Wilton Junior/ESTADÃO
Wilton Junior/ESTADÃO

Fora da realidade, Libertadores tem final com ingresso ‘popular’ pelo dobro da Champions

Modelo de jogo único por si só é mais caro, mas Conmebol inflaciona os preços acima do normal. Entrada mais barata da última final europeia custava menos de 50% dos absurdos US$ 200 cobrados para Palmeiras x Flamengo

João Abel, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2021 | 15h39

Com um salário mínimo no Brasil (R$ 1.100), não é possível comprar o ingresso ‘popular’ para assistir à final da Libertadores, entre Palmeiras e Flamengo, atrás de um dos gols do estádio Centenário, em Montevidéu. O preço mais baixo divulgado pela Conmebol nesta terça, 19, é de US$ 200 (ou seja, R$ 1.109 na cotação anual).

É claro que um palmeirense ou flamenguista que ganha um salário mínimo por mês não está preocupado em ir ao Uruguai. Ele quer saber apenas de pagar os também absurdos preços do gás, da carne, da luz, do aluguel. Estas são as prioridades. Mas o comparativo com o valor do ingresso da grande decisão sul-americana ajuda a entender o quão fora da realidade são os números divulgados pela Conmebol.

Com liberação de apenas 50% do estádio até o momento (há expectativa de que o índice suba para 75%), esta será a final de Libertadores mais cara da história. E com preços muito salgados mesmo se comparados aos anos mais recentes. Em 2019, torcedores do Flamengo puderam comprar o ticket mais barato por um preço três vezes menor do que na atual edição: US$ 80 (cerca de R$ 322 pela cotação da época).

Dois anos antes, em 2017, gremistas puderam ver o primeiro jogo da decisão contra o Lanús pagando R$ 65 pelo ingresso mais barato. O mais caro custava R$ 400. Ou seja, menos da metade do valor do ticket mais em conta para o duelo entre Palmeiras e Flamengo, neste ano.

Veja a evolução dos preços ao longo das últimas 5 edições com público nas finais da Libertadores:

Já havia a expectativa de valores exorbitantes, mas o salto em relação às últimas edições é um recado claro da Conmebol: aqui torcedores de camadas populares não são bem-vindos. 

Até o comparativo com a Liga dos Campeões, que também tem final em jogo único, assusta. Em junho, Manchester City e Chelsea decidiram a Champions com preços mais baixos nos setores atrás dos gols. Os bilhetes disponibilizados pela Uefa custavam entre 70 euros (R$ 448) e 600 euros (R$ 3.840). 

Qual a justificativa dos preços? Três fatores podem indicar o porquê dos valores bizarros. 

O primeiro é a alta de preços pós-pandemia. Não só o Brasil, mas a economia mundial sofre com os gastos inflacionados.

O segundo é a organização do evento, que exigiu da Conmebol uma reforma no estádio, além da preparação da cidade para receber equipes e torcedores. A ideia é transformar Montevidéu em palco de festa durante uma semana, já que a final da Copa Sul-Americana, marcada para o dia 20 de novembro, e a final da Libertadores Feminina, no dia 21, também serão na capital uruguaia. Aqui, os gastos da entidade são estimados em mais de R$ 3 milhões.

O que nos leva ao terceiro ponto: o novo modelo de negócio da final da Libertadores. Quando, a partir de 2019, a Confederação Sul-Americana decidiu que faria a decisão em jogo único, a ideia principal era aumentar a receita e a visibilidade do torneio. Fazer mais grana e proporcionar um ‘espetáculo’, ainda que nosso continente não comporte a logística do jogo final de maneira simples.

Parte do valor dos ingressos de Palmeiras e Flamengo deve ajudar a bancar, por exemplo, um grande show no intervalo da partida, que pode durar até 25 minutos. Algo 'à la Super Bowl'. Mas é isso que os torcedores querem?

Não é preciso ser radicalmente contra o jogo único para entender os problemas do modelo. Ele traz mais emoção, expectativa, drama. Mas a que custo? Ainda é difícil mensurar se o formato é um sucesso ou um fracasso em terras ‘sudacas’, já que, por enquanto, tivemos apenas um Flamengo x River, em 2019, em Lima. 

A repercussão dos valores de 2021, por enquanto, é majoritariamente negativa. Ainda que existam torcedores conformados e que até concordam com as quantias cobradas, a maioria está claramente insatisfeita.

Do lado palestrino, as duas maiores torcidas organizadas do clube divulgaram notas reclamando do preço dos ingressos e cobrando um posicionamento da diretoria do Palmeiras

“Qual o posicionamento do senhor [Maurício Galiotte, presidente do clube] a respeito do preço abusivo dos ingressos? Quanto a Conmebol quer de fato ver nosso povo no Uruguai? Quanto você vai lutar por nós?”, questiona a Torcida Uniformizada do Palmeiras em nota divulgada nas redes sociais.

A Raça Rubro-Negra, maior organizada do Flamengo, também cobrou fez críticas: “De maneira cruel, a entidade responsável por conduzir o rumo do futebol no continente, completamente alheia a realidade, ignorando a crise social e econômica e os reflexos ainda devastadores de uma pandemia global, age de maneira ambiciosa e joga na lata de lixo o sonho de milhares de torcedores”.

Teve até jogador reclamando. "Muito caro o ingresso, tem que ser mais barato", escreveu Dudu, atacante do Palmeiras. Que, não duvido, terá sua atenção chamada em breve pelo comentário em tom de ‘corneta’.

E como será a venda? Parte dos ingressos, os mais ‘baratos’, serão comercializados aos torcedores pelos próprios clubes, que ainda não divulgaram mais informações sobre o processo de compra. Os bilhetes mais caros, para cadeiras centrais, ficam a cargo da Conmebol, por meio de um site de eventos. Todos os detalhes estão no site da entidade.

Se a venda for completa, a arrecadação bruta total com o jogo pode chegar próxima a US$ 10 milhões. Metade da receita líquida ficaria com os clubes, o que já seria uma bela grana.

As hospedagens já estão praticamente esgotadas em Montevidéu, onde não se acha mais qualquer quarto por menos de R$ 1 mil por noite. Há torcedores planejando ficar em cidades a mais de 200 km da capital, como Punta Del Este ou Colônia, para tentar pagar mais barato. Ou seja, a demanda de entradas para o duelo entre alviverdes e flamenguistas deve ser grande. Mas a ponto de esgotar mesmo os tickets de 500 e 650 dólares?

As respostas, que conheceremos quando os ingressos forem efetivamente colocados à venda, vão nos ajudar a entender se realmente o continente atendeu ao chamado da Conmebol para transformar a final da Libertadores num evento para a elite da elite. Ou se a Confederação deu um leve tiro no pé.

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