Rodrigo Corsi/FPF
Rodrigo Corsi/FPF

FPF distribui mais de R$ 53 milhões aos clubes em três anos

Candidato único, atual presidente será confirmado para novo mandato à frente da entidade que comanda o futebol paulista

Rafael Franco, O Estado de S.Paulo

30 Agosto 2018 | 05h00

Sem nenhuma chapa de oposição inscrita até o prazo limite, que venceu no último dia 15, Reinaldo Carneiro Bastos será reeleito presidente da Federação Paulista de Futebol  (FPF) nesta quinta-feira em Assembleia Geral Ordinária, marcada para começar às 14 horas, na sede da entidade, que servirá apenas para formalizar a sua continuidade no cargo para um novo mandato entre 2019 e 2022.

E a reeleição para um novo mandato como presidente está inevitavelmente ligada ao fato de que hoje a grande maioria dos clubes é financeiramente dependente da FPF. Esta manutenção de poder também foi garantido com o aumento expressivo de repasses de verbas aos times a partir de 2015, quando Reinaldo Bastos assumiu a presidência e o balanço oficial da própria entidade declarou, ao fim daquele ano, que distribuiu R$ 17,3 milhões aos seus clubes filiados.

Em seguida, em 2016, este valor subiu ainda mais e atingiu R$ 20,9 milhões, antes dos R$ 17,2 milhões fornecidos às equipes no ano passado. Para se ter uma ideia de quão expressivos são estes montantes, em 2014 as chamadas "contribuições e subvenções" aos times, descritas pela FPF em suas demonstrações financeiras, foram de R$ 7,8 milhões, menos da metade do que foi repassado em cada um dos anos seguintes, que totalizaram R$ 53,4 milhões.

Esse aumento de receitas aos clubes, de 2014 para 2017, foi de 120% e deverá ser elevada a R$ 129,3% no final deste ano se a FPF cumprir a distribuição prevista de R$ 17,9 milhões, quantia orçada para 2018.

Procurada pela reportagem do Estado nesta quarta-feira, a FPF confirmou todos estes números, por meio de sua assessoria, e também informou que, em cotas e patrocínios acertados apenas para 2018, disponibilizará mais de R$ 145 milhões até o fim do ano. O valor previsto de R$ 145.076.750,00 é 40,5% maior do que o total pago aos times das Séries A1, A2, A3 e da Segundona (quarta divisão estadual) em 2014, quando as equipes receberam R$ 103.225.000,00 por meio desta mesma fonte de receitas. A FPF, no entanto, explicou que o subsídio se destina a ajudar clubes.

Com estas cifras altas como trunfo, a FPF chegou a ver Del Nero articular nos bastidores para tentar retomar o poder na entidade por meio dos seus aliados, pois está banido do futebol por corrupção e não pode concorrer a qualquer cargo. Ex-mandatário da entidade paulista e da CBF, ele prometeu ajuda financeira e até regalias a dirigentes de clubes nos quais tem bom trânsito, entre eles Marquinho Chedid, presidente do Bragantino, que chegou a despontar como possível candidato de oposição na eleição desta quinta-feira.

Sob influência de Del Nero, Chedid liderou um movimento batizado de “Renovação do Futebol Paulista”, que fez várias reivindicações à FPF e entregou um documento aos clubes do Estado no qual cobrou mudanças e a instituição de um calendário anual para as equipes e também o aumento de 100% a 200% dos valores das cotas pagas aos times que hoje integram as Séries A2 e A3 e a Segundona estadual.

Del Nero tinha a intenção de desidratar a candidatura à reeleição de Reinaldo Bastos, mas o movimento, lançado em julho, ficou longe de ameaçar a continuidade do presidente no cargo. E assim Chedid desistiu de liderar uma chapa de oposição ao anunciar, no início deste mês, que houve um entendimento com a atual gestão da FPF para cumprir ao menos parte das reivindicações enumeradas em 12 itens revelados em um documento distribuído aos clubes no dia do lançamento do movimento.

NO PODER HÁ MAIS DE 3 DÉCADAS

Sem força para tirar Reinaldo Bastos da presidência, o filho de Nabi Abi Chedid, ex-vice-presidente da CBF, adotou um tom ameno e de conciliação com a gestão atual e se viu obrigado a se conformar com a perpetuação de poder que já completa mais de três décadas na FPF. 

O último candidato de oposição a ser eleito presidente da entidade foi José Maria Marin, hoje preso e sentenciado por corrupção nos Estados Unidos, em um pleito ocorrido em 1982, quando Nabi Abi Chedid, então mandatário do futebol paulista, fracassou em sua tentativa de se reeleger.

Depois disso, Eduardo José Farah venceu Carlos Alberto de Oliveira de forma massacrante como candidato da situação, por 148 a 2 votos, em uma eleição ocorrida em 1987. E ele se manteve no cargo entre 1988 e 2003. Neste último ano, Farah renunciou ao posto e deu lugar a Marco Polo del Nero, que ficou na presidência até 2015. Antes de ser banido do futebol por corrupção, Del Nero saiu do cargo para assumir a CBF e assim abriu espaço para o que Reinaldo Bastos, então o seu vice na FPF, fosse alçado ao posto de principal líder da entidade paulista.

Candidato único na eleição desta quinta-feira, Reinaldo Bastos terá sua permanência no cargo confirmada em uma assembleia que também servirá para eleger dois vice-presidentes da diretoria da FPF, além de três membros efetivos e dois do Conselho Fiscal para este mandato de 2019 a 2022.

ANÁLISE DE ALMIR LEITE: Dinheiro em troca de voto é velha estratégia

A estratégia não é nova. Ao contrário, é utilizada desde os tempos em que Ricardo Teixeira era presidente da CBF. Funciona de maneira simples: dá-se incentivo financeiro em troca de votos. Na CBF, o dinheiro é destinado às federações – em algumas ocasiões clubes foram “agraciados’’. Nas federações, vai para o clube filiado.

No caso da Federação Paulista, Reinaldo Carneiro Bastos, ao distribuir “incentivos’’ aos clubes, imita seu antecessor, Marco Polo del Nero. Foi com ele que aprendeu. Aliás, segundo registros, Del Nero tentou derrubar Reinaldo nesta eleição. Só não contava que a estratégia que ensinou fosse usada contra si.

Deve-se ressaltar, porém, que a distribuição de verba para os clubes não é ilegal. Aliás, sem os clubes as federações não ganhariam dinheiro. É justo, portanto, que fiquem com parte do quinhão. O perverso é o sistema, que vincula o voto ao dinheiro. Ou vice-versa.

 

 

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