Flu investe em estrelas, mas também lucra com a base

À primeira vista, qualquer um diria que este Fluminense campeão é um produto único dos investimentos da Unimed, a patrocinadora comandada por um tricolor inveterado que não mede esforços e reais para formar uma equipe que traga títulos para as Laranjeiras. Afinal, dos titulares habituais apenas Wellington Nem foi formado nas categorias inferiores. O restante é talento "importado". Sim, Celso Barros e sua

LEONARDO MAIA E SÍLVIO BARSETTI, Agência Estado

11 de novembro de 2012 | 21h29

seguradora de saúde são fundamentais, mas seriam insuficientes sem o bom trabalho do clube em Xerém, onde se localiza o centro de treinamento das divisões de base que é de suma importância para a manutenção de um time adulto milionário.

Foi com a negociação (definitiva ou em partes) dos promissores garotos vindos da Baixada Fluminense que o Fluminense foi capaz de formar a atual equipe. Nos últimos anos, muitos meninos deixaram Xerém, que há poucos meses foi reinaugurado depois de grande reforma, com destino a grandes e médios clubes da Europa. Alguns, antes mesmo de disputar um único jogo no time de cima.

O caso mais conhecido, a venda dos irmãos Rafael e Fábio para o Manchester United, em 2008, por 3,5 milhões de euros. Em março de 2010, o atacante Maicon foi despachado para o Lokomotiv, de Moscou, por 4,8 milhões de euros. Meses depois, seu substituto, Alan, partiu rumo à Áustria por 3,5 milhões de euros, para defender o RB Salzburg, sob os protestos do então técnico tricolor Muricy Ramalho.

No início da semana passada, o lateral-direito Wallace, de apenas 18 anos, foi negociado ao Chelsea por R$ 15 milhões. Na verdade, a transação representou um valor bem superior a este. Em 2010, o meia Deco só desembarcou nas Laranjeiras com a venda de 40% dos direitos econômicos do garoto para os "Azuis", em acordo que também envolveu a fragmentação contratual do lateral-esquerdo Ronan e do atacante Rafael

Pernão, este último atualmente no Internacional.

"Wallace já está negociado há muito tempo. Sempre disse que a melhor política é a do Internacional, que vende um, dois jogadores por ano para manter um grande time. Perdemos o (lateral) Mariano no início do ano, trouxemos o Bruno e o nível foi mantido", destaca o técnico Abel, defendendo a estratégia da diretoria tricolor para tentar manter um bom time em campo e equilibrar as dívidas do clube (que vão superar os R$ 400 milhões ao fim deste ano).

Wallace disputou 16 jogos neste Brasileiro, 10 como titular, e fica nas Laranjeiras até julho, ao fim da Libertadores do ano que vem. Até mesmo Wellington Nem quase foi enviado ao CSKA, da Rússia, na última janela de transferência, em troca de R$ 10 milhões. Na realidade, o presidente Peter Siemsen aprovou a transação, mas o jovem

atacante rejeitou o negócio, para se consolidar no clube e ter mais chances na seleção brasileira. Depois do assédio, em maio, Nem teve seu contrato renovado até dezembro de 2015, com multa rescisória de R$ 50 milhões.

Em junho, outro lateral-direito de Xerém arrumou as malas para o Velho Mundo. Fabinho, também de 18 anos, foi negociado para o pequeno Rio Ave, de Portugal, por R$ 2 milhões. O jovem fora adquirido pelo Fluminense em 2011 do Paulínia-SP. A principal estratégia da diretoria para manter a base recheada é garimpar talentos nas categorias inferiores de clubes menores pelo Brasil.

A venda de promessas para a contratação de nomes consagrados, porém veteranos e com altos salários, é questionada por torcedores e cronistas. Mas, quando se tem o suporte financeiro de um forte patrocinador para arcar com os rendimentos mensais de um time de estrelas, muitas vezes vale a pena sacrificar um pouco do futuro para

obter grandes conquistas no presente.

"Nunca falei que não venderia nenhum jogador da base. Disse sim que ia fazer um esforço enorme para evitar isso", disse o presidente Peter Siemsen, ainda em junho, quando Fabinho foi vendido sem chegar ao time adulto. "Mas temos dificuldades para gerar receitas. O Wallace, por exemplo, desperta o interesse de vários clubes europeus, mas não está nos nossos planos vendê-lo agora."

Pois o "agora" durou pouco, mas a "fazendinha" tricolor continua a produzir talentos. O vice-campeonato da Copa São Paulo de Futebol Júnior, em janeiro, é comprovação de que ainda há boas colheitas pela frente. E que o futuro tricolor deve continuar promissor como o presente vitorioso.

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