Jamil Chade/ Estadão
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França usa boa parte do prêmio da conquista da Copa para investir na base

Federação de futebol do país distribuirá R$ 44 milhões para clubes investirem no futebol juvenil

Jamil Chade - Correspondente/ Genebra, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2018 | 04h30

Na pequena cidade de Sciez, nem o frio de 6°C parece reduzir a euforia de cerca de 40 garotos reunidos para um treino semanal. Com uniformes e um gramado decente, todos escutam com atenção as recomendações do técnico. “Estamos treinando técnica”, comenta um dos meninos, mostrando como chuta com a parte interior do pé. São garotos de 5 a 7 anos de idade. E são clubes como o de Sciez que começarão a receber os dividendos da conquista da seleção francesa na Copa do Mundo

Meio ano depois de levantar a taça mais cobiçada do esporte, a Federação Francesa de Futebol (FFF) começa a distribuir parte do prêmio de 32 milhões de euros (R$ 142 milhões) obtido na Rússia para seu futebol amador e juvenil, considerado o celeiro de um país que passou a se acostumar a estar na elite do futebol. Os franceses foram campeões do mundo em 1998, campeões europeus em 2000, finalistas na Copa em 2006, finalistas na Eurocopa de 2016 e, neste ano, bicampeões mundiais.

Ao Estado, os dirigentes da FFF afirmam que esses resultados são frutos de um trabalho de base “constante e em dimensões nacionais”. Para 2019, a estratégia não muda, e os dirigentes decidiram dividir em partes iguais o prêmio aos jogadores que conquistaram a Copa e os investimentos destinados a fortalecer os pequenos clubes amadores no interior do país. 

Cerca de 10 milhões de euros (R$ 44,3 milhões) serão usados para adquirir material e uniformes para todos os clubes com mais de cem garotos licenciados. Alguns critérios, porém, devem ser cumpridos: a associação precisa ter uma escola de futebol ou um time feminino. 

Essa quantia se soma ao orçamento que já estava previsto de 86 milhões de euros (R$ 381 milhões) para o desenvolvimento do futebol amador e juvenil. Um compromisso, porém, une todos os clubes: revelar novos craques e manter a federação informada sobre o surgimento de talentos, em qualquer canto da França. 

A expectativa da FFF é de que a nova conquista tenha levado a uma alta no número de inscrições nas escolinhas. Em 1998, depois da festa do primeiro Mundial, diante do Brasil, foram 240 mil novos registros de garotos que queriam jogar em clubes amadores. A Eurocopa de 2016, também realizada na França, gerou novo fluxo de garotos, com aumento de 15% em comparação ao ano anterior. 

Antes do Mundial deste ano, mais de 2,1 milhões de pessoas estavam inscritas oficialmente e centenas de clubes de regiões afastadas no país já não tinham mais condições de atender ao volume de meninos que sonhavam ser o novo “Mbappé” ou “Griezmann”, os craques da seleção francesa na Rússia.

Os recursos, portanto, chegam em um momento ideal, inclusive para atender à nova demanda. Alguns dos centros de treinamentos já começam a ter seus primeiros dados completos para 2019. Na região de Isere, o aumento de registros foi de 10%. Nas proximidades de Marselha, a alta chega a 41%. “Vimos um aumento no número de garotos querendo treinar”, diz Jason da Costa, um dos treinadores do Sciez, equipe que entra em campo toda de preto. Aos sábados, ele leva garotos para jogar pela região, em uma espécie de torneio com pelo menos mais oito times locais. “O impacto da Copa é claro”, diz. Hoje, são 220 filiados ao pequeno clube à beira do Lago Leman.

A Federação Francesa, além dos novos recursos, decidiu certificar mais 802 clubes de futebol para a temporada, 304 deles são dedicados exclusivamente aos mais jovens, enquanto outros 498 receberam o certificado de “Escola Feminina de Futebol”. Outra iniciativa dos franceses para não perder o momento de euforia é o de usar outros 30 milhões de euros (R$ 133 milhões) dados pela Uefa ainda pela Eurocopa de 2016 para incrementar a infraestrutura desses pequenos clubes, considerados como peças centrais de uma verdadeira rede de olheiros cujo objetivo é o de preparar a nova geração de craques franceses. 

Não falta dinheiro para a formação fora de campo. 3 milhões de euros (R$ 13,3 milhões) foram reservados para treinar dirigentes locais sobre como administrar seus pequenos clubes. Para completar, 50 mil bolsas foram criadas para treinar educadores esportivos em todo o país. 

Entre os dirigentes da FFF, o orgulho de ser um dos novos celeiros de atletas da Europa não consegue ser disfarçado. Em Paris, todos têm os números de memória. Depois de brasileiros e argentinos, a França é o país que mais fornece jogadores para a elite do futebol. Em 2018, 732 deles estavam atuando pelo mundo, dos quais 92 no competitivo e forte futebol inglês.

Para 2019, já há quem estime que os franceses vão superar a Argentina, com 760 jogadores espalhados pelo mundo. O Brasil, porém, ainda lidera esse ranking global com 1,2 mil atletas atuando no exterior. 

Na Copa do Mundo da Rússia, 50 jogadores nascidos e crescidos na França atuaram por diferentes seleções, incluindo Portugal, Senegal, Marrocos e Tunísia. O número, dizem os orgulhosos franceses, é superior ao total de brasileiros que estiveram na competição de 2018. 

Num sábado de fim de outono na Europa, o grupo de garotos de Sciez se despede de mais um dia de torneio. São filhos de franceses, árabes, espanhóis, portugueses e latino-americanos. Mas basta um deles puxar a Marselhesa para que todos os demais sigam o coro, como se estivessem entrando em campo vestidos de azul e com, agora, duas estrelas no peito.

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