Daniel Castelo Branco| Agência O Dia
Daniel Castelo Branco| Agência O Dia

Flamengo saneia finanças, cresce e vira exemplo

Programa do clube de saneamento financeiro alcança sucesso, dívida é reduzida e já permite até grandes investimentos

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2016 | 17h00

O Flamengo está colhendo o que plantou. De fora para dentro do campo. A boa campanha no Campeonato Brasileiro e a perspectiva real de conquistar títulos, após anos de campanhas ruins em que chegou até a flertar com o rebaixamento, está diretamente ligada ao processo de saneamento financeiro do clube. O rubro-negro ainda tem dívida alta, mas que está sendo honrada. E vem obtendo receitas que permitem a montagem de um time competitivo.

Clube de maior torcida do futebol brasileiro, até 2012 o Flamengo convivia com a desagradável fama de caloteiro. Atrasa salários, não honrava contratos com jogadores e funcionários – era alvo de pilhas de processos trabalhistas –, não pagava impostos, tributos, dava calote em bancos. Praticava sonegação, apropriação indébita...

O quadro começou a mudar em 2013, quando Eduardo Bandeira de Mello, administrador de empresas que fez carreira no BNDES, assumiu a presidência. Foi eleito prometendo modernizar métodos e a gestão do clube, com o objetivo principal de promover um saneamento financeiro.

Apesar das críticas da torcedores pela falta de times competitivos, arregaçou as mangas, negociou dívidas trabalhistas e bancárias, aderiu ao Profut, o programa do governo federal de refinanciamento de dívidas fiscais e tributárias do clubes. com isso, começou a reduzir o endividamento - em 2015 era de R$ 481 milhões contra R$ 751 milhões cinco anos antes.

“Temos uma dívida administrável e que no final do ano deve ficar abaixo dos R$ 400 milhões’’, disse ao Estado Bandeira de Mello, tijucano de 63 anos. “O importante é que o perfil da dívida mudou também. Antigamente você tinha uma dívida basicamente tributária, extremamente onerosa. Depois do Profut, foi diluída em 20 anos, de forma bastante confortável.’’

Além disso, diz o dirigente, a dívida trabalhista “praticamente acabou’’ e a bancária está sendo reduzida. “Trabalha-se para que nos próximos anos a nossa dívida seja composta basicamente pelo Profut, que está escalonada.’’

Bandeira não fala em valores, mas sabe-se que em março de 2015 o Flamengo fechou acordo com Romário, pelo qual pagou R$ 4,2 milhões no ato ao ex-jogador e comprometeu a depositar parcelas mensais de R$ 160 mil até 2022. O presidente acredita até que um acordo possa encerrar essa dívida antes.

Com Ronaldinho Gaúcho, os R$ 40 milhões devidos foram reduzidos para R$ 17 milhões num acordo feito em fevereiro.

Prestígio. A consequência da política de saneamento financeiro foi que o Flamengo tem hoje mais de 30 patrocinadores de todos os tamanhos – a Caixa destina R$ 25 milhões/ano e a iFood, que retoma o convênio hoje, pagou R$ 500 mil em junho e julho. E pelo segundo ano seguido tem a marca mais valorizada do futebol brasileiro (leia quatro ao lado), o que representa mais chance de negócios e de obtenção de patrocínio, de acordo com estudo da BDO.

“O Flamengo conseguiu passar a arrebentação’’, compara o consultor da BDO Pedro Daniel. “Hoje, passa credibilidade aos investidores. O valor da marca é consequência das ações tomadas, que tornam o Flamengo propício a negócios.’’

Para a torcida, o lado bom também se já se vê em campo. Recentemente, o clube conseguiu contratar o meia Diego e o atacante Leandro Damião, com os quais gasta cerca de R$ 900 mil mensalmente. Sem sofrer. “O dinheiro (para pagar os dois) vem das receitas ordinárias do Flamengo. É tudo planejado. Se contratamos é porque podemos.’’

Hoje, o Flamengo, que não atrasa pagamento de salários desde 2013, tem folha estimada em R$ 7,5 milhões mensais. Com encargos, a folha pode atingir R$ 120 milhões este ano.

Bandeira de Mello, no entanto, diz não haver segredo no processo de aprimoramento da gestão. “É só você respeitar o orçamento, só gastar o que arrecada e cumprir a previsão de fluxo de caixa. Enfim, cumprir as obrigações. Não tem nada estratosférico. É uma questão mais de princípios e de valores’’, ensina.

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