Fiz do limão uma limonada, diz Mustafá

Quem apostou num pedido de renúncia de Mustafá Contursi após a volta do Palmeiras à Série A, pode esquecer. O presidente vai cumprir o mandato até o final, em 2005. O que ele promete para os próximos meses é uma espécie de ?abertura do poder? ? mas só para os amigos. Sábado à noite, após a consagração do time na Série B do Brasileiro, Mustafá concedeu entrevista exclusiva ao repórter José Eduardo Savóia, da Agência Estado, em seu gabinete, no segundo andar do Palestra Itália. E prometeu iniciar o processo de sucessão já. Disse que o clube tem pelo menos 30 dirigentes capacitados para assumir a sua cadeira na sala da presidência.Mustafá Contursi Goffar Majzoub, 63 anos, eleito em janeiro para o sexto mandato consecutivo como presidente do Palmeiras, enfrentou um ano de críticas e de muitas pressões nesse período obscuro do time na Segundona. Segurou a barra com todas as suas forças e se orgulha por ter cumprido a promessa feita no dia seguinte ao rebaixamento: de reconduzir o time à Primeira Divisão.O dirigente faz aqui um desabafo contra os seus opositores, promete se esforçar para manter todos os jogadores que disputaram a Série B ? além de toda a comissão técnica ? e diz que encabeçará uma frente contra os cambistas.Antes de sua despedida como presidente do Palmeiras, Mustafá alimenta um desafio: modernizar o estádio Palestra Itália, transformando-o num conjunto multiuso que irá torná-lo auto-suficiente. O cartola revela ainda que o projeto já tem aprovação da Prefeitura e custo definido: não chega a US$ 25 milhões. Depois disso, pretende se sentar num banco nos jardins do Parque Antártica e curtir o clube sem a responsabilidade de ser o chefão.AE ? Como foi o seu ano durante a disputa da Série B do Campeonato Brasileiro?Mustafá ? Fora de campo não foi tão diferente dos anos anteriores. Tive de administrar a covardia de algumas pessoas, que usaram de todos os meios para desestabilizar o clube. Mas eles se deram mal porque houve uma união geral e o Palmeiras mostrou que nunca deixou de ser grande.AE - A vitória do Palmeiras também foi a sua volta por cima?Mustafá - Essa não foi minha intenção. Fiz do limão uma limonada. Quando o Palmeiras caiu, assumi a responsabilidade. Tinha a obrigação de continuar. Não podia transferi-la a terceiros. Se fizesse isso, seria esquecido rapidamente. Mas quem assumisse talvez sofresse um desgaste bem maior. Aliás, ninguém abandonou o barco. E que fique bem claro: em momento algum o Palmeiras perdeu a sua grandeza.AE - É verdade que o senhor já teria saído se o Palmeiras não tivesse caído?Mustafá - Não tenha dúvida disso. Já estava programada a minha saída quando o Palmeiras caiu. Mas agora vou retomar o processo de sucessão. E desde já começarei a transferir algumas decisões. Porém, existem situações administrativas, fiscais, contábeis e estatutárias que devem ser conduzidas, até na sucessão. Nunca falei em renúncia. Para fazer a sucessão não preciso renunciar. O estatuto do Palmeiras é sábio. Nossos quatro vice-presidentes substituem o presidente, suas pautas e seus impedimentos. Ninguém precisa transferir o poder. Os quatro vice-presidentes já têm participado ativamente da nossa administração.AE - Há um prazo para o senhor concluir esse processo de sucessão?Mustafá - Claro que tem. Estatutariamente deverá ocorrer em 2005. Aliás, a preparação para a sucessão já começou. Mas com um cuidado extremo: sabemos quem não poderá fazer parte dessa transição. Isso eu vou levar ao extremo. Quem se aproveitou de um momento ruim do clube (na Série B) para se beneficiar politicamente está fora.AE - Este ano na Série B não tirou um pouco de sua força política no clube?Mustafá - Nem no clube, nem fora do clube. Nunca senti tanto apoio vindo de fora para dentro como neste ano. Acho que até pela campanha maledicente que a oposição fez contra nós, brotou um sentimento de família em torno do Palmeiras. O estádio voltou a encher, famílias inteiras voltaram a acompanhar o time. Nunca dei tanto autógrafo, nem tirei tanta fotografia com as crianças como nesses últimos tempos. A campanha da oposição foi tão odiosa que o torcedor saiu de casa e veio apoiar o clube. A família se transformou num soldado em defesa do clube.AE - E quanto às ameaças de morte a você, à sua família e aos seus companheiros?Mustafá - As ameaças foram das mesmas 60 a 70 pessoas que me xingaram quando o Palmeiras ganhou a Copa Libertadores, em 1999. Não é uma coisa da comunidade. O Palmeiras bem, faz com que essas pessoas não atinjam seus objetivos histéricos de tomar o poder no clube. Aliás, jamais tomarão.AE - Fora essas questões, que tipo de lições o senhor tirou deste ano na Série B?Mustafá - É preciso disputar a Série A com muito cuidado. Provavelmente vacilamos em alguns momentos. Três arbitragens ajudaram a derrubar o Palmeiras, nos jogos contra o Santos, contra o São Paulo e contra a Ponte Preta. O campeonato foi em turno único, não houve como nos recuperar.AE - No ano passado o Palmeiras brigou pela queda de quatro clubes, desde que usassem a média de pontos dos últimos três anos, e foi voto vencido. E agora, depois de ter disputado a Séria B, o senhor ainda tem a mesma opinião?Mustafá - Sou favorável até pela queda de seis clubes, desde que haja uma média de no mínimo três competições nos últimos três anos, como ocorre na Argentina, no México e em outros países. Esse seria um critério extremamente técnico, que já valia nos anos 90. Mas aí veio aquela maldita Copa João Havelange, que foi até bem organizada, mas acabou sendo detonada politicamente pelo excesso de clubes. Alguns nem estavam qualificados para disputá-la.AE - Agora que o Palmeiras subiu, o senhor acha que o time vai precisar de muitos reforços para ter alguma chance na divisão de elite do futebol?Mustafá - Quem pode responder isso é o nosso treinador. Ele é quem vai dizer quais são as necessidades. Mas eu seria capaz de apostar: se o Palmeiras, com esse mesmo mesmo time, tivesse disputado a Séria A, com certeza terminaria nas primeiras colocações.AE - Quando o senhor diz treinador, pode-se entender que está se referindo a Jair Picerni?Mustafá - Ele mesmo. O Jair fez um bom trabalho. No que depender da nossa vontade, permanecerá no Palmeiras.AE - E quanto aos jogadores cujos contratos estão por vencer?Mustafá - Vamos tentar manter todos os atletas que disputaram a Série B. É o mínimo que o Palmeiras pode fazer por eles. E tem mais: quando estava terminando o prazo de inscrições na Europa, uns sete ou oito deles tiveram propostas de fora e optaram por continuar com a gente. Foram dignos com o clube. O Palmeiras não vai esquecer isso.AE - É um agradecimento?Mustafá - Não, é um reconhecimento.AE - A Série B deu lucro, com o estádio do Palmeiras sempre cheio?Mustafá - Ainda não fizemos as contas. Mas esse também foi um ano de prejuízo. No futebol brasileiro é déficit em cima de déficit. A nossa economia não permite que a gente tenha bons resultados. Mas o clube está equilibrado, com todas as contas em dia e com todas as obras em andamento.AE - Soube até que o senhor está sendo processado porque o clube tem dinheiro aplicado e não paga Cofins. Verdade isso?Mustafá - Verdade. Estou sendo processado por crime fiscal por não ter recolhido o Cofins. Inventaram que nós devemos pagar esse tributo sobre a nossa aplicação financeira. E o pior é que não há parâmetros. Não conheço outro clube que tenha aplicação financeira. Mas vamos sair bem dessa.AE - O Palmeiras tem muito dinheiro aplicado, presidente?Mustafá - Um pouquinho, mas só o suficiente para manter o clube equilibrado (risos).AE - Antes de completar o processo de sucessão o senhor ainda tem algum desafio em mente?Mustafá - Quero a modernização do estádio Palestra Itália. Já temos um projeto aprovado na Prefeitura, só falta encontrar um parceiro que banque os custos.AE - Quanto custa o projeto e no que ele vai melhorar o estádio?Mustafá - Não é nenhum absurdo. Os valores hoje em dia não ultrapassariam os US$ 25 milhões, que é um investimento insignificante para um projeto de US$ 130 milhões. Construiremos um complexo multiuso que seria fantástico para a cidade, para o esporte e para as atividades artísticas do País. Além disso, tornaria o estádio auto-suficiente. Estádio não dá lucro no Brasil. A modernização é a saída.

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