Fracassos afastam Careca do futebol

Alegando falta de recursos financeiros, o ex-craque Careca resolveu tirar o time de campo. O Campinas, clube fundado em 1998, pediu oficialmente o afastamento do Campeonato Paulista da Série B-2, a quinta divisão do Estado. Na realidade, Careca está com seu prestígio abalado e com seu patrimônio dilapidado. "Precisamos de um fôlego para reestruturar a casa", argumentou o ex-jogador revelado pelo Guarani, com passagens brilhantes pelo São Paulo e pelo Nápoli da Itália, que defendeu a Seleção Brasileira e atuou no futebol japonês. Aos 40 anos, o balanço da vida do jogador não é nada positivo. Depois de acumular uma verdadeira fortuna com a bola, ele perdeu quase tudo na tentativa de se tornar um empresário de futebol. A explicação para esta reviravolta é simples: a péssima administração dos negócios. Um dos maiores fracassos empresariais do jogador foi a seu Centro de Treinamento, inaugurado com pompa de em 1998 ao custo estimado de US$ 5 milhões, mas que se transformou apenas numa academia de luxo. Na época, recém-chegado do Japão, ele também esperava ganhar muitos dólares ministrando treinamentos para jovens japoneses. A idéia era trazer para Campinas cerca de 100 japoneses ao custo mensal de US$ 3 mil cada , tanto que uma enorme estrutura foi adaptada para recepcionar os jovens aprendizes. Quando a obra estava pronta, aconteceu a inesperada crise econômica japonesa com conseqüências diretas no futebol. Todo investimento foi perdido. Além destes grandes erros, o empresário Careca perdeu muito dinheiro em outros negócios maus feitos, como uma concessionária de automóveis importados e alguns postos de gasolina. No futebol, mais problemas. A expectativa era ter um time profissional, descobrir craques e vendê-los por milhões aos investidores internacionais. Em três anos de profissionalismo, o Campinas não conseguiu revelar ninguém e Careca se viu obrigado a intermediar algumas negociações para o exterior, principalmente para a Itália e o Japão, onde ainda goza de prestígio. No começo do ano foi acusado pela CPI do Futebol de falsificar passaportes de dois atletas: o zagueiro Dedé, do Primavera de Indaiatuba, e o atacante Jeda, do União São João de Araras. Os insucessos no futebol se acumularam ao mesmo ritmo que ganhou fama de ser mau pagador, com atrasos de salários de jogadores e por falta de cumprimento em acordos. Careca nega qualquer irregularidade, apesar das reclamações como do ponta-esquerda João Paulo, ex-Seleção Brasileira, com quem atuou no Guarani. O atacante, que defende o União de Araras, alega que tem direito a US$ 25 mil por uma rápida passagem, ano passado,no Japão. As dificuldades financeiras ultrapassaram os limites empresariais, afetando diretamente sua vida particular. Ele se desfez da maioria de suas propriedades, que ultrapassavam a mais de uma centena só em Campinas. Temendo cobranças futuras, ano passado, Careca passou alguns poucos imóveis no nome da esposa Maria de Fátima para se resguardar do pior. Mesmo assim, perdeu para agiotas o apartamento de cobertura que tinha no Cambuí, bairro nobre de Campinas, avaliado em US$ 1 milhão. O afastamento do Campinas de competições oficiais é, portanto, apenas conseqüência de uma série interminável de erros. A falta de recursos, de apoio político e de um estádio próprio são atenuantes da grande decadência vivida por um dos maiores centroavantes do futebol brasileiro.

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