Valdrin Xhemaj/EFE
GP de Mônaco de Fórmula 1 não será realizado neste ano Valdrin Xhemaj/EFE

Fórmula 1 pode ter mais alterações no calendário, com corridas canceladas

Categoria terá que resolver problemas com organizadores locais dos GPs e com as equipes

Ciro Campo, O Estado de S. Paulo

30 de março de 2020 | 04h30

Outra modalidade que vive pesadelos financeiros com o novo coronavírus é a Fórmula 1. Até agora oito etapas do calendário foram afetadas pela pandemia, duas delas desmarcadas. O campeonato só deve começar em junho e ter pela frente mais alterações na agenda e discussões sobre acordos para compensar as perdas pelos cancelamentos.

A preocupação da categoria é resolver as brigas com os organizadores locais dos GPs e as insatisfações das equipes. Cada etapa paga em média R$ 160 milhões por ano para a F-1 como taxa de promoção, valor que não é recebido em caso de cancelamento. Outro impacto de tirar as provas do calendário é sacrificar as escuderias, que dependem das corridas para fazer campanhas com patrocinadores e ganhar premiações.

“Precisamos conversar com a F-1 sobre o seguro das corridas canceladas”, disse na Austrália a chefe da Williams, Claire Williams. A corrida foi desmarcada e a organização terá de revolver o dinheiro do ingresso.

A F-1 tem sido cuidadosa para anunciar as decisões de calendário e prefere tratar as provas como adiadas, para não ter problemas contratuais com patrocinadores e bilheterias. Procurada, a Fórmula 1 não respondeu contato do Estado. Um dos GPs com o maior risco de ser afetado é o da Itália, em Monza. O circuito fica no norte do país, região castigada pela pandemia. É possível que o calendário seja prolongado até o fim de dezembro.

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Anfield Road lotado em jogo do Liverpool: uma cena que ainda não tem data para se repetir Carl Recine/Reuters

Pandemia deve causar prejuízo de até R$ 20 bilhões no futebol europeu

Possível cancelamento da temporada assusta as principais ligas e deve se refletir até na janela de transferências

Ciro Campos , O Estado de S. Paulo

Atualizado

Anfield Road lotado em jogo do Liverpool: uma cena que ainda não tem data para se repetir Carl Recine/Reuters

O prejuízo do novo coronavírus no futebol irá bem mais além do que somente paralisar os campeonatos. As previsões de especialistas em finanças são bastante sombrias sobre o quanto a modalidade vai se fragilizar e sofrer uma das maiores crises econômicas da história. Apenas as cinco principais ligas nacionais da Europa (Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha e França) podem ter um impacto do equivalente a R$ 20 bilhões se os campeonatos não puderem ser retomados, segundo projeção da consultoria KPMG.

O estudo divulgado nesta semana e obtido pelo Estado traça um panorama de como as principais competições vão sofrer por fatores como a falta de receitas em dias de jogo, perda de compromissos comerciais e o prejuízo pela falta de transmissão na TV. A situação atual dos campeonatos é de cancelamento, ainda sem uma confirmação de quando o calendário poderá voltar.

A mais rica de todas as ligas é quem pode ter o maior golpe. Apenas a Premier League, na Inglaterra, pode sentir no bolso um impacto de R$ 6,7 bilhões. Cerca de 62% desse valor (R$ 4,2 bilhões) se deve às transmissões de televisão pelo mundo afora, cujos valores são fixados de acordo com a quantidade de jogos exibidos pelos canais. No entanto, a interrupção do calendário gera um ciclo de perdas imenso e com reflexo até mesmo em receitas menores, como as vendas de comida nos estádios.

Na opinião de especialistas ouvidos pela reportagem, apurar o impacto total do coronavírus no esporte é uma avaliação impossível. A paralisação na Liga dos Campeões e o adiamento da Eurocopa são outros fatores de grande peso para enfraquecer o futebol, por envolverem uma cadeia de serviços ainda mais ampla do que as ligas nacionais, como viagens de torcedores, verbas maiores de patrocínio e contratos maiores de TV.

Segundo a própria KPMG, no Brasil o duro golpe financeiro será pesado porque boa parte dos recursos depende principalmente dos times estarem em atividade. As rendas com bilheteria representam 15% da receita anual dos clubes e os contratos de TV são responsáveis por 42%. Justamente esses dois segmentos importantes são os mais afetados pela paralisação.

 
 

"A receita dos clubes depende muito das vendas de jogadores. Mas a janela de transferência deste ano tem chance de não dar muitos frutos e isso também vai impactar muito em toda a cadeia do futebol", disse ao Estado o Líder de Mídia e Esportes da KPMG no Brasil, Francisco Clemente. "Agora tem de se pensar no que deve ser feito para proteger o caixa, para que os recursos dos clubes sejam utilizados da melhor maneira possível", completou.

Alguns países começaram a se mobilizar para tentar diminuir o golpe. Apesar de não ter uma liga de alto valor de mercado, a Bolívia tem negociado entre dirigentes de clubes e sindicatos de jogadores uma maneira de se reduzir os salários enquanto a suspensão do calendário estiver em vigor. A ideia veio da própria Federação Boliviana de Futebol (FBF).

POSSÍVEIS SOLUÇÕES

Se o cenário é de reduzir o prejuízo, algumas soluções no Brasil podem ser úteis. Nesta semana, clubes acionaram o Ministério da Economia para solicitar a suspensão temporária do pagamento das parcelas do Profut, programa de refinanciamento de dívidas fiscais do futebol estabelecido em 2015. Quem tomará a decisão final sobre o pedido é o responsável pela pasta, Paulo Guedes.

"Os clubes precisarão de fôlego financeiro, pois suas fontes de receitas podem secar neste período. Uma das alternativas seria a suspensão do pagamento das parcelas mensais do Profut", afirmou o advogado especializado em direito desportivo Eduardo Carlezzo. "Uma questão que deverá ser enfrentada, caso a paralisação das competições se alongue, é a suspensão dos contratos dos atletas enquanto perdurar a crise. Dezenas de clubes não suportarão pagar salários sem que estejam disputando algo", completou.

Para o professor de marketing esportivo da ESPM Ivan Martinho, a hora é de as equipes diversificarem receitas e buscar lucrar com outras áreas. "A criatividade é a resposta. A condição que estamos passando nos dá a chance de inventar e ousar. Ainda temos gente que está querendo consumir futebol", explicou. A dica dele é apostar na internet nesta época de quarentena, com interatividade entre torcedores, vídeos de gols antigos e atuação dos jogadores em torneios online de videogame.

Outra indicação é de usar a própria preocupação mundial com a pandemia em um instrumento para reforçar a marca e imagem dos clubes em campanhas. "Estamos em uma fase do marketing que não importa só expor a marca, é importante olhar os valores. O futebol não está deslocado da realidade do mundo e pode ter um protagonismo como preservação pública", avaliou Bruno Maia, ex-vice-presidente de marketing do Vasco, diretor executivo da Agência de Conteúdo 14 e especialista em negócios e novas tecnologias no esporte.

O líder de mercados da KPMG André Coutinho relembra que mesmo sem o calendário, os clubes vão conseguir manter a torcida e um grande potencial para diminuir perdas. "Nenhuma empresa no mundo tem milhões de clientes tão cativos quanto os clubes. É um público leal e que consome sem precisar fazer muito esforço. Será preciso fazer um marketing diferenciado para esse período", comentou.

 

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