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Final inesperada?

Sem gritos verdadeiros e com torcida de papelão, Campeonato Paulista não pode ser analisado como antes da parada

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

02 de agosto de 2020 | 05h00

O Campeonato Paulista vai tendo um final surpreendente. Times credenciados vão ficando pelo caminho, times completamente desacreditados, por outro lado, ganham fôlego e protagonismo. Equipes que perdem inúmeros jogadores enfrentam de igual para igual, quando não vencendo, outras equipes que não perderam nada durante o período de parada. 

Como se explica isso, essas supostas surpresas? Vi muitos comentários, especialmente depois do jogo entre o São Paulo e o Mirassol. Muitas hipóteses surgem nessas ocasiões. Me chamou atenção que praticamente todas ignoraram a época e o momento em que essa competição está se dando. As análises foram feitas mais ou menos como faríamos, fossem os tempos normais. Salvo Grafite, um dos pouquíssimos que vi mencionar o momento na sua análise, nada foi dito a respeito. Os culpados de sempre foram apontados, diretores, técnicos, jogadores, como se tudo se desse num universo paralelo, num mundo com pouca conexão com o nosso.

No entanto, esse mundo real esquecido mostra sua força, mesmo que o desprezemos. Para mim, essa disputa está sendo feita em momento não apenas pouco adequado como inteiramente alucinante.

Sabemos todos que torcida é elemento fundamental no futebol. Entretanto, até isso, esse elemento sagrado, é tratado de maneira infantil e ridícula pelos que querem o futebol apesar de tudo. Aquele falso ruído de torcida não engana nem uma criança, ao contrário, acho que são as crianças os primeiros a ver a falsidade da coisa. Para não falar de um expediente ainda mais grotesco, que é colocar fotografias em bonecos e simular que lá estão torcedores sentados nas arquibancadas.

Não sei como as caras foram selecionadas para essa “homenagem”. A meu ver, não há homenagem alguma nisso, o que há é um exemplo claro do que é um torcedor atingido de súbita paralisia cerebral. Eu jamais teria permitido o uso da minha cara numa pose daquelas. Por mais autocrítica que possa ter, um pouco melhor do que aquilo eu sou. O conjunto dos sons falsos com as imagens falsas é exemplar de uma certa concepção da vida. Tudo é substituível, mesmo que a substituição resulte numa tragédia estética.

Ocorre que as verdadeiras torcidas, ou a falta delas, é o que transforma esses jogos em verdadeiras surpresas. Sem a torcida não há mais grandes e pequenos, há apenas 11 contra 11. As camisas perdem seus valores, se é que um dia tiveram algum. Camisas, aliás, cheias de dizeres, slogans, logotipos, no meio dos quais, humilde, está o distintivo do clube. E nessa confusão acontece um jogo que é tudo, menos o velho futebol.

Na verdade, o que transforma um time é sua torcida. Jamais, porém, comprei muito bem a ideia de que um jogador sente o entusiasmo da torcida ao seu lado e por isso joga com mais ardor. Não, o jogador joga assim não porque sente a torcida ao seu lado, mas porque teme a torcida.

É isso que o faz correr e se matar em campo: o medo. É sob o olhar implacável da Mancha Verde, Gaviões da Fiel, Sangue Santista e Independente, que os craques correm. Sem elas qualquer jogo fica difícil, para não dizer dramático.

Provavelmente, vamos assistir até o fim a esses jogos sem pequenos e grandes, onde não há favoritos porque, insisto, os jogadores não têm nada a temer do resultado. Se o São Paulo tivesse perdido do Mirassol do jeito que perdeu num Morumbi com 40 mil pessoas, a história seria bem diferente da paz e do quase silêncio que paira sobre o jogo.

Declarações sensatas e moderadas surgem por toda parte quando a torcida está longe. Com ela perto a coisa é outra. Pode tirar o cavalo da chuva quem dirige esse campeonato. Os gritinhos gravados de torcida, que vem não se sabe de onde, e as caras petrificadas das arquibancadas não assustam ninguém. Sei que não foram feitas para isso, mas então, por que foram feitas?

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