista. Ainda mais porque já na primeira rodada do campeonato foi derrotada pelo Palmeiras por 3 a 1. O elenco mesclava jogadores novatos com atletas experientes, que já haviam passado pelas grandes equipes do País. Muitos deles estavam cansados de ficar na reserva de seus times e pretendiam mostrar suas qualidades. Eram os casos de Kita, Juarez, Alves, Manguinha e Gílson Gênio. "O time é forte em todos os setores. A defesa está reforçada pelo excelente Juarez e o ataque com a força e o oportunismo do centroavante Kita'', declarou o novo treinador.

Logo no início da temporada, contudo, uma tragédia abalou a equipe. Em 18 de fevereiro, meu pai comandava um treinamento quando o zagueiro Zezinho Figueroa, que corria em volta do campo, desabou depois de um pique mais forte. O atendimento prestado foi em vão. O treinador viu o jogador morrer na maca dentro do vestiário. Lá mesmo o médico deixou claro ao Canhão que Zezinho, de 34 anos, havia sido vítima provavelmente de um aneurisma cerebral. Meu pai, uma vez mais, teria que lidar com uma tristeza que desestrutura qualquer time.

Em seu primeiro contato com o grupo, com o intuito de amenizar a dor que estavam sentindo, citou aos atletas a experiência que teve no Fortaleza como exemplo de superação. No primeiro turno, a Inter ficou apenas na sexta colocação. Mas no segundo o grupo foi se entrosando cada vez mais e vencendo dentro e fora de casa com muita raça, especialmente por parte do meio-campista Gilberto Costa, e talento. Faltando ainda duas rodadas para o término do turno, o time já tinha assegurado a primeira colocação inclusive na classificação geral. A partir daí começou a ganhar destaque na mídia do Brasil inteiro. Foi apelidada de "Dinamarca do Interior'' em referência à grande sensação da Copa de 86. Meu pai tinha completa confiança em seu grupo. Sabia que aquele elenco era capaz de ganhar o título.

Eu ficava grudada no radinho e, em razão da segurança de meu pai, já sabia que sempre viriam ótimos resultados. Eufórica, aguardava notícias enquanto escutava a narração de algum jogo dos chamados grandes times. Quando tilintava a música de gol, já sabia que era da Inter. A equipe não marcava apenas um ou dois, normalmente ganhava de goleada.

Um dos grandes trunfos extracampo da Inter era o seu presidente: o carismático Victório Marchesini. Ele assumiu o clube depois de muitos anos de hegemonia do presidente Richard Drago. Victório não tinha a mesma experiência de Richard, mas era mais que um presidente, e sim um torcedor. Gostava de uma cervejinha e chegava na hora do jogo já trocando letras de tão nervoso. Pagava os bichos logo após o término da partida, ainda no vestiário. Jogava o pacote de dinheiro no colo de meu pai para que fosse distribuído.

No entanto, havia uma avaliação, mais ou menos generalizada, de que a Inter já havia chegado longe demais. Que o time já havia realizado um feito: chegar aos jogos decisivos contra Santos e Palmeiras, tendo desbancado o São Paulo. A façanha já estava de bom tamanho. Como o fato era inédito, a Imprensa acreditava piamente que a Internacional iria "amarelar'' diante dos grandes nas finais.

O time de Limeira ira passou pelo Santos, que havia vencido o primeiro turno, com duas incontestáveis vitórias: 2 a 0, em plena Vila Belmiro, e 2 a 1, no Limeirão. Foi umas das tantas ocasiões em que Pepe teve de enfrentar o seu time de coração. A grande decisão seria contra o Palmeiras, que amargava dez anos na fila. E olha que a Inter não teve nem chances de jogar uma das partidas em seu estádio. A Federação Paulista ordenou que os dois jogos das finais fossem disputados no Morumbi sob a alegação que o estádio em Limeira não tinha condições para abrigar uma final. No primeiro jogo não saíram do 0 a 0.

A minha família inteira virou torcedora da Inter de Limeira "desde criancinha''. Tios, primos, avós... Nessas horas, não havia time do coração, todos eram "Pepe Futebol Clube''. Até a minha avó, aos 76 anos, torcia ferrenhamente para o sucesso do Leão. Na grande final, em 3 de setembro de 86, ela segurava firme seu terço cada vez que o Palmeiras ia ao ataque. A partida foi eletrizante do início ao fim, em um Morumbi lotado de torcedores empurrando o time alviverde.

A Imprensa tinha absoluta convicção na conquista do Palmeiras. O time alviverde era repleto de craques, tais como Edmar, Mirandinha, Jorginho, Lino e Éder. Contudo a Inter não se apequenou. Ao contrário, agigantou-se como um verdadeiro Leão. No primeiro tempo, com os nervos a flor da pele, os times não saíram do 0 a 0. Logo no início do segundo, o centroavante Kita fez o primeiro gol. E logo depois, em uma falha do defensor palmeirense Denis, Tato, brejeiro que era, encheu as redes. O estádio emudeceu. Aos 29 minutos, o Palmeiras tentou uma reação. Diminuiu o placar através de Amarildo. E daí por diante foi uma pressão danada do Palestra em cima da Inter.

A partida já estava nos acréscimos quando o capitão Gilberto Costa falou ao pé do ouvido do árbitro Dulcídio Wanderley Boschilia: "Chega de descontos, Dulcídio! Você também vai entrar para a história!" Poucos segundos depois o juiz apitou aquele que seria um jogo inesquecível para todos os amantes do futebol. Os palmeirenses não conseguiriam também tirar a tragédia da memória tão cedo. A Inter foi o primeiro clube do Interior a vencer o Campeonato Paulista quebrando a hegemonia dos grandes da Capital e do Santos. Meu pai chorou e foi carregado nos braços pelos jogadores. Um torcedor da Inter invadiu o gramado com uma enorme bandeira numa comemoração solitária.


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