Werther Santana|Estadão
Werther Santana|Estadão

Finanças dos clubes melhoram, mas ainda estão longe de ser sadias

Análise preliminar da situação econômico-financeira das 12 principais agremiações do futebol brasileiro indica que houve evolução, pequena, em 2016

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2017 | 16h28

Ainda está longe, bem longe, do ideal. Mas, de maneira geral, os 12 principais clubes do futebol brasileiro apresentaram, no ano passado, melhora nas finanças em comparação com o exercício de 2015. Alguns continuam tropeçando, mas a maioria teve uma geração de caixa melhor. É o que projeta o Earning Preview, uma análise preliminar das finanças dos clubes desenvolvida pelo Itaú BBA.

O estudo indica a tendência, uma vez que os balanços oficiais dos clubes só serão publicados no final do mês de abril. Por isso, foi

feito a partir de dados intermediários divulgados pelos clubes e também obtidos em diversas fontes, como informações publicadas pela imprensa.

O trabalho tenta avaliar receitas e custos dos clubes e, partir dos números obtidos, indicar se os compromissos financeiros foram honrados (as contas pagas) e se, com base no ocorrido em 2016, existem recursos para investir, por exemplo, em contratações. Ou seja, o desempenho do ano passado tem influência no que está acontecendo, e ainda pode acontecer, na temporada atual.

O Itaú BBA constatou que a melhora se deve a dois fatores principais: o crescimento das receitas de televisão e, para algumas agremiações, a venda de atletas. No entanto, as despesas também apresentaram tendência de crescimento, e isso é preocupante.

"Não dá para fazer uma projeção com profundidade. Mas houve progressos", explica César Grafietti, superintendente de crédito do

Itaú BBA e responsavel pelo estudo, enfatizando que cada clube tem sua característica.

Os clubes paulistas estão na dianteira da evolução. Corinthians, São Paulo e Santos tiveram em 2016, pela projeção do Earning Preview, desempenho melhor do que o de 2015. O Palmeiras teve desempenho semelhante, comparando os dois exercícios. Mas é o que está em situação financeira mais favorável - conta, entre outros itens, com o aporte da Crefisa, até para contratações, e com o dinheiro da negociação de Gabriel Jesus para o Manchester City.

A projeção de receitas do Palmeiras, baseados em dados de novembro de 2016, é de R$ 477 milhões, ante R$ 301 milhões de 2015. Mas os custos e as despesas cresceram numa proporção maior: de R$ 159 milhões para R$ 365 milhões. Assim, de acordo com o estudo, a geração de caixa atingiu no ano passado R$ 112 milhões, menor que os R$ 142 milhões registrados no período anterior.

O Santos também tem feito bem o dever de casa. Suas receitas estimadas subiram de R$ 168 milhões para R$ 215 milhões enquanto as despesas e os custos foram de R$ 159 milhões para R$ 177 milhões. Com isso, espera-se geração de caixa de R$ 38 milhões, resultado bem melhor do que o de 2015 - R$ 9 milhões.

Já Corinthians e São Paulo, apesar da melhora, não podem ignorar o sinal amarelo. Para o Alvinegro, é projetada receita em 2016 de R$ 352 milhões, ante R$ 281 milhões dos 12 meses anteriores. As despesas até sofreram redução (de R$ 251 milhões para R$ 249 milhões). Mas o grande problema é que o clube não pode dispor do que entra em bilheteria, pois o dinheiro vai para o pagamento do estádio.

Por isso, e embora a geração de caixa (R$ 101 milhões em 2016, com base em setembro) tenha sido suficiente para fazer investimentos e reduzir dívidas, o clube não tem margem para trazer reforços de peso para o time.

O Tricolor vive situação semelhante, apontam os números. A projeção é de receita da ordem de R$ 374 milhões (sem considerar R$ 60 milhões de luvas por contrato de TV paga a partir de 2019), em muito consequência da venda de atletas. Mas um crescimento de 24% nos custos e despesas (estimados em R$ 267 milhões) faz com que a situação possa não ser muito confortável.

"A situação de Corinthians e São Paulo é um pouco enganosa. Não tende a ser sustentável a longo prazo'', diz César Grafietti. "O Santos conseguiu desempenho efetivamente melhor.''

OUTROS ESTADOS

Os grandes de outros Estados passam por momentos distintos. Em Minas Gerais, de acordo com as projeções, Atlético-MG e Cruzeiro não estão nada confortáveis. O estudo indica que o Atlético, por exemplo, corre significativo risco de, no balanço consolidado, apresentar redução de receitas (de R$ 245 milhões para R$ 235 milhões) e aumento de custos e despesas (de R$ 215 milhões para R$ 229 milhões).

Com isso, a geração de caixa também cai (de R$ 30 milhões para R$ 6 milhões), o que indica que o cobertor, este ano, está curto. O Galo teve, por exemplo, de negociar Lucas Pratto. E tem o conforto de contar com bom elenco, pois, se precisasse contratar vários jogadores de ponta teria dificuldade, do ponto de vista unicamente financeiro. "O Atlético deve ser o clube com a maior dívida bancária. Acaba gastando muito mais do que deveria. E tanto Atlético como Cruzeiro vivem muito perto do 0 a 0'', diz o consultor.

A situação do Cruzeiro, aliás, é bastante semelhante, com queda de receita, embora as despesas também possam ter apresentado redução.

Dos cariocas, o Flamengo continua em bom caminho. As despesas cresceram proporcionalmente menos do que as receitas, isso melhorou a geração de caixa (projeção de R$ 146 milhões em 2016). A política financeira adotada permite ao clube conforto no momento de investir em infraestrutura e reforços.

O Fluminense pegou o caminho inverso, com despesas crescendo mais do que receitas líquidas. Com isso a Ebtida, a geração de caixa, caiu de R$ 21 milhões para R$ 15 milhões. O rumo do Tricolor é considerado correto, mas é preciso conter custos para poder investir. "Mas Flamengo e Fluminense fazem bom trabalho, assim como o Grêmio'', analisa Grafietti.

Já os cariocas Vasco e Botafogo continuam marcando passo, embora o Alvingero tenha a perpectiva de apresentar números melhores no balanço final de 2016 em comparação com 2015. No Sul, enquanto o Grêmio progrediu, com melhores receitas e controle de despesas e custos, o Internacional teve na queda à Segunda Divisão um forte obstáculo: o projeção é que a receitas fiquem estagnadas e as despesas tenham expressivo crescimento, num indicativo de que o desempenho no campo reflete no caixa.

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