'Foi muito difícil o retorno', afirma Fabrício Carvalho

'Foi muito difícil o retorno', afirma Fabrício Carvalho

Atacante, que estava em campo na trágédia, teve de se afastar dos gramados por 2 anos por arritmia: 'Tive medo de passar mal'

Entrevista com

Fabrício Carvalho

CIRO CAMPOS E DIEGO SALGADO, O Estado de S. Paulo

27 de outubro de 2014 | 09h29

O atacante Fabrício Carvalho estava em campo pelo SãoCaetano na partida contra o São Paulo, em 2004, e viu o colega de time, ozagueiro Serginho, morrer depois de uma parada cardiorrespiratória. O jogadorsó não imaginava que três meses depois seria ele o foco das preocupaçõesmédicas do clube, ao apresentar uma arritmia em exames da pré-temporada de2005, problema que lhe afastou dos gramados por dois anos. Ao retornar,precisou superar o trauma e o medo.

Como foi enfrentar o período na carreira em que ficouafastado por problemas cardíacos?

Foi um período turbulento da minha carreira. Vivia umproblema excelente antes e depois fiquei impedido de jogar por dois anos porconta de uma alteração exibida em um exame. Acredito que por ter sido depois docaso Serginho, tenha existido alguma influência, porque todo mundo fiquei meioressabiado e receoso. Os times passaram a fazer exames mais rigorosos nosatletas. Por tudo o que ocorreu, time muitas dúvidas, sobre o caso do Serginhotambém, se ele sabia ou não desse problema. Infelizmente logo após essafatalidade fiquei impedido de atuar, o que me deixou bastante preocupado. Issome deixou em baixa, me prejudicou muito e fiquei triste demais, até pelofalecimento do Serginho. Lembro com alegria dos momentos que passamos juntos.

Você sentiu algo anormal no Serginho nos meses queantecederam a morte ou mesmo durante o jogo?

Pelo contrário. Ele tinha uma vitalidade acima do normal,jogava pelo grupo, honrava a camisa do São Caetano e a gente até se assustoumuito da forma como ele veio a falecer, até pelo que ela era. Na parte física,nunca reclamou de nada, nem de nenhum treinamento, era muito dedicado. O que eusei da questão clínica dele, é que fez um exame uma semana antes desse jogo eque nos foi passado por ele é que não houve nada de anormal. Depois surgiramalgumas versões que alguns jogadores sabiam do problema dele, mas nãoparticipei de nenhuma reunião em que foi mencionado o problema dele.

Quando foi detectado o seu problema cardíaco?

Foi na pré-temporada, em janeiro de 2005. Fiz o exame e omédico me falou que houve um problema e precisaria repetir o exame, que foifeito no HCor. Daí repeti, foi constatada a arritmia. Foi melancólico para mime durou dois anos a minha pausa.

Durante esses dois anos, como foi a sua rotina?

Eu me condicionei fisicamente, como os médicos sempredisseram. Fiquei inativo mesmo, comendo e dormindo, e repetia os exames a cadatrês meses. Foi assim durante mais de um ano. Sem nenhuma atividade física,desiludido totalmente. Depois comecei a achar estranho o meu caso, porquenenhum médico me disse com exatidão o que era e o que causava essa arritmia.Depois, procurei o Constantino Constantini, o mesmo médico do atacanteWashington. Ele me indicou um médico em São Paulo, o Beny Schmidt. Não tenhonada a reclamar do São Caetano, que sempre pagou o meu salário. Fiquei chateadoquando tomei a decisão de não fazer os exames e eles quiseram me encostar e meaposentar. Os médicos que estavam conduzindo a minha situação não me passavamtranquilidade. Depois da consultado com o Beny Schmidt comecei a me exercitaraqui na minha cidade, Andradina, ia para a academia. Depois o pessoal do Goiásentrou em contato comigo e fui para Goiânia. Passei três meses fazendo exames,mas de forma diferente. Treinava, sendo monitorado e depois o médico meliberou. Até a família dele achou que ele estava louco na época por causadisso.

Quando o São Caetano ameaçou te encostar?

Foi quase em 2006. Foi quando eu disse que não queria maisfazer exames com eles e queria procurar outros especialistas. Fiquei em casamesmo, saí do São Caetano.

Você conseguiu se sentir seguro quando voltou a jogar?

No início fiquei com medo. Mesmo com diagnóstico, fiqueiinseguro. Nos treinamentos mesmos tinha medo. Com dois anos parado, senti muitadiferença na coordenação motora e tempo de bola. Foi muito difícil o retorno,traumático. Tive medo de passar mal. Eu vi o Serginho em campo, passava umfilme na cabeça. Meu caso foi complicado porque o médico não assinaria minhaliberação de forma alguma. Saí de São Paulo para poder alguma pessoa diferente,com outro olhar, para me ver não como jogador, mas como paciente, alguémnormal. Graças a Deus o médico teve a ousadia e me liberou.

E fisicamente, como você estava quando voltou?

Engordei 11 kg no tempo parado. Foi algo bem complicado.Fiquei acima do peso por um bom tempo. Tive muita dificuldade, de ficar até 4kg acima do peso, tive que me superar. Falo do tema sem problema algum.Enquanto eu tiver força, saúde e as pessoas continuarem me ligando, voucontinuar jogando. Tenho uma história forte, que vale a pena ser contado, eu mesuperei. O caso me atrapalhou profissionalmente, mas Deus me ajudou.

Depois de voltar a jogar, você sentiu algo de anormal?

Eu nunca senti nada, nem no São Caetano. É um caso tãoestranho e tão raro que é difícil até de falar. Nunca tive desmaio e nem passeimal. Só senti algo quando estava 10 kg acima, mas aí é normal.

Você acredita que houve erro médico?

É difícil falar com exatidão Era complicado. Eu olhava para um exame e o médico falava que tinha alteração. E como se vai contra um diagnóstico? É difícil. Eu preferi lutar e procurar outro especialista. Estava na mão do São Caetano, que estava bancando os exames no HCor, com contrato em vigor. Tive que acatar as ordens, mas chegou ao meu limite, não aguentava mais ficar parado e viver uma vida de rato de laboratório, eram exames atrás de exames, repetia sempre. Os médicos estava atordoados. Entendo a situação deles, mas sou ser humano e precisava mudar. Fiquei chateado com o HCor pela forma como eles conduziram, porque expuseram a minha imagem ao colocar a minha ficha de internação nos jornais. Não tinha nada de novo. Utilizaram de forma sensacionalista.

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