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Fraturas são-paulinas

Alexandre Pato usou entrevista para pedir socorro à diretoria do São Paulo

Paulo Calçade, O Estado de S. Paulo

24 de agosto de 2015 | 03h00

Quando Pato, normalmente um sujeito muito feliz, se escala para falar depois de uma derrota para os reservas do último colocado da Série B, é sinal de perigo iminente. É o medo de perder Juan Carlos Osório para a rotina que destroça treinadores ou que o novo comandante se canse dos obstáculos impostos pela gravíssima crise financeira do São Paulo.

Desde a contratação do colombiano, oito jogadores foram negociados. Nem todos seriam titulares, mas certamente Denílson, Souza e Dória poderiam contribuir bastante. Boschilia, por exemplo, teria sido útil contra o Flamengo, na vaga de Ganso.

Pato usou sua entrevista de sexta-feira para defender a permanência do treinador e pedir socorro à diretoria, que segundo ele poderia se aproximar mais dos jogadores. Ainda vinculado ao Corinthians, e podendo ser negociado até o fim do mês, o atacante simboliza as fraturas são-paulinas dentro e fora do campo.

Fraturas nas arquibancadas, onde torcedores uniformizados e “comuns” não se entendem, fraturas dentro de campo, com jogadores divididos entre apoiar ou não o treinador que altera escalações e funções. Michel Bastos está nitidamente fora do eixo na posição de segundo volante e não parece disposto a colaborar.

Explicar o São Paulo e a metodologia de trabalho de Osório não é simples. A crise é complexa, vem de fora de campo para dentro. Mesmo que o clube estivesse politicamente apaziguado e com o caixa em ordem, ainda assim algumas decisões surpreenderiam.

A opção por um treinador estrangeiro determina formas diferentes de pensar o futebol. Se fosse para fazer mais do mesmo, o São Paulo não teria ido tão longe buscar um profissional com formação especial.

Quando um jogador brasileiro é contratado por uma equipe europeia, cabe a ele se adaptar a uma estrutura completamente diferente, das questões técnicas às administrativas e comportamentais.

Agora imagine um treinador com a missão de mudar 30 cabeças, algumas acomodadas, outras em conflito, e com o campeonato em curso, sem muito tempo disponível para treinamentos. Fora os desfalques.

Dentro de uma visão bem brasileira de enxergar o futebol, a questão da titularidade dos jogadores é fundamental. Outro pilar importante do rendimento é treiná-los exaustivamente, em dois períodos, e colocá-los em campo duas vezes por semana. Nesse sistema, o entrosamento é resultado da repetição. Não está errado, funciona assim há décadas.

Mas é possível trabalhar para que todo o grupo esteja preparado para entender e jogar de uma forma mais inteligente, coletivamente mais rica. Desta forma, aquilo que entendemos como entrosamento será transformado em princípios de jogo bem definidos, que todos saberão executar dentro de campo.

Isso explica a dificuldade de Osório administrar o time. Sozinho, ele tenta transformar uma cultura futebolística que produziu vários títulos memoráveis e também derrotas inesquecíveis.

Seu erro, talvez, esteja no ritmo da adaptação que pretende implementar. Contra o Flamengo, não teve muitas alternativas, apesar de manter Carlinhos como atacante pela direita. Escalou o time possível e viu erros individuais assustadores.

Quando Pato pede a diretoria mais próxima dos jogadores, talvez seja para ajudá-los a pensar mais coletivamente, pois está perigoso. No meio dessa confusão, professor Osório precisa ir mais devagar.

Contra o Ceará, poderia ter colocado em campo uma estrutura mais simples, capaz de garantir a vitória depois da derrota para o Goiás. Ousado demais, pagou caro.

Pato está certo. O time passa sensação de abandono. A diretoria deve estar mais presente e explicar aos descontentes que Osório está prestigiado. Que perigo!

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