Cesar Greco|Ag. Palmeiras
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Fome na infância, rojões e mototáxi: conheça a história de Rony, do Palmeiras

Atacante supera começo difícil no Pará e se torna protagonista do time que busca título mundial no Catar

Ciro Campos , O Estado de S.Paulo

Atualizado

  Cesar Greco|Ag. Palmeiras

Ronielson da Silva Barbosa passou fome na infância no interior do Pará, precisou trabalhar de mototaxista para se sustentar, quase foi atingido por um rojão e levou anos até desenvolver a habilidade do chute a gol. Por isso, a pressão de hoje vestir a camisa 11 do Palmeiras e ser conhecido como Rony não assusta. A responsabilidade de estrear no Mundial de Clubes do Catar contra o Tigres, do México, é na verdade um prêmio para quem até quase desistiu do futebol.

O atacante de 25 anos desembarcou em Doha nesta semana com traje chique. O terno e a gravata preparados pelo Palmeiras para vestir a delegação nem parecem a roupa utilizada até pouco tempo por Rony pelas ruas de Belém. "O Rony várias vezes chegava treinar no Remo com o uniforme amarelo dos mototaxistas. Ele fazia esse trabalho para completar a renda. Só com o futebol não dava para viver", contou ao Estadão o diretor de futebol do Remo, Paulo Araújo.

Para se dedicar exclusivamente ao futebol, Rony também trabalhou de mecânico e contou com um acaso. O Remo dispensou o atacante no início de 2014, mas voltou atrás porque herdou uma vaga para a disputa da Copa São Paulo com a desistência da Tuna Luso. O clube precisou montar o time às pressas. Aos 18 anos, Rony estava desiludido, voltou para a cidade natal (Magalhães Barata) e quase não acreditou que teria outra chance. Na competição, ele ainda fez um gol contra o Corinthians.

Naquela época o Remo enfrentava uma crise financeira e técnica. A equipe não tinha jogadores para montar o banco de reservas para enfrentar o São Francisco, pelo Estadual, e o então treinador interino Agnaldo de Jesus decidiu chamar Rony. O menino bastante magro e tímido chamou a atenção do presidente do clube, Zeca Pirão. Na concentração, o dirigente prometeu que pagaria ao atleta R$ 1 mil se ele entrasse e fizesse um gol. Teve de cumprir.

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Rony sempre teve muita velocidade, mas no começo da carreira ele corria com a bola de cabeça baixa, sem olhar para os lado
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Agnaldo de Jesus, Técnico de Rony no Remo

"Rony sempre teve muita velocidade, mas no começo da carreira ele corria com a bola de cabeça baixa, sem olhar para os lados. Ele tinha também uma certa dificuldade para bater na bola", contou Agnaldo, conhecido como Seu Boneco. "Rony é um garoto esforçado e humilde. Gosta de ouvir os outros e sempre gostou de comemorar gol dando essas cambalhotas", relembrou.  

A passagem pelo Remo ficou marcada por dois títulos Estaduais e por um susto. A torcida organizada invadiu o treino da equipe para protestar. O estouro de um dos rojões quase acertou Rony. Abalado, ele chegou a receber atendimento médico. Anos depois, Rony usou o dinheiro ganho em uma ação na Justiça contra o Remo para construir uma casa para a mãe.

O atacante passou pela base do Cruzeiro e em 2016 chegou ao Náutico, onde teria um professor especial. O ex-atacante Kuki já trabalhava de auxiliar e ficou intrigado ao ver aquele jovem de 21 anos recém-chegado ao Recife. "Faltava ao Rony saber aliar a velocidade à melhora na finalização", contou Kuki. Rony aceitou ficar todos os dias um pouco a mais nos treinos só para praticar chutes a gol.

Kuki passou ao atacante detalhes sobre o posicionamento do corpo e do pé de apoio, além de truques para tirar a bola do goleiro. Deu certo. Rony foi o vice-artilheiro da Série B com 11 gols. "O Rony quis aprender. O mérito dessa evolução em como bater na bola foi totalmente dele. No futebol, fazer o gol é simples. Mas tem de aprender como se bate certo", contou Kuki, um dos maiores artilheiros da Náutico.

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O Rony quis aprender. O mérito dessa evolução em como bater na bola foi totalmente dele
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Kuki, Auxiliar do Náutico

As dificuldades também marcaram a passagem dele pelo Albirex Niigata, do Japão. Rony quase quis voltar quando o forte inverno começou. A alimentação era um grande problema. O jogador não gostava das opções e passava o dia comendo bananas. Em 2018 o Athletico-PR o resgatou de volta ao Brasil. Rony foi campeão da Sul-Americana e da Copa do Brasil. Em 2020, o Palmeiras pagou R$ 28 milhões para trazê-lo como reforço.

Muito religioso, Rony gosta de participar de ações da igreja e quando morou em Curitiba, frequentemente saía às ruas para doar comida e cobertores para pessoas em situação de rua. O novo hobby dele é tocar bateria. O instrumento foi um presente de Natal dado pelo empresário Hércules Junior, chamado carinhosamente de pai pelo jogador. O atacante tem pouco contato com o pai biológico, que se separou da sua mãe.

A adaptação ao Palmeiras foi difícil. Rony levou nove meses até marcar o primeiro gol. Depois disso, virou um jogador fundamental ao elenco. O passe para o gol do título da Libertadores saiu dos pés dele e foi uma das oito assistências de Rony na competição. A vida do camisa 11 mudou muito rápido. Em cerca de sete anos ele venceu as dificuldades mais duras do início da carreira. Agora ele tem um ótimo padrão de vida, não precisa mais do mototáxi para se sustentar e só se aproxima dos rojões se for para comemorar título.  

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