Estela Silva/ EFE
Estela Silva/ EFE

Final da Liga dos Campeões confirma supremacia de Manchester City e Chelsea na Europa

Times se mostraram mais completos, coerentes, inteligentes e bem treinados do que seus rivais

Rory Smith, The New York Times

17 de maio de 2021 | 15h00

A palma da mão de Edouard Mendy ainda estava doída em razão do tiro de Karim Benzema que ele defendera segundos antes, quando seus companheiros do Chelsea já avançavam no campo. N’Golo Kanté trocou passes com Timo Werner, despedaçando a defesa do Real Madrid. Um toque delicado de Kai Havertz raspou na trave e a bola caiu, suave como uma pena, sobre a cabeça de Werner.

No fim do jogo, a superioridade do Chelsea ficou terrivelmente aparente, seu lugar na final da Liga dos Campeões foi uma generosa e justa recompensa. Mason Mount ainda marcaria um segundo gol, mas poderia haver muitos outros. Só Havertz poderia ter feito três. O Chelsea de Thomas Tuchel tirou o Real Madrid da disputa com tanta facilidade que, em alguns momentos, foi quase embaraçoso.

“Eles jogaram melhor”, afirmaria Casemiro, volante do sobrecarregado meio de campo do Real Madrid. Thibaut Courtois, goleiro do Real Madrid, descreveu o Chelsea simplesmente como “a equipe superior”. Mas naquele período entre a defesa de Mendy e o gol de Werner, o que se tornaria um abismo profundo ainda não passava de uma poça. Muito pouco separava essas tão diferentes impressões.

A mesma coisa aconteceu em Manchester, sob a neve primaveril da noite anterior. Riyad Mahrez abriu vantagem para o Manchester City um ou dois minutos depois de o Paris Saint-Germain ter pensado, erroneamente, que tinha sofrido um pênalti. Daquele momento em diante, o City foi perfeito. Olhando em retrospecto, essa vitória também parecia predeterminada, inevitável.

Mas naquele momento - se a bola tivesse batido em Oleksandr Zinchenko alguns centímetros mais para baixo; se o PSG tivesse sido capaz de se beneficiar da pressão que exercera no início do jogo - tudo girava em torno de uma bola quicando, do posicionamento preciso de um braço.

A natureza dos esportes determina que, em grande parte, interpretações estão aquém do resultado. A explicação para entender o que ocasionou certo resultado é dada posteriormente, pensada a partir de um resultado pronto a partir do inescapável resultado do placar.

A suposição, no caso das semifinais da Liga dos Campeões, seria que a evidente supremacia do Manchester City e do Chelsea teria falado mais alto de qualquer maneira: que o Chelsea teria criado aquelas chances mesmo se Benzema tivesse marcado; que o City teria tido perspicácia e imaginação para superar o pênalti injusto.

Isso é possível, é claro. Mas não confunda: Chelsea e Manchester City são sem sombra de dúvidas times melhores do que Real Madrid e Paris Saint-Germain. São mais completos, mais coerentes, mais inteligentes, mais bem preparados fisicamente, mais bem treinados. Mas nesse nível, entre os poucos times de maior destaque no mundo do futebol, não existem grandes diferenças. Há apenas vantagens sutis.

Foi isso que Pep Guardiola, treinador do Manchester City, quis dizer quando afirmou que deve haver “algo nas estrelas” em relação à Liga dos Campeões. Coisas estranhas acontecem. O melhor time nem sempre ganha. Os dados são jogados. As partidas são definidas nos mais sutis detalhes: um lance de sorte, um impedimento por poucos centímetros, um jogador que escorrega quando sofre um pênalti.

O que é claro, porém, é que cada vez mais essas sutis vantagens estão favorecendo os times ingleses. Antes do ano 2000, nunca tinha ocorrido uma final de Copa da Europa ou Liga dos Campeões disputada entre times de um mesmo país. Desde então, houve oito: três finais espanholas (2000, 2014, 2016), uma italiana (2003), outra alemã (2013); e três inglesas (2008, 2019 e, agora, 2021).

Essa concentração, é claro, reflete não somente a preponderância dos times das principais ligas dos países da Europa Ocidental na competição - esses quatro países agora fornecem metade dos times compreendidos pela fase de grupos no campeonato - mas serve para demonstrar o oscilante equilíbrio de poder entre eles, evidência da medida em que cada liga domina a mistura entre engenhosidade tática, virtuosismo técnico e competência física para conquistar a posição principal.

Quando os times italianos lideravam em tática, costumavam dominar a Liga dos Campeões. A geração de ouro dos clubes da Espanha, conjugada primeiramente pelo brilhantismo de Lionel Messi e então pela segunda geração de galácticos do Real Madrid, era tão talentosa tecnicamente que nenhum plano mestre era capaz de abafá-la, até que a simples abordagem de pressão da Alemanha abriu caminho. Os melhores anos da Premier League ocorreram quando o atletismo tradicional foi combinado com táticas e técnicas inovadoras importadas da Europa continental.

É precisamente isso que aconteceu nos últimos anos, é claro. A Inglaterra agora é lar da maioria dos melhores treinadores do mundo, Guardiola e Tuchel entre eles. Primeiramente, o país adotou e posteriormente aperfeiçoou o estilo de pressão alemão - e, no caso de Guardiola, a posse de bola dos espanhóis - e combinou isso com as virtudes há muito elogiadas do futebol inglês, de engenhosidade e corporalidade, desenvolvendo jogadores com brilhantismo técnico suficiente para mostrar resultados.

Para tudo isso acontecer, porém, a Inglaterra se valeu de sua primazia em relação a um quarto - e talvez o mais significante - fator: recursos financeiros. Não deveria ser nenhuma surpresa que a Premier League esteja hoje conformando uma segunda final totalmente inglesa em três anos na Liga dos Campeões.

Três dias antes de enfrentar o PSG na segunda partida das semifinais da Liga dos Campeões, o Manchester City enfrentou o Crystal Palace. Apesar de estar próximo de conquistar o título da Premier League, o time de Pep Guardiola ainda não tinha chegado lá: ainda havia mais um jogo antes da confirmação do campeonato. Ainda assim, o time que ele escalou continha apenas um jogador - Fernandinho - que encararia o PSG. O City venceu mesmo assim, confortavelmente.

Essa história se repetiu por grande parte dos últimos seis meses. Guardiola alternou regularmente cinco, seis ou sete jogadores entre partidas, sem prejudicar ou quase sem prejudicar a performance ou os resultados da equipe. Nenhum outro time - nem na Inglaterra nem do restante da Europa - pode clamar esse tipo de consistência no elenco.

O Chelsea não é diretamente comparável - sete dos jogadores que entraram em campo contra o Real Madrid tinham jogado contra o Fulham no fim de semana - mas sua resistência não surpreende quando consideramos que o time gastou mais de US$ 250 milhões no fortalecimento de seu quadro de jogadores no último verão europeu, quando a maioria das outras equipes lutava contra problemas econômicos causados pela pandemia. Tuchel poderia deixar no banco Hakim Ziyech e Christian Pulisic, caso pretenda dispor de uma infusão de talentos que valem mais de US$ 100 milhões.

Nada disso, é claro, serve para diminuir as conquistas desses times, nem para sugerir que eles não mereçam seu lugar na final, nem para menosprezar o trabalho que seus técnicos fizeram para levá-los à mais importante partida do futebol europeu. Na verdade, de muitas maneiras, um City versus Chelsea é a final perfeita para o ano que o futebol teve: isso significa que, no fim, os dois times ainda de pé foram aqueles que se posicionaram melhor para enfrentar a adversidade e resistir à compacta e extenuante agenda de jogos, que descobriram que as partidas na balança pesaram, ainda que suavemente, ao seu favor. / Tradução de Augusto Calil

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