Flexibilidade marca início da era Leão

Quando o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, escolheu o novo técnico da seleção brasileira, foi inevitável enxergar características em comum nas personalidades de Emerson Leão e de seu antecessor, Wanderley Luxemburgo. A vaidade, o personalismo e a aversão às críticas eram atribuídas a ambos. Mas, nos quatro meses em que esteve à frente da seleção, o novo treinador surpreendeu, mostrando uma cara diferente, mais democrática e flexível.Por orientação do comando da CBF ou por iniciativa própria, Leão seguiu caminho oposto ao de Luxemburgo. As mudanças no comando da seleção podem ser verificadas em diversos aspectos.A modificação mais radical foi a desconcentração do poder do treinador, determinada por Ricardo Teixeira. A nomeação de Antônio Lopes para coordenador de seleções da CBF foi o primeiro passo. Com a criação desse cargo, Leão passou a dividir a responsabilidade pela estrutura que envolve a equipe brasileira, que antes eram monopolizada por Luxemburgo.A função de coordenador é similiar a que Zico exerceu no Mundial de 1998. Por exemplo, quando Ronaldinho Gaúcho precisou de um lugar para treinar a fim de manter a forma física, Lopes providenciou. Evitou, assim, o problema enfrentado por Luxemburgo, que se desgastou ao não convocá-lo para a partida contra o Equador, pelas eliminatórias. Motivo: o atacante estaria gordo.Em campo, a influência de Lopes se tornou bem menor do que a esperada. O próprio coordenador fez questão de enfatizar que, ao contrário do que declarou inicialmente, não vai interferir diretamente no trabalho do treinador. Embora com a soberania dentro de campo garantida, Leão fugiu ao isolamento, característico de seu antecessor.Nesta semana, o técnico da seleção se reuniu com três colegas cariocas para receber informações e ouvir opiniões. A comissão técnica promete organizar novos encontros iguais. "Precisamos melhorar o diálogo", disse Leão, após a conversa. Na "Era Luxemburgo", críticas ou sugestões de outros treinadores não eram bem recebidas.A personalidade forte do atual treinador do Corinthians se limitava aos assuntos de dentro das quatro linhas. Luxemburgo reclamava da falta de tempo para treinar a seleção, mas se esquivava de tomar uma atitude, postura diferente da de Leão. "Não podemos só reclamar, temos de fazer algo para mudar", frisou ele, nessa semana. O treinador também admite participar da comissão de estudos do Governo Federal, que vai procurar soluções para o futebol brasileiro.As alterações mais visíveis ocorrem na formação da comissão técnica e nas convocações. A supercomissão técnica, que chegou elevar a 48 os integrantes da delegação brasileira na Olimpíada de Sydney, foi reduzida. Foi o fim do cargo de psicólogo na seleção. Lopes e Leão garantiram que vão se encarregar de cuidar da parte emocional dos jogadores.Nas convocações, acabaram-se os testes intermináveis de Luxemburgo, que chamou mais de 100 jogadores em sua passagem pela seleção. Na divulgação de sua segunda lista, Leão pouco mudou em relação à de estréia, mantendo uma base de jogadores, que promete levar até a Copa do Mundo de 2002. Surpreendeu apenas com o atacante Christian. Ainda mostrou mais maleabilidade ao não se recusar a responder a perguntas durante as entrevistas, como acontecia com o antigo treinador.Um mérito de Leão foi colocar em prática o discurso ofensivo, ao convocar vários atacantes em sua última lista. "Temos de nos impor em qualquer competição", costuma justificar-se. Embora pregasse o jogo franco, Luxemburgo sempre incluia um excessivo número de volantes em suas relações. O meio-de-campo, em algumas ocasiões, contava com três jogadores de marcação.Há pouco tempo no comando da seleção, Leão ainda não foi testado em situações em que seja submetido à pressão. Por isso, é impossível prever qual será a sua reação diante de uma crise. Mas, até agora, tem tido uma postura mais equilibrada que a de Luxemburgo.

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